Sociedade

Joseph Miller, o legado do historiador da Escravatura e do Tráfico de Escravo

O historiador norte-americano Joseph Calder Miller, 79 anos, era aguardado este mês na selectiva Escola Normal Superior de Lyon, em França, num colóquio sobre a escravatura, tema de que era o maior especialista a nível do Mundo.

O historiador e pesquisador Salah Trabelsi esperava rever Miller. Mas não pôde. O renomado académico, que efectuou trabalho de campo em Angola, nos últimos 40 anos, e produziu obras de referência sobre a História de África e de Angola, não resistiu a um cancro agressivo, que o venceu no passado dia 12.
Como a maior parte dos seus colegas, Salah Trabelsi, reconhecido pesquisador sobre a “Rota dos Escravos”, soube igualmente pelas redes sociais e pela família.
“É verdadeiramente triste. Esperava revê-lo em Lyon, este mês. Paz à sua alma”, escreveu Trabelsi, cujas pesquisas trouxeram à tona evidências de que as caravanas que atravessaram o deserto, rumo ao Magreb e ao Egipto, eram tão cruéis quanto às caravelas que cruzavam o Atlântico, mostrando que, entre os séculos VII e XX, a civilização árabe-mulçumana importou mais do que o dobro dos negros desembarcados na América.
Homem simples e intelectual, de reconhecido mérito, Joseph Miller destaca-se assim pelo seu recurso às fontes orais, aliado à exploração das fontes escritas, em trabalhos rigorosos, quer na sua abordagem do pensamento histórico, quer em estudos adicionais em antropologia. Professor de História na Universidade de Virgínia, o académico contribuiu com várias obras sobre a História de África, nomeadamente, a de Angola e a do Tráfico de Escravo Transatlântico. Ao longo da sua carreira, recebeu vários prémios.
Entretanto, Miller revelou-se mais orgulhoso quando lhe foi atribuído o Prémio Herskovits, pela Associação de Estudos Africanos, pela monumental obra “Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade, 1730–1830” (Caminho da Morte: O Capitalismo Mercante e o Comércio de Escravos Angolanos, 1730-1830), obra fundamental para a compreensão do Tráfico Transatlântico. Miller parte assim sem ver a tradução em Língua Portuguesa publicada.
Em 2017, quando esteve pela última vez no Brasil, a propósito da conferência “Poder e Dinheiro na Era do Tráfico”, os historiadores brasileiros Toby Green, João José Reis e Carlos Silva Júnior lamentaram, em conversa com Miller, que o seu importante livro, “Way of Death”, nunca tivesse sido publicado em português. Miller confessaria que a tradução estava pronta, mas o editor não estava entusiasmado com a sua publicação.
“O seu grande livro (“Way of Death”) sobre Angola na era do tráfico de escravos (que esperamos seja publicado em Português) era um daqueles trabalhos de fôlego que vão continuar relevantes por muitas décadas”, reconhece o historiador brasileiro Carlos Silva Júnior, que conheceu Miller pessoalmente em 2017, na Bahia, quando o viu esforçar-se para apresentar o seu trabalho em Português. Segundo o brasileiro, Miller terá ficado muito entusiasmado com o crescimento dos Estudos Africanos no Brasil.
O professor de História na Universidade de Virgínia (EUA) veria, entretanto, traduzida para o Português outra obra de igual mérito. Publicada originalmente em 1976, o livro “Kings and Kingsmen” - traduzida para Português como “Poder Político e Parentesco – Os Antigos Estados Mbundu em Angola”) acabou por ser editado em 1995, pelo Arquivo Histórico Nacional (AHN), numa iniciativa que marcava o 20º Aniversário da Independência de Angola.
No prefácio à referida obra, assinado pela então directora do AHN, Rosa Cruz e Silva, que viria a ser a ministra da Cultura, justifica-se que o trabalho do Professor Miller “responde aos anseios de uma historiografia renovada que se reclama entre nós e se constrói com base numa metodologia de complementaridade das fontes disponíveis para o exercício do fazer histórico”.
Doutorado em França e agora um influente professor naquele país e nos EUA, o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro coloca Joseph Miller no mesmo patamar que os seus pares David Birmingham e Jill Dias, grupo que considera ter fundado a moderna historiografia angolana.
“Um homem generoso e um africanista brilhante", comenta Luiz Felipe de Alencastro, autor de “O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII”. No livro, defende que “não é a América Latina o lugar de formação do Brasil, mas o Atlântico Sul”, em que Angola se insere.

