Sociedade

Pais obrigados a transferir filhos para escolas públicas

Não se conhecem: Arão Manuel e Maria Teka. A primeira pessoa é professor universitário, formado em Sociologia. A segunda, é vendedora do mercado do Palanca, sem escolarização. Ambas vivem um revés nos dias de hoje:  insuficiência financeira para pagar propinas dos filhos em colégios privados.

Os dois encaixam-se na legião de milhares de encarregados de educação que sentem na pele a crise financeira que afectou, em demasia, as famílias em Angola. O dinheiro perdeu valor. A matemática, sempre vista como dantesca, só redobrou ainda mais as dificuldades de Arão e Teka, sobretudo na hora de fazer cálculos das despesas domésticas.
Foi à porta de casa, no bairro Benfica, que Arão Manuel recebeu-nos bem à maneira de um homem janota: casaco preto às riscas a condizer com as calças. Tem barba aparada, porém invadida de profusos fios de cabelo branco. Durante muitos anos, ele tinha preferência em matricular as  quatro filhas em escolas privadas, por causa da qualidade.  Qualidade que Arão Manuel supõe que, na altura, era tangível nos colégios privados. Outro motivo, não menos importante, como faz questão de contar, era o poder de compra que permitia assumir as despesas familiares. “O dinheiro tinha peso, era possível darmos o mínimo aos nossos filhos. Hoje, meu caro, com a depreciação do kw-anza, o que ganhamos é uma miséria e não está a dar para suportar as necessidades básicas da família”, desabafa, com uma porção profunda de angústia.
As filhas, com idades compreendidas entre os 9 e 15 anos, estudavam, até ao ano passado, numa escola privada das redondezas, a meio quilómetro de casa. Foi uma ginástica as meninas terminarem o ano lectivo passado, pois a crise financeira atingiu, sem precedentes, os bolsos de Arão e os de muitos angolanos, que ganham a vida dignamente.
Quando o dinheiro valia, por aula o professor Arão embolsava, em kwanzas, o equivalente a 35 dólares. Agora, o valor passou para menos de 15 dólares.
O telefone de  Arão Manuel toca. Uma chamada de emergência.  A conversa tem continuidade no interior da via-
tura. Na manhã de uma sex-ta-feira, quando tentamos o primeiro contacto, por telefone, ele estava a lutar por uma vaga para a filha de 15 anos, numa escola do II ciclo, na Centralidade do Kilamba. Inicialmente, o nome não constou da lista. “Por intermédio de amigos consegui uma vaga, e só foi possível esta manhã”, conta Arão, tendo sublinhado que, se nada desse certo, a filha ficaria na lista dos cerca de dois milhões de crianças fora do sistema do ensino em 2018.
Deixamos o areal do Benfica e seguimos pela Via Expressa, onde o trânsito era fluído tal como os desabafos do encarregado. Além da razão económica, também retirou as filhas por acreditar que as escolas privadas baixaram de qualidade, com a desistência de professores.  Os baixos salários podem ter levado alguns professores de colégios a procurarem outros empregos, a darem aulas em mais colégios, transformando-se em “garimpeiros” para juntar o pouco de cada labuta. Os salários estão minúsculos com a depreciação da moeda. O sustento da família de Arão, constituída por seis pessoas, exige ginástica.
Como os filhos reagem à mudança da escola? O encarregado Arão Manuel responde, sem pestanejar, e, numa voz gutural, diz: “tudo passa pelo diálogo”. Não muda de tom, não obstante a pausa.
“Expliquei-lhes que a si-tuação financeira, minha e da mãe delas, estava insustentável, persuadindo que continuariam a estudar numa escola estatal”.
À conversa é colocado um ponto. Arão desce próximo a uma universidade. Em menos de dez minutos, estamos de regresso. A entrevista continua na mesma linha. “As amigas das minhas filhas são as próprias colegas da escola, a maioria vizinhas. É preciso muito diálogo para não se sentirem acanhadas, pelo facto de as outras continuarem no colégio e elas não.”
É por esta via que também Maria Teka convenceu o filho a estudar numa escola púb-lica. O diálogo com o filho de 12 anos foi menos dificultado para Maria Teka, uma vez que o seu menino terminou o ano lectivo transacto com falta de pagamento de quatro meses.
O Mercado do Palanca está com pouco movimento. São 12 horas. Tem uma bacia coberta, por cima de um banco de madeira. Uma sombrinha extensa com as cores verde e amarela oferece uma ténue sombra. De segunda a sábado, desperta às 5 horas para iniciar a venda de quissângua em sacos de plástico e bidões apanhados na via pública. Aos 50 anos, rosto eriçado por culpa da pobreza, ela fala com sotaque do Norte, onde o “r” é acentuado.
“Os negócios foram-se abaixo. Vendia roupa, mas os armazéns subiram os preços e o meu dinheiro arreou”, explica, enquanto convida o repórter a abrigar-se do sol abrasador.
Mais uma confidência: na sexta-feira última, a situação da escola do filho ficou resolvida.  No processo de matrículas, recebeu a informação da falta de vagas em duas escolas que visitou. Numa delas, uma pessoa de boa-fé ficou com a documentação e conseguiu vaga para a escola 6015.
Não fosse o bom senso do colégio, que fechou os olhos à dívida do ano anterior, Maria Teka está ciente de que o filho ficaria sem estudar este ano lectivo. Vestida de traje africano, a vendedeira solta a voz, agarrando-se aos princípios  bíblicos: “Deus operou", afirmou Maria Teka, assegurando que está a juntar dinheiro para pagar a dívida contraída ao colégio.
Com os chinelos cheios de pó, ela diz, com firmeza, que o filho tem de estudar para não viver as mesmas dificuldades da família.

