Reportagem

Vendedores abandonam novo mercado no Lubango

A ausência de peixe seco e milho, indicados como produtos tradicionais do antigo mercado informal “João de Almeida”, é dos motivos do regresso dos vendedores que haviam sido transferidos, em 2014,  para o mercado do Rio Nangombe, arredores da cidade do Lubango, província da Huíla.Tarde de quarta-feira.

O mercado do "João de Almeida" regista uma enchente. A azáfama de venda e atendimento ao cliente é permanente, apesar da sua transferência ter sido efectivada em 2014. No mercado vende-se de tudo um pouco, desde bens alimentares, medicamentos, madeira, chapas de zinco, material de construção civil, roupa usada, acessórios de motorizadas, viaturas, bicicletas e outros bens.
Com rapidez e com aflição, própria de ter um parente doente, Cafuíle apresenta a receita médica, de um parente internado no Hospital Central do Lubango, Doutor António Agostinho Neto, por estar a padecer de malária.
O complexo B e outros medicamentos antimalária fazem parte da receita que é imediatamente atendida pelo vendedor identificado apenas por Paulo, como disse à reportagem do Jornal de Angola no local. Abel Malaquinas, 30 anos, solicita, embora com ausência de uma receita mé-dica, uma bisnaga denominada Ketaconazol, para curar fungos.
A procura dos medicamentos no local justifica-se pelo preço que é praticado, comparativamente às farmácias existentes na cidade do Lubango. “Aqui tem tudo. Só temos que ter cuidado por causa dos agentes da ordem, que expulsam os vendedores, para irem ao mercado novo”, disse Abel Malaquias.
 
Reclamação dos vendedores
A falta de energia eléctrica, a existência de ravinas no interior do mercado e dos pontecos na estrada que dá acesso ao mercado do Rio Nangombe, na Quilemba, são outros motivos de constrangimentos apontados pelos vendedores, que regressaram em massa ao antigo mercado informal do “João de Almeida”.
O regresso massivo de vendedores ao antigo mercado motivou o governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, e o administrador municipal do Lubango, Francisco Barros, auscultarem os vendedores.
João Joaquim é vendedor de acessórios de viaturas no mercado "João de Almeida". A estrada que desemboca no mercado do Rio Nangombe geograficamente não dá acesso a outros municípios, cidades, o que retrai a venda.
José Elias, outro vendedor de roupa usada, reconhece que está no mercado inapropriado. “Sabemos que o "João de Almeida" é um mercado inapropriado, mas retornamos por causa do custo de vida e por forma a garantir o sustento das famílias. Pedimos aos governantes para melhor enquadramento dos vendedores, porque carecem de tudo”, disse.
Rosa Candanda, vendedora de fardo no antigo mercado, confessa que, depois de ser transferida para o mercado do Rio Nangombe, o negócio ficou retraído.
“Quando me mudei ao novo mercado tinha como fundo do negócio 70 mil kwanzas. Com a fraca procura dos compradores, regressei com 15.000 kwanzas, disse, acrescentando que o plano de in-vestir na agricultura no município de Caluquembe, que lhe viu nascer, está adiado”, lamentou.
No João de Almeida, tendo em conta a sua localização, é fácil receber compradores dos municípios do norte da Huíla como Caconda, Caluquembe, Chicomba, Matala, Chipindo e até das províncias do Huambo, Bié, Luanda e outros, à procura de alho, ce-noura, repolho, peixe seco, milho e outros alimentos.
Os vendedores do "João de Almeida" tinham os tradicionais clientes, o que é diferente no novo mercado, como lamentaram. “No ex-mercado, apesar das dificuldades, chegamos à conclusão de que os compradores que vêm do município da Matala, Chibia, Huambo, Namibe e Luanda encontram-nos sempre, o que é diferente na Quilemba”, comparou.
António Calete, vendedor de roupa usada, disse que muitos comerciantes que vendiam fardo na antiga praça do “João de Almeida”, quan-do foram transferidos para o mercado do Rio Nangombe levaram entre 100 a 500 mil kwanzas e voltaram com dinheiro de vender tomate, por falta de clientes.  “Muitas pessoas que vendiam no contentor voltaram a vender to-mate, porque faliram. O Governo Provincial da Huíla tem que nos dar tempo, até que a centralidade da Quilemba receba os moradores que vão ser os potenciais clientes do mercado do Rio Nangombe”, referiu.
Acrescentou: “Compramos a cenoura e alho nas hortas distantes e quando chegamos, o negócio decaiu e decidimos voltar ao antigo mercado para recuperar o fundo perdido”.  Os clientes do Rio Nangombe só querem peixe sardinha, fuba e não compram alho e cenoura porque já cultivam. Encontro dificuldades, daí o nosso regresso ao “João de Almeida”. Temos necessidades e não temos onde ir”. Queremos vender numa área onde os carros chegam e recebemos clientes de Luanda, Zaire, Malanje, Cuando Cubango, entre outros, para comprar os nossos produtos, que é o alho, cenoura, tomate e outros”, indicou.
Vitorino Capoko, vendedor de roupa usada no mercado do Rio Nangombe, explica que as dificuldades dos vendedores do novo mercado e do antigo são semelhantes; “Se os que vieram do mercado "João de Almeida" regressaram com 15 mil kwanzas, os que estão no Rio Nangombe não têm nada.
Muitos vendedores voltaram por falta das infra-estruturas planificadas na actual área onde funcionou o mercado “João de Almeida”. Acrescentou que o mercado do Rio Nangome carece de infra-estruturas como agências bancárias, serviços veterinários e outros.
“Solicitamos que haja melhor estudo para que a distribuição de produtos tenha sucesso. Temos família por sustentar e torna difícil investir em algo e não esperar rendimento. Isto é que faz com que muitos vendedores regressem ao antigo mercado "João de Almeida”, indicou.