Um gigante no campo da história de África

Durante os 46 anos em que trabalhou na Universidade de Virgínia (EUA), Miller recusou outras posições, incluindo um convite para ingressar na Faculdade de História, em Harvard. Conhecido como um “gigante no campo da História de África e da História mundial da Escravatura”, o seu trabalho concentrou-se especialmente em todo o Atlântico Sul.
Valorizando o testemunho oral como imprescindível para o estudo das sociedades africanas, o trabalho de Joseph Miller “foi pioneiro, no caso de Angola”, sendo “exemplo de investigação onde se relacionam os métodos da História e da Antropologia (com apoio da Linguística), abriu um caminho essencial ao conhecimento do passado angolano”. Escreveu Rosa Cruz e Silva sobre o historiador, que, enquanto presidente da Associação de Estudos Africanos (2005-2006) e da American Historical Association (1998), dedicou-se a orientar outros estudiosos e apoiou os esforços para construir redes entre os pesquisadores da África lusófona.
“Miller foi uma fonte de inspiração para muitos africanistas, aqueles que estudam a África Centro Ocidental ou outras regiões do Continente”, escreveu nas redes sociais o historiador Carlos Silva Júnior, pesquisador baiano que se interessa pela História de Angola, sobretudo em relação à influência dos escravos na Bahia. “A historiografia africanista perde um dos seus principais representantes, mas o seu legado continua”.
O escritor e historiador Alberto Oliveira Pinto, vencedor do prémio Sagrada Esperança, com o livro “Imaginários da História Cultural de Angola, considera Joseph Miller “um nome incontornável na historiografia de Angola e na própria História de Angola”. Investigador do Centro de Estudos Africanos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alberto Oliveira Pinto explica que o historiador norte-americano, que teve o prazer de conhecer em 1997, quando escrevia a sua obra “Mazanga”, fez parte da sua formação.
“Também é uma referência para mim, evidentemente!”, escreve Alberto Oliveira Pinto, natural de Luanda, membro da UEA e autor de uma vasta obra sobre África e Angola, em particular. Em 2016, lançou o livro História de Angola, obra de 777 páginas, para a qual recorre a fontes orais, escritas e arqueológicas. É com base neste livro que Oliveira Pinto desenvolve, em Lisboa, o Curso Livre História de Angola, onde o nome de Joseph Miller tem sido permanentemente citado.
Contactado por telefone, o antropólogo angolano Virgílio Coelho começa por considerar uma grande perda a partida de Miller. É que a sua obra “Poder Político e Parentesco – Os Antigos Estados Mbundu em Angola” é bastante referenciado nos trabalhos do pesquisador e docente universitário, que se dedica ao estudo dos povos Kimbundu.
Antigo vice-ministro da Cultura e autor de “Em busca de Kabasa : uma tentativa de explicação da estrutura político-administrativa do Reino do Ndongo”, Virgílio Coelho diz que Miiler é uma referência indiscutível na historiografia angolana, em particular pelo seu rico trabalho sobre as comunidades de língua Quimbundo dos séculos XVI e XVII.
“Tratou de muitas questões pertinentes que era importante dar a conhecer à academia angolana”, diz Virgílio Coelho, justificando as referências que constam dos seus trabalhos. “Foi o maior especialista do mundo sobre a Escravatura e o Tráfico de Escravo”, assegura. E é uma pena que a sua maior obra sobre o assunto, Way of Death, não esteja publicada em português.