Reportagem

Matemática e Língua Portuguesa “arrasam” estudantes angolanos

Consideradas nucleares no sistema nacional de ensino, as duas cadeiras figuram entre as mais problemáticas em toda a rede escolar do país, pública e privada, com médias de aproveitamento, individuais e colectivas, para lá de preocupantes.

Trata-se de duas disciplinas que “arrasam” estudantes em todo o território nacional, deixando um "rasto de desilusão" entre docentes, encarregados de educação e gestores de instituições escolares, que exigem soluções rápidas e sustentadas para se inverter o quadro. Os números oficiais, relativos ao aproveitamento dos estudantes em relação à Matemática e à Língua Portuguesa, não deixam margem para dúvidas e sustentam a tese de milhares de cidadãos, que consideram “débil” o sistema nacional de ensino.
Um estudo feito pelo Ministério da Educação, em 2014, aponta para resultados insatisfatórios nas duas disciplinas, sendo que, em nenhuma das dimensões da análise realizada foi alcançado o mínimo necessário para a média ser considerada positiva.
Ao contrário do que parece, é na cadeira de Português que surgem os maiores sinais de debilidades. Os dados denotam, acima de tudo, fraca competência técnica dos estudantes.
Segundo o estudo a que a Angop teve acesso, as médias totais conseguidas, em 2014, estiveram aproximadas a cinco valores, ou seja a metade do total esperado. Em termos comparativos, tanto no global, quanto no género, a Matemática, com 4,8 e 4,7 valores respectivamente, esteve melhor em relação à Língua Portuguesa, com 4,2 e 4,5 valores.
A situação do fraco aproveitamento, à época, foi a mesma nos três níveis (primário, 1º e 2º ciclos) de aprendizagem, mas, nessa pesquisa, um dado salta à vista: as me-ninas estiveram, na generalidade, melhor posicionadas nas duas disciplinas, relativamente aos rapazes.
Em relação à aprendizagem, o estudo demonstra que nenhuma região conseguiu atingir a nota mínima necessária (cinco valores) em Língua Portuguesa, para se posicionar na categoria das positivas, nas diferentes dimensões do estudo do Ministério da Educação.
Em relação à Língua Portuguesa, entre as regiões do país, no cômputo geral, o Litoral, com uma média de 4,6 valores, superou o Centro, com 4,1, e o Leste, com 3,9, como também a média nacional de 4,3.
Já no que concerne ao género, o Litoral, com 4,6 valores, só superou o Centro, com 4,1, e a média nacional, com 4,4, cedendo para o Leste, com 4,7.

Problemas de base
A realidade do ensino do português é sombria, em todo o país. Grande parte dos estudantes denota fraca capacidade de interpretação de texto e desconhecimento das regras gramaticais.
O fenómeno não é uma exclusividade no ensino geral, ou seja não se resume à base. Há várias décadas, o mau  preparo técnico dos estudantes reflecte-se no ensino superior, onde milhares de estudantes ainda denotam dificuldades para escrever e ler fluentemente.
Nesta condição, está o filho da encarregada de educação Cristina Neto. “Ele tem sérios problemas de Língua Portuguesa, tanto na escrita, quanto na fala, o que tem obrigado a dedicar-se cada vez mais a essa cadeira, com exercícios de leitura, ortografia e estudo da gramática”.
Segundo o encarregado de educação Afonso Francisco, um dos problemas do fraco domínio ou aproveitamento em Língua Portuguesa, por parte dos alunos, é a má qualidade dos professores, muitos dos quais “pouco fiscalizados pelo Ministério da Educação”.
Essa tese é sustentada pelo professor de Língua Portuguesa, André Mateus, que fala da existência de docentes formados noutras áreas a leccionarem a cadeira de Português.
Mestre em Língua Portuguesa, o docente afirma que muitos colegas que leccionam têm fraco domínio da Língua Portuguesa. Para si, o programa de ensino da Língua Portuguesa, sobretudo a partir do 2º ciclo, é débil.
“Há estudantes que saem do Curso Médio de Língua Portuguesa, na Escola de Formação de Professores Garcia Neto ou no INE Maristas, que nem sequer sabem aplicar a crase, nem colocar devidamente o pronome de complemento na frase. Se observarmos o programa de Língua Portuguesa do 2º ciclo, não inclui essas duas temáticas”, adverte.
André Mateus destaca ainda que a fragilidade da aprendizagem da disciplina é motivada pela influência do meio em que estão inseridos os alunos, dos livros e publicidades com vários erros, da pouca dedicação à referida  disciplina, da ignorância da gramática tradicional, bem como do menosprezo da língua, alegadamente por ser do antigo colonizador.
Para contrapor esses problemas, o encarregado de educação Pascoal José é de opinião que os professores, com o apoio dos pais, devem engajar-se mais em incentivar os seus alunos à prática da leitura e feitura de cópias, para melhorar a fala, escrita e caligrafia.
Em sentido contrário, o docente André Mateus defende um maior enquadramento, no sistema de ensino, de professores especialistas em Língua Portuguesa, os quais vão exigir mais dos alunos, com leitura de gramática, prontuário e dicionário.
Para o professor, o Ministério da Educação devia condicionar a transição de classes, principalmente nas do 1º ciclo, com o aproveitamento na cadeira de Língua Portuguesa. Devia, igualmente, melhorar os programas, enriquecendo-os com mais conteúdos sobre gramática, a língua e os textos.

