Artigo
Reportagem
Projecto musical leva assistência médica às comunidades em Luanda
Por via de espectáculos musicais e acção solidária (consultas médicas gratuitas), médicos de diversas especialidades clínicas apostam na prevenção e controlo de doenças, garantindo ainda a humanização deste importante sector, sobretudo nas zonas mais desfavorecidas, onde os serviços de assistência médica não existem ou são escassos.
Com um ano de existência, o projecto de carácter filantrôpico foi lançado em Janeiro do ano passado, durante o XII congresso internacional dos médicos em Angola.
As campanhas solidárias de “música e assistência médica” acontecem no primeiro sábado de cada mês, dando primazia à actuação musical de Luvualo Claris Ndongala, mais conhecido por “Clarry”, seu nome artístico.
Apresentadas de forma interactiva, as oito músicas transmitem conselhos médicos sobre as principais epidemias que assolam a população angolana, orientando os presentes sobre as medidas preventivas a adoptar, para cada patologia.
É igualmente destacada uma mensagem de incentivo à procura dos centros de saúde mais próximos, aos primeiros sintomas de doença.
A seguir, complementam a actividade musical sessões de teatro e poesia, além de várias palestras, onde médicos de várias especialidades (psicólogos, cardiologistas, dermatologistas, ginecologistas e nutricionistas) atendem centenas de populares.
São realizadas consultas grátis, distribuidos CD com as músicas do projecto e oferecidos folhetos informativos, mosquiteiros, escovas de dentes, produtos para tratamento de água e preservativos.
Os participantes recebem ainda instruções sobre a prevenção contra o HIV/Sida, controlo da febre e higiene oral. Atenção especial é dada igualmente às formas de evitar a desidratação e ao despiste da hipertensão arterial e cárie dentária.
Médico especialista em clínica geral, Luvualo Claris Ndongala destacou, em entrevista ao Jornal de Angola, as adversidades que a população enfrenta para cuidar da saúde e o elevado número de mortes que se regista, como principais motivações que o levaram a abraçar o projecto.
“Sentimos necessidade de acorrer, sobretudo, às populações que vivem em zonas carentes, onde não há centros médicos. Muitas vezes, socorrem-se do tratamento tradicional, usando ervas. Só se dirigem aos hospitais já em estado terminal, intoxicados, ou com o fígado e os rins já danificados.”
O médico explicou que foi impelido a agir, por perceber que “as pessoas recorrem a este tipo de práticas por falta de conhecimentos e meios.”
Quase se tornou habitual usarem o tratamento tradicional e depois irem aos hospitais simplesmente para buscar o certificado de óbito.
“Por estas e outras causas, decidi criar o projecto, no sentido de ajudar de forma criativa as pessoas, levando ao seu conhecimento informações médicas básicas para a prevenção e controlo de doenças.”
A acção solidária dos médicos continua activa graças à produtora de música de Luvualo Ndongala e ao apoio do Ministério da Saúde que, por via da Direcção Nacional de Saúde Pública, tem fornecido material médico, como folhetos informativos, mosquiteiros, preservativos e diversos equipamentos necessários.
Funcionários de hospitais públicos e privados, que aderiram à causa de forma voluntária, formam a equipa médica que entra em acção todos os meses, na luta para melhorar a saúde dos munícipes.
De acordo com o clínico, a acção está direcionada às zonas onde a assistência médica é quase nula, com maior incidência para a periferia da cidade de Luanda.
“Primeiro, fazemos o diagnóstico, identificando os principais problemas de saúde que assolam determinada área residencial. Em colaboração com os responsáveis das administrações e repartições municipais e distritais da Saúde, seleccionamos um tema que se coadune com os problemas dos habitantes da zona e só então entramos em acção”, explicou.
Prevenção da má nutrição
Cinco centenas de cidadãos, entre vendedores e moradores do Bairro Mundial, Distrito Urbano do Ramiros, município de Belas, em Luanda, foram sensibilizados, no primeiro sábado do mês de Fevereiro, sobre os benefícios da prevenção da má nutrição nas famílias.
