Reportagem

Mau estado da via limita crescimento de Cazage

Nuvens de poeira avermelhada poluem o ambiente e reduzem a visibilidade, no complicado trajecto que as viaturas percorrem, numa via estreita e degradada que conserva, aqui e ali, vestígios de asfalto que data do tempo colonial.

Por mais habilidosos que sejam, todos os condutores clamam por uma viagem menos acidentada, nos cerca de 70 quilómetros que separam a vila de Cazage da sede municipal de Dala, na província da Lunda-Sul.
Os pátios limpos que circundam as casas sem vedações, o verde das árvores e o silêncio deixam, à primeira vista, a ideia de uma localidade despovoada. No entanto, o ruído do único gerador público que garante a iluminação, a água que jorra das torneiras e o barulho das batidas de um martelo num edifício em obras provam o contrário. É a realidade de uma vila que pulsa lentamente.
O ensino avança com o nível primário e um núcleo do I Ciclo. São 4 mil e 38 os alunos matriculados, orientados por 52 professores, que leccionam em 11 escolas, seis das quais de construção definitiva. Na sede do município, funciona apenas a escola Nicolau Gomes Spencer, que existe há 15 anos e tem 3 salas de aula.
Mais de 300 alunos estão fora do sistema de ensino, por falta de espaço. Para resolver o problema, está projectada uma nova escola, com 12 salas de aula. Será a resposta à demanda actual e futura.
Aos dez anos, Adelino Fota, estudante da 2ª classe, na escola Gomes Spencer, soletra as palavras, reproduzindo os ensinamentos do professor Vicente, como assegura o próprio petiz. A escola e lides domésticas preenchem o quotidiano do “médico na forja”.
Ao interagir com alunos em algumas turmas, o governador provincial da Lunda- Sul, Daniel Neto, ouviu respostas correctas, quando perguntou o nome do Presidente da República. Pelo contrário, os alunos não acertaram quando indagou em relação ao titular do Gabinete Provincial de Educação.

Sarampo e realidade

O olhar distante e rosto carregado expressam o sentimento maternal de Linda Cagi, com o filho ao colo. Diagnosticado com sarampo, o menino foi internado de urgência numa das enfermarias do Centro Médico da Vila de Cazage.
A notificação de três casos de sarampo, quatro anos depois da sua erradicação, colocou em alerta as autoridades locais da Saúde. Segundo apurou o Jornal de Angola, a resposta consistiu na realização de uma campanha de bloqueio, para evitar o alastramento da doença no seio dos mais de 5.560 habitantes.
Segundo o director comunal do sector, Alberto Sampaio, “o pior é que familiares de dois dos menores afectados pela doença optaram pelo tratamento tradicional, que consiste em massagens e infusões preparadas com batata rena e outros produtos. Isso acontece, porque os familiares acreditam que a vacina debilita a saúde das crianças”.
A administradora de Cazage destacou, no seu informe, as dificuldades de cobertura sanitária, por falta de médicos e enfermeiros.
A responsável fez igualmente alusão à carência de equipamento hospitalar e medicamentos, em dois centros e três postos médicos instalados no território sob sua jurisdição. A falta de residências para acomodar os técnicos tem sido outro constrangimento que limita a eficácia da assistência médica à comunidade.
Fernanda Madalena Abreu alertou para a necessidade de melhoria significativa da rede de energia eléctrica, que teria impacto positivo noutros serviços. A localidade beneficia de energia eléctrica por apenas quatro horas diárias, face à limitação de verbas para suportar encargos de manutenção, compra e transporte de combustíveis e lubrificantes.
Ao contrário, o abastecimento de água potável tem sido regular e muito aplaudido pelos habitantes da sede. O fornecimento do “líquido precioso” é favorecido pela abertura de furos e instalação de sistemas que funcionam com painéis solares. No entanto, o cenário da sede é oposto à realidade vivida por seis comunidades.
Em vários pontos da comuna, as vias de ligação com a sede clamam por reabilitação e instalação de pontes, a exemplo de Nambaca, onde a circulação é favorável apenas no tempo seco.
No quadro da reunificação de nove aldeias, as autoridades precisam de 4 mil e 520 chapas de zinco, para os 226 chefes de família edificarem casas, além de infra-estruturas sociais básicas.