   Contas tiram sono a estudantes

De acordo com o estudo de 2014, os resultados obtidos na cadeira de Matemática, em todo o país, também são pouco famosos, embora melhores que os de Português.
Os números revelam que o Litoral (4,9) está acima do Centro (4,1) e da média nacional (4,8), cedendo perante o Leste (5,1), aliás, a única região que terá atingido o mínimo necessário para se posicionar na categoria das positivas.
A pesquisa revela que apenas 48 por cento de alunos do ensino geral (da pré à 6ª classe), de um total de 12258 avaliados naquele período, conseguiu obter resultados positivos em Matemática.
Traduzido em dados mais específicos, isso corresponde a 20,20 por cento de alunos com avaliação suficiente, sendo 14,40 por cento com a classificação bom e 13,40 por cento com muito bom. No mesmo ano, 52 por cento teve resultado negativo, 21,20 por cento mau e 30,8 por cento medíocre.
Os relatórios do Ministério da Educação apontam que, em relação ao 1º ciclo (7ª,8ª e 9ª classes), o índice de aproveitamento de estudantes foi ainda mais preocupante. Dos 4550 estudantes avaliados, só 39,5 por cento obteve resultados positivos, sendo 30,30 por cento suficiente, 5,20 por cento bom e 4,0 por cento muito bom.
Outros 60,5 por cento tiveram resultados negativos (10,10 por cento mau e 50,4 medíocre). No 2º ciclo (Ensino Médio), apenas os estudantes da Huíla e Luanda foram objecto do estudo, em 2014. A primeira obteve médias positivas (maioritariamente suficiente) e a segunda apresentou médias negativas, indica o estudo, sem especificar percentagens.
Até ao momento, desconhece-se o resultado do estudo dos últimos quatro anos lectivos (2014-2018). Todavia, é comum, entre os docentes, a referência de que o índice de aproveitamento continua baixo. A realidade dos números produzidos, em 2014, e nos últimos quatro anos, remete para uma questão de fundo. Afinal, o que estará na base do fraco desempenho dos estudantes na Matemática? Os especialistas divergem na argumentação, o que faz acirrar, ainda mais, o debate.
Há quem diga, a respeito, que a questão se resume na fraca capacidade de assimilação dos estudantes. Outros, entretanto, vão mais longe e falam em má preparação e falta de qualidade dos professores.
Seja uma, seja a outra razão, a realidade é que as dificuldades para compreensão dos exercícios matemáticos são notórias, em todo o país e em todos os níveis de ensino.

Quadro sombrio
 “O quadro do ensino da Matemática é negro. Não considero salutar que um estudante do 2º, 3º e 4º ano do Curso de Ciências Exactas ou de Engenharias não resolva uma simples equação polinominal “, desabafa o docente universitário José Caluyana Pedro.
Com vista a minimizar o problema, vários encarregados de educação inscrevem os filhos em explicações privadas, para ajudar na compreensão da matéria escolar.
É o caso de Josina Diógenes, 38 anos, que inscreveu a filha de 10 anos e o filho de 8 numa explicação privada, para contrapor o facto de os professores ensinarem, muitas vezes, de forma  “muito rápida”.
 “Na 4ª classe, a minha filha começou a ter dificuldades na disciplina de Matemática, chegando mesmo a obter quatro valores. Mas, nas classes anteriores, ela tinha a Matemática como a sua cadeira favorita. Daí o meu investimento”, refere.
Já Ena Caiei, 34 anos, pôs a filha, de 7 anos, na explicação, porque, diz que  “as escolas têm um plano curricular que nem sempre é cumprido, provocando prejuízo para os alunos”.
 “Elegi uma explicação de professores portugueses, dando a oportunidade à criança de ter contacto com outros métodos de ensino, para reforçá-la com maior número de tarefas e exercícios”, testemunha.
Ao contrário destas mães, milhares de encarregados de educação continuam sem conseguir colocar os filhos no caminho do sucesso, quando o assunto for transpor os desafios da exigente Matemática.
Segundo o professor José Caluyna Pedro, a aprendizagem da Matemática é uma sequência lógica e “quando os alunos não apreendem os conteúdos desde o ensino primário, com o rigor necessário, surgem os dilemas na universidade”.
A disciplina faz parte do quotidiano das pessoas e, de acordo com José Caluyna, no ensino da Matemática deve-se  “começar por identificar quantidades no pré-escolar, avançar para a atribuição de símbolos numéricos às quantidades, na primeira classe, e só depois seguir para o mundo das equações”.
Mas, poucas são as escolas que seguem à risca esse princípio, quer em relação ao ensino da Língua Portuguesa, quer em relação à Matemática. A situação do ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa e Matemática é caótica e requer uma reflexão profunda de toda sociedade, para que se encontrem soluções imediatas.
Enquanto as soluções tardam a chegar, a sociedade persiste no  “grito de socorro “, deixando as autoridades do país com o duro compromisso de melhorar a qualidade do ensino e  “acabar “ com a fobia de milhares de estudantes em relação à dificuldade de apreender Português e Matemática.