Ao longo de duas palestras sob os temas “A função dos alimentos e sinais de alerta para má nutrição” e “Alimentação saudável e prevenção da má nutrição nas famílias”, os presentes documentaram-se sobre os temas, recebendo igualmente conselhos úteis, no evento que marcou a abertura do projecto “Musical de Educação para Saúde”, referente ao presente ano.
O evento aconteceu na Praça Nova do Bairro Mundial, sob o tema “Prevenção da má-nutrição”. À semelhança dos anteriores, o início foi abrilhantado com um espectáculo musical, a cargo do músico “Clarry”.
Seguiu-se uma palestra proferida pela pediatra Sandra Nele que apelou à conscencialização sobre “A função dos alimentos e sinais de alerta para má nutrição”, enfatizando a necessidade de uma dieta equilibrada e variada, incluindo verduras, carne, peixe e ovos.
A médica alertou também para a importância da exclusividade do aleitamento materno, nos primeiros seis meses de vida das crianças, e para a necessidade de introduzir na sua dieta papas de milho e fruta, após o primeiro semestre.
Dilumvuide Pode, mestrada em Epidemiologia de Campo, abordou o tema “Alimentação saudável e prevenção da má nutrição nas famílias”.
A especialista apontou soluções para uma alimentação saudável, independentemente do nível socioeconómico do indivíduo e a disponibilidade dos alimentos.
Orientou ainda as opções para se variar a alimentação, prevenindo a má nutrição naquela comunidade do Ramiros e deixando claro que os hábitos de alimentação equilibrada devem ser adquiridos desde a infância, evitando o enfraquecimento do sistema imunitário.
Durante as pré-consultas, a equipa médica constatou que a população do Ramiros debate-se com vários problemas de saúde, com destaque para os síndromes febris, resultantes do paludismo, deficiente saneamento básico, falta de latrinas, venda e consumo de alimentos em condições inapropriadas, hipertensão e estigmas de má nutrição detectados em 11 crianças menores de dois anos, filhos de vendedoras.
Foram ainda realizadas pré-consultas de orientação para despiste da má nutrição, aferição do IMC (índice de massa corporal) e distribuição de folhetos informativos.
Desde a sua implementação, em Janeiro do ano passado, o projecto já beneficiou 2.350 famílias, com consultas médicas, distribuição de CD, folhetos informativos, mosquiteiros, preservativos, escovas de dentes e produtos para tratamento de água. Os populares receberam instruções sobre a prevenção do HIV/Sida, controlo dos estados febris, etc, etc.
De acordo com o mentor do projecto, “estas populações entenderam que prevenir uma doença é mais fácil e menos dispendioso do que tratar da mesma. Muitos deles, agora, já recorrem atempadamente aos serviços de saúde.”
A maior parte das actividades foram realizadas em zonas suburbanas onde vivem populações desvaforecidas com baixo nível socioeconómico e em condições precárias de saneamento básico, com crenças em tratamentos tradicionais, como recurso para cura de certas doenças.
Destaca-se os bairros Golf II, Sapu II, Ramiros, Dangereux, Fubu, Mundial, Cambamba e Macuia na província de Luanda, onde os dados estatísticos do projecto revelam maiores números de casos de doenças e epidemias.
Letras das músicas são conselhos médicos
De acordo com “Clarry”, o projecto em curso complementou a composição e divulgação do CD que lhe dá o nome “Musical de Educaçao para Saúde”, composto por oito músicas, cantadas nos estilos slow, pop, kizomba e semba.
Os títulos das canções são algumas das principais endemias que assolam a população angolana, como hipertensão, febre/paracetamol, saúde, sida não tem cura, exercícios físicos, prevenção do cancro e causas da infertilidade.
O médico e músico disse que as faixas musicais abordam vários temas, com linguagem simples, previamente censurada por outros profissionais de saúde que se juntaram ao programa. “As letras são recomendações e conselhos médicos que usualmente damos aos pacientes nos consultórios. Resolvi transformá-los em música, num CD com vários estilos musicais e que apelam aos cuidados a ter com a saúde pessoal e familiar”, disse.
Num breve balanço da actividade, que já vai na nona edição, os responsáveis consideram que as estatísticas apontam para um bom acolhimento por parte da população.
Acreditam que a junção da vertente cultural, além de recrear, atrai, motiva, conscencializa e dá esperança de vida às pessoas.