  Poucas matrículas abalam colégios em Luanda

Pereira Francisco é o director do colégio Nádia Neves. Enquanto os alunos e professores estão instalados nas salas de aula, ele aproveita o pouco tempo que dispõe para tomar o pequeno almoço na cantina. Conta enquanto comia, que os pais e encarregados de educação têm, desde o ano passado, sentido dificuldades para  pagar a propina. A crise financeira no país contribui para a redução do número de alunos. No ano passado, tinham mais de 600 alunos e este ano notam uma redução de perto de 200 alunos. O colégio, do I e II ciclos, cobra propinas que variam dos três mil a 5.500 kwanzas.
Este ano, num universo de quarenta pais, apenas três conseguiram fazer o pagamento da matrícula e o primeiro mês de propina.
A maioria dos encarregados diz não ter ainda  dinheiro, o que vai dificultar o pagamento dos salários. O director pedagógico explica que, este ano, a direcção do colégio terá de fazer muita ginástica para pagar atempadamente os salários dos professores, em função dos atrasos registados no pagamento dos ordenados dos pais e encarregados de educação.
“Quando o pai não tem salário na hora, claro que dificulta”, explica Pereira Francisco, soltando um sorriso. O colégio tem encarregados com o estilo de vida de Maria Teka, com propinas em atraso, por motivo da crise  que afecta o rendimento das famílias.  Muitos alunos têm matrículas condicionadas, não obstante frequentarem as aulas.
Pereira é o único cliente na cantina. Do outro lado da prateleira, está uma funcionária que não retira os ouvidos à conversa. Os alunos que terminaram a 6.ª e a 9.ª classes foram para as escolas públicas. “Estes já não se matricularam no colégio”, revela, acreditando, tal como o encarregado de educação Arão Manuel, que terá sido o motivo principal das enchentes registadas nas escolas estatais.
Pereira Francisco conta que os pais com dois filhos apenas deixaram o mais novo no colégio, para aliviar o orçamento familiar. O mesmo cenário ocorre no Instituto Médio de Gestão da Água e Preservação Ambiental. Encontramos o presidente do Conselho de Administração do grupo e proprietário do colégio, Francisco Lopes, o director-geral, Paulo Ribeiro, e o director pedagógico, Ma-nuel Domingos. É no gabinete de Francisco Lopes, que se desenrolou a conversa sobre  assuntos ligados ao saneamento e tratamento de águas residuais e pluviais.
Com capacidade para mil alunos, este colégio mantém os 118 alunos matriculados. Os três concordam que a situação financeira é insustentável, o que faz com que boa parte das famílias diminuam a procura de formação técnica em instituições privadas.
Francisco Lopes diz que há encarregados que não liquidaram a dívida do ano passado e 40 por cento não pagou a primeira mensalidade por dificuldades financeiras. Este colégio acres-
centou às propinas mil kwanzas, alterando de 13 para 14 mil kwanzas.
Apesar do reduzido nú-mero de alunos, a direcção do colégio acredita que alguns pais impossibilitados de matricularem os filhos nas escolas públicas podem, em breve, encontrar solução nas escolas privadas.