Reportagem

Nova descoberta deixa o Mundo com a cabeça na Lua

A presença já confirmada pela NASA de água gelada na superfíce da Lua, após outras descobertas de água subterrânea no satélite natural da Terra,é o mais recente motivo da discussão em todo o Mundo sobre a possilidade de haver vida extraterrestre.

A descoberta, publicada na revista científica norte-americana “PNAS”,vem juntar-se a vários estudos já realizados sobre a presença de água na Lua. Cientistas da agência espacial norte-americana dizem que a água agora descoberta poderá estar disponível para futuros astronautas.
Segundo o artigo publicado na revista, o gelo encontra-se nos polos norte e sul do satélite, em crateras aonde os raios de sol não chegam e a temperatura nunca ultrapassa os 150 graus Celsius negativos.
“Com gelo suficiente na superfície, em alguns milímetros, a água poderá talvez tornar-se num recurso para as futuras expedições de exploração ou de estada na Lua”.Os investigadores obtiveram a prova graças a um instrumento enviado em 2008 a bordo de uma sonda indiana que mediu directamente a forma como as moléculas de gelo absorvem a luz infravermelha.
Shuai Li, do Instituto de Geofísica e Planetologia do Hawai, o principal autor do estudo, citado pela agência France Presse, disse ser “a primeira vez que os cientistas obtêm uma prova irrefutável da presença de água gelada na superfície” da Lua.
Segundo o investigador, a única maneira de saber se esta água é explorável pelo homem é enviar robots para recolher amostras.A NASA tenciona voltar a enviar seres humanos à Lua pela primeira vez desde Dezembro de 1972.

Água também em Mercúrio e Marte
Em 2008, os cientistas encontraram moléculas de água no interior de amostras de magma trazidas da Lua há vários anos pelos astronautas das missões Apolo.No ano passado, os investigadores concluíram que as profundezas da Lua são ricas em água, baseando-se em dados obtidos por satélites. A água está igualmente presente em Mercúrio e Marte, onde um lago de água no estado líquido foi recentemente detectado. Cientistas da Agência Espacial Italiana anunciaram que existe água líquida em Marte, de forma constante.
Para os especialistas, a descoberta de um reservatório subterrâneo permanente de água líquida aumenta consideravelmente as chances de haver vida naquele planeta. “Foram anos de debate e investigações, ficamos anos a discutir se isso era mesmo possível. Mas agora podemos dizer: descobrimos água em Marte”, disse o astrónomo Roberto Orosei, pesquisador da Universidade de Bolonha e principal autor da descoberta.
A água líquida e perene foi encontrada 1,5 quilómetros  abaixo de uma camada de gelo, próxima ao Polo Sul de Marte. “Trata-se de um lago com 20 quilómetros de diâmetro”, contou Orosei. A descoberta foi publicada na revista “Science”.

Humanidade pode estar sozinha no Universo

O imaginário humano de que Marte seria povoado por homenzinhos verdes está intimamente ligado a uma observação errônea que apontava para canais de água no planeta, mas as novas descobertas estão muito longe de dar respostas a essa questão.
“Certamente essas não são as condições mais aprazíveis para qualquer tipo de vida”, afirmou Roberto Orosei.
“Mas sabemos que em condições semelhantes, em lagos da Antártida, há alguns organismos pluricelulares que sobrevivem”.
A descoberta, portanto, é mais uma que se soma a tantas outras recentes que trazem indícios de vida no Planeta Vermelho. Duas pesquisas tambémpublicadas na Science avivaram ainda mais essa perspectiva. Ambas foram realizadas por cientistas da Nasaa partir de dados recolhidos pelo rover “Curiosity”, o pequeno veículo que explora o planeta desde 2012.
A primeira pesquisa apurou que variações de temperatura em Marte causam a libertação do gás metano, que aqui na Terra é sempre associado ao desenvolvimento da vida. Foi a primeira vez que se comprovou a presença de tal elemento de forma consistente na atmosfera marciana - desde 2004, eram registradosapenas vestígios esporádicos.
Um segundo estudo encontrou compostos orgânicos incrustrados em rochas de Marte. Vestígios de moléculas orgânicas - como o tiofeno, o metanotiol e o dimetilsulfureto, foram encontradas impregnadas em amostras de solo de três bilhões de anos atrás.
Em 1950, o famoso físico italiano Enrico Fermi peguntou aos colegas com que trabalhava no Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, onde se encontrariam os extra-terrestres. Ao discutir a existência de outras civilizações inteligentes e a aparente contradição entre as estimativas que afirmam haver uma alta probabilidade de essas civilizações existirem no universo observável - e a falta de evidências delas, Fermi questionou: “Onde estão?”
Só na Via Láctea, a estimativa mais conservadora indica a existência de cerca de 100 bilhões de estrelas, muitas rodeadas por planetas. Por que, então, ainda não temos a comprovação de vida inteligente além do nosso planeta? Por que razão ninguém procurou entrar em contato connosco se existem biliões de possibilidades de que haja civilizações inteligentes?
Três académicos da Universidade de Oxford reavaliaram essa disparidade num estudo intitulado “Dissipar o Paradoxo de Fermi”. Eles dizem que é mais provável que a Humanidade “esteja sozinha no Universo”. Enquanto isso, o anúncio da nova desberta deixa muito de cabeça na Lua.

 
Água é vida

“Sem água, nenhuma forma de vida como a conhecemos poderia existir. Por isso é grande o interesse na detecção de água líquida em outros planetas”, contextualizou a pesquisadora Anja Diez, do Instituto Polar Norueguês.
“Acidentes geográficos, como vales, mostram que água líquida deve ter estado presente em Marte no passado. Mas apenas pequenas quantidades de água gasosa haviam sido identificadas na atmosfera, além de água congelada. Gotículas de água foram vistas condensar e havia a hipótese de haver água líquida em encostas durante o verão marciano. Corpos estáveis de água líquida, entretanto, até ao momento não haviam sido encontrados”.
A descoberta da equipa de Orosei baseou-se na análise de dados obtidos por radar da missão Mars Express, sonda espacial lançada em 2003 pela Agência Espacial Europeia e pela Agência Espacial Italiana.
Orosei realçou o ineditismo da notícia. “Até agora, é o único lago descoberto em Marte até agora”, afirmou, explicando, entretanto, não ser possível calcular o volume total de água.
“Em comparação com os lagos terrestres, é um lago pequeno com 20 quilómetros de diâmetro. Mas não conseguimos saber a profundidade do lago porque a água atenua o sinal do radar. O que sabemos é que (a profundidade) é de pelo menos de um metro - ou o radar não seria capaz de revelar a sua existência”, disse. “Mesmo no caso mais pessimista, acredito que o volume de água deve ser de várias centenas de milhões de metros cúbicos”.
O astrónomo acrescentou que esta descoberta pode ser apenas o começo. “É apenas a primeira descoberta de uma quantidade grande de água líquida em Marte. Mas sob as calotas deve haver muito mais”.