Nova alternativa
O mercado do Rio Nangombe, no Lubango, foi criado para albergar os vendedores “desalojados” do mercado “João de Almeida” e tem capacidade para 5.079 bancadas e equipamentos, destes, apenas 252 bancadas estão ocupadas. Estão ainda ocupadas as famosas áreas “Paga já” com seis contentores de 20 pés, duas bancadas de venda de fardo e 65 de material eléctrico, alfaiates,  electrodomésticos, talhos e barracas de comes e bebes.
Estão ainda ocupadas, no mercado do Rio Nangombe, bancadas de venda de material agrícola, de peças diversas, venda de bebidas a retalho, barbearias e bens industriais diversos, de mobília, parque de estacionamento de viaturas, ervanárias, matadouros de gado bovino, caprino e farmácias.O mercado do Rio Nangombe está situado na comuna da Quilemba e dispõe ainda de um posto de saúde em obras e farmácia. O administrador do Lubango, Francisco Barros, disse que, apesar das condições aí criadas, o novo mercado do Rio Nangombe tem 4.820 bancadas desocupadas e os seus vendedores insistem em comercializar os seus produtos no antigo mercado do “João de Almeida”.
 O Governo Provincial, como disse o administrador, projectou, para a área onde funcionou o antigo mercado do “João Almeida”, a construção de casas sociais, hospital, campo de futebol, escolas, posto policial e outros serviços sociais.
Em 2017, referiu, a Administração Municipal do Lubango fez a catalogação de todos os vendedores dos mercados informais em funcionamento na cidade do Lu-bango, muitos deles já têm passes com o tipo de produtos que comercializam.
A acção, garantiu, vai continuar a ser desenvolvido, para criar as condições de acomodação de todos vendedores ambulantes.
 
Desencorajar a prática
O governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, alertou para os perigos que existem em os vendedores insistirem vender no antigo mercado do “João de Almeida”. Sem medo de errar, o governante garantiu que estão criadas todas as condições de segurança, de higiene, saúde, o que é diferente no Rio Nangombe.
Adiantou que se vai repor a nova rota para dinamizar o negócio. “O que se preten-de é transformar o mercado informal para formal. O governo está a criar condições para que os pequenos negociantes continuem a crescer, para criarem também emprego”, disse.
 A perspectiva de crescimento do novo mercado do Rio Nangombe consta do plano de crescimento da cidade do Lubango. “Surgiu a centralidade que, numa primeira fase, vai albergar mais de 50 mil pessoas. O mercado está situado na direcção da zona urbanística da Tchavola, Kuawa, o que vai proporcionar crescimento da cidade”, referiu, com uma certa satisfação.
 No terreno do antigo mercado vão  ser construídas  infraestruturas sociais e os vendedores que abandonaram as suas áreas de venda podem perder o espaço a título definitivo. Alertou que a proliferação de mercados desencoraja também os visitantes,  muitos deles funcionando em locais impróprios.