Reportagem

Sobreviver da vaidade dos outros

O Eldorado. Era assim que Orlando Manuel via Luanda. Tinha dezasseis anos quando, sozinho, decidiu abandonar o bairro de Nossa Senhora do Monte, na Huíla, certo de que na capital do país daria brilho à sua vida. Pura ilusão. Passados quinze anos, Orlando ganha a vida a dar brilho a sapatos, muitas vezes, surrados inapelavelmente pela poeira.

Em Luanda, encontrou espaço sob o olhar protector de uma outra Nossa Senhora, a de Fátima. É diante da Paróquia, também conhecida por Igreja de São Domingos, que Orlando Manuel exerce a sua actividade. A escolha não foi por acaso. “A área é sossegada e com bons rendimentos”, justifica. São os alunos das escolas ao redor que garantem ao engraxador amealhar no final da jornada entre dois a três mil kwanzas por dia. Razão porque está expectante quanto ao início do ano lectivo. Na expectativa está também Avelino Rambo dos Santos, 28 anos, seis dos quais como engraxador. É de Benguela. Veio a Luanda igualmente à procura de melhores condições de vida. Antes trabalhava transportando mercadorias no antigo Roque Santeiro, usando um carro-de-mão.
“Tenho estado a fazer 1.800 kwanzas, devido as férias dos alunos. Quando estão em aulas, aumenta o número de clientes. Consigo levar três mil para casa”.
Avelino e Orlando partilham a mesma engraxadoria, um kit oferecido pelo Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional.
Se os dois são dependentes dos alunos, sorte diferente parece ter Cassinda João, 34 anos, cujos principais clientes não têm férias colectivas. Eles são maioritariamente trabalhadores da Rádio Nacional de Angola e uns poucos transeuntes. De forma estratégica, montou o seu posto mesmo ao lado da empresa. Engraxador há catorze anos, “por falta de ocupação”, o benguelense também veio a Luanda na esperança de “desenrascar a vida”, de lhe dar melhor sentido.
“Antes, zungava com tapetes e forros. Os fiscais só nos desgraçavam. Então, preferi ser engraxador”.
De segunda à sexta-feira, consegue levar para casa entre dois a dois mil e quinhentos kwanzas. Cem kwanzas é quanto se cobra por cada engraxamento. Dinheiro com o qual sustenta a família. A esposa e os três filhos com quem vive no bairro Sambizanga e de quem se separa às cinco da manhã para voltar a vê-los  quando regressa da sua jornada laboral que termina, geralmente, às catorze horas. Os fins-de-semana Cassinda reserva para estar com os filhos.
Já para Geovani dos Santos, 43 anos feitos a 25 de Janeiro, o final-de-semana, principalmente o dia de domingo, é bastante generoso para com ele. Pois, consegue ganhar um bom dinheiro limpando o calçado de fiéis que frequentam a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Há dois meses que Geovani se tornou assistente de Orlando Manuel. Não tinha ocupação e viu na engraxadoria uma boa oportunidade para lhe garantir “levar pão para casa e beber uma água”, segundo afirma.
“No período das aulas, as crianças ajudam muito. Lavamos as suas sapatilhas, o tênis e engraxamos os seus sapatos”.
Católico, Geovani revela que tem estado a rezar para que da graxa consigam bons rendimentos e, acima de tudo, possam mudar de profissão. O desejo de ver o negócio abençoado é algo que também bate forte no coração do igualmente católico Orlando Manuel. E ele crê que “Deus já está a abençoar”. Morador do bairro Cassequel do Buraco, participa da missa das 6h30, antes de iniciar o trabalho, e das 18h30, para agradecer pela jornada. Calhou-lhe a profissão que se diz remontar ao ano de 1806 quando um operário poliu em sinal de respeito as botas de um general francês e foi recompensado com uma moeda de ouro, nascendo o ofício de engraxador, o homem responsável pelo polimento e limpeza de sapatos. Mas Orlando leva muito gosto por ela, “por ser um trabalho digno”. Com o trabalho, conseguiu trazer alguns irmãos para Luanda e pagar o arrendamento da casa em que vivem. Já Avelino dos Santos gasta o dinheiro em alimentos e “no sustento do vício” da bebida. E é o consumo de bebidas alcoólicas que não lhe permite poupar dinheiro.
A resolução do problema do álcool está a ser possível com o apoio da namorada. Segundo ele, teve de se associar às Testemunhas de Jeová para conseguir uma mulher.
“Antigamente, bebia muito. A minha namorada é quem me está a ajudar e aceito os seus conselhos”, conta.
No momento da conversa, Avelino dos Santos fez questão de realçar que a linda camisa que vestia era resultado do seu trabalho. Oferta de um cliente. “A camisa que visto é oferta de um chefe que gosta do brilho que dou aos seus sapatos. E vem de longe para os engraxar aqui”, enfatiza.
Como nem sempre se agrada a gregos e a troianos, há casos em que algumas pessoas mostram desagrado pelo que consideram falta de qualidade no trabalho de alguns engraxadores. Cassinda Manuel revela que já experimentou isso mesmo.
“Um cliente disse-me: ‘ndengue, tu não sabes engraxar bem’”. Mas Cassinda confessa que não se sentiu incomodado com a observação, porquanto a maioria dos seus clientes sempre o elogiaram, alguns deles até o encorajam e o aplaudem pelo facto de ganhar a vida de forma honesta.
No entender de Geovani dos Santos, “todo o engraxador dá um bom brilho ao calçado”, por isso pensa que muitas críticas sejam injustas.Tanto Geovani, quanto Orlando ou ainda Cassinda e Avelino, acreditam que a sua vida também pode ter mais brilho sem a graxa. Todos sonham por uma vida melhor. Que não seja a transportar caixinha e banco.