Produtos sem mercado

Generita Ngambo, que, durante 19 meses, trabalhou como auxiliar de limpeza no hospital, trocou a vassoura pela enxada, cultivando de tudo um pouco, na localidade. No entanto, não tem possibilidade de vender bombó, inhame, ginguba, batata-doce, entre outros produtos, em quantidades aceitáveis, devido ao péssimo estado das vias.
Situação idêntica gere o camponês Zeca Mutunda Satxicamba, que conta actualmente com 80 vacas, resultantes da multiplicação de oito, adquiridas na República da Zâmbia, quando apostou em investir na pecuária, com os parcos recursos amealhados.
O campo ocupa o seu quotidiano. O interesse pela diversificação de culturas culminou com a introdução de arroz, com uma colheita acima de 200 quilos, a par da mandioca, milho, feijão e hortícolas, entretanto, com pouca procura na zona.
“Tenho possibilidades de vender gado e Bombó em grandes quantidades. Produtos do campo é o que mais temos. Falta oportunidade de comercializar, porque a estrada desencoraja a circulação”, esclareceu.
O camponês e criador garante que trabalha sem esperar financiamento de bancos ou outras instituições, porque, quando tentou, os processos encalharam. Sempre que necessário, recorre à força de trabalho local, através da garantia de incentivos previamente acordados.

Sinal de aproximação

A visita do governador provincial, segundo a administradora de Cazage, foi “ primeiro sinal de aproximação às populações”. Depois da euforia, perante a chegada do “filho da Lunda”, Daniel Neto ouviu, através de canções e mensagens lidas, queixas sobre uma série de insuficiências, que começam pelo “quase isolamento”, provocado pela degradação da via que liga Biula à sede da comuna (Estrada Nacional 180).
Os habitantes estão insatisfeitos com o facto de a barragem hidroeléctrica construída sobre o rio Tchiumbue, junto à sede do município, não fornecer energia à comuna. Saúde, Educação e Comércio foram também sectores enumerados que precisam de nova dinâmica.
Sem promessas, o governante valorizou a abertura, na apresentação dos problemas e considerou pertinentes as propostas de soluções para inverter o quadro.

Governação e desafios

A mais alta autoridade da província lembrou que a nova Angola desde 2017 aposta numa governação de aproximação ao povo, através da auscultação das suas preocupações.
“Reconhecemos que a situação da via de acesso à comuna é o principal obstáculo, cuja remoção precisa das mãos de todos nós. Sem dúvida que a solução para esse mar de problemas, que condicionam o desenvolvimento desta comunidade, pressupõe boa governação, bom ouvido e bom olhar, virados para o interesse colectivo”, afirmou.
Reagindo à suplica “filho da terra faz alguma coisa”, numa canção entoada por senhoras, durante um desfile com produtos da região à cabeça, o governante concordou com as lamentações. Regressa com a agenda cheia de preocupações, cuja resolução “não é automática”, mas vai competir “ao povo, nas vestes de fiscal, avaliar a obra feita” pelos empreiteiros que merecem o apoio de todos.
Daniel Neto assegurou que se identifica com o compromisso de melhoria das condições de vida das populações. Disse “não sou mais um que veio” e assumiu que, “como jovem, aceito o desafio de correr mais”, numa alusão ao pedido formulado pelos mais velhos.
O governador incentivou o “diálogo aberto e atenção, no estabelecimento de prioridades em projectos a conceber, na perspectiva do desenvolvimento”. O cenário “pouco digno de crianças sentadas ao chão, numa escola que precisa de reabilitação, enquanto pensamos na construção de uma, maior,” mereceu também destaque na intervenção de Daniel Neto, que se manifestou desagradado com o quadro. A visita serviu, igualmente, para o governante fazer a entrega à comunidade de chapas de zinco, instrumentos agrícolas, alimentos, produtos de higiene, material escolar e medicamentos.
Dados demográficos apresentados apontam para mais de 5 mil e 560 habitantes, na sua maioria camponeses, distribuídos em três regedorias e igual número de aldeias, tuteladas por 38 autoridades tradicionais.
Os jovens consideram comuns os problemas vigentes e expressam confiança numa boa governação, a fim de recuperar as vias de acesso, garantir casas, espaços de lazer e incentivos aos empreendedores.
Os sobas referiram a limitação do número de salas de aula como sendo “um grande problema” na comuna. O enquadramento de enfermeiros em regime de contrato, a criação de reservas de medicamentos, garantia de habitação, acomodação e transportes para as autoridades tradicionais figuram entre as prioridades avançadas.