Reportagem

O drama vivido por quem depende do táxi

A viagem tem início na Paragem das Pedras, no lado oposto à entrada da Urbanização Nova Vida. Destino: Centralidade do Kilamba. Mas, com a recente entrada em vigor do Estado de Calamidade, que limita o contacto entre as pessoas, quem se dedica ao transporte de passageiros para ganhar o “pão de cada dia” opta por fazer linhas curtas.

“Rotunda do Camama”, anuncia um taxista. Dentro da viatura, de pequeno porte, cuja lotação não deve ultrapassar o número de dois passageiros, o condutor chama um terceiro.
“O senhor está a violar a lei. Não tem medo de ser autuado pela Polícia? Não tem noção do perigo que é amontoar pessoas no seu carro”? Pergunta a repórter.

“Dona, se não está satisfeita, pode descer. A Polícia não vai dar de comer aos meus filhos. Aponta a matrícula e vai queixar”, responde. Prefere perder dois passageiros, que não corroboram com a sua atitude irresponsável, e leva outros três a quem pouco importa o problema de saúde pública que o país e o mundo enfrentam. Felizmente, para chegar à Rotunda do Camama, não há escassez de transportes.

Cemitério do Camama, 16 horas. José (nome fictício) está há quase uma hora na paragem em frente ao campo santo. Tal como ele, uma multidão luta, literalmente, para apanhar um transporte com destino, para a maioria, a casa. “Assim, para chegar ao Zango 3, não sei se vou gastar quanto hoje”, reclama.

Dos táxis com lugares disponíveis, poucos fazem trajectos longos directos. “Camama 1”, “Benfica” e “11 de Novembro” são alguns dos destinos. Pouquíssimos seguem a rota directa para a Rotunda do Zango, destino de José, que reclama da falta de dinheiro para chegar à paragem final. “Estas minhas moedas não vão chegar; hoje é andar a pé”, desabafa.

Ao lado, um casal desiste de esperar por um táxi e decide caminhar, com os filhos, até ao Camama 1. O pai coloca a menina no colo, enquanto a mãe põe a bacia com produtos alimentares na cabeça e segura a mão do rapaz.
“Não vamos sair daqui tão cedo, se esperarmos o táxi”, diz a senhora.

“Benfica, três lugares”, chama o gerente do carro. Na ânsia de conseguirem uma das “vagas disponíveis”, várias pessoas empurram-se. Entra para o táxi mais do que o número recomendado de passageiros. Os três primeiros mantêm-se sentados. Quem está a mais é obrigado a descer.

“Não tem mais lugar, anuncia o gerente

Um passageiro agarra um jovem pelo braço. Acusa-o de lhe ter retirado o telefone do bolso. Com o aparelho digital de última geração na mão, o acusado não tem como negar.

“Tirei sem querer, nesses empurrões. Não sou gatuno”, justifica.
O táxi onde está o dono do telefone arranca. O acusado, para quem toda a gente olha com desconfiança, decide caminhar para outro ponto da enorme e aglomerada paragem.

“Rotunda do Zango”, ouve-se do interior de um autocarro. José corre em direcção ao transporte, deixa cair o saco de açúcar. Parte do conteúdo fica no chão, mas recupera o possível e, em meio aos empurrões, consegue um lugar no interior do transporte. Um outro passageiro, temendo perder a viagem para casa, prefere entrar pela janela do automóvel. Pede desculpas à passageira que reclama por ter sido empurrada. “Perdoa só, minha mãe, estou há muito tempo aí na paragem”, diz o autor da acrobacia.

“11 de Novembro, 300 kwanzas”, chama o dono de uma carrinha branca, com vidros fumados. O preço afugenta dois passageiros, a repórter aproveita e segue ao seu destino. Com o ar condicionado ligado, o motorista ouve música angolana da melhor qualidade: “Nós é irmão/ de passado e presente/ nós é irmão/ de alma e coração”, ouve-se, na voz de Ary.

A viagem, agradável, termina no lado oposto ao Estádio 11 de Novembro, junto a uma das entradas da Centralidade do Kilamba. O relógio marca perto das 19 horas, horário em que, de acordo com o morador do Kilamba que usa o seu carro para fazer táxi, já não se realiza essa actividade sem que os polícias “chateiem”. Apesar do perigo que corre, transporta passageiros até nesse horário, para conseguir alguns trocados.

“Evito usar o caminho normal. Se não houver problemas, vou virar à direita, pelo Kero. Esses nossos irmãos polícias são chatos. E agora já nem adianta lhes mostrar o passe, as coisas estão mesmo a mudar no país”, disse o simpático condutor.
“Fico na terceira paragem senhor”, anuncia a repórter, que dá a história como terminada, apesar de faltar o capítulo, o último, que a leva até a casa, o destino final, neste dia.