Reportagem

Más estradas travam circulação

A falta de estradas  em condições no eixo rodoviário entre a vila do Cuíto Cuanavale (onde terminou a estrada asfaltada) até a sede do município do Rivungo,  torna difícil a circulação de pessoas e bens para aquela região do Sudeste do Cuando Cubango, situada junto à zona fronteiriça com a Zâmbia.

O Rivungo debate-se com todo o tipo de problemas, falta de energia eléctrica, abastecimento de água potável, internet, médicos, enfermeiros, ambulâncias nos postos de saúde, professores, meios de transportes públicos e até o comércio formal e informal de bens alimentares e industriais. Com uma extensão territorial de 29.510 quilómetros quadrados e uma população estimada em cerca de 53 mil habitantes, distribuídos pela comuna sede do Rivungo, Luiana (Jamba) e Tchipundo/Nerequinha, a perspectiva de vida no município torna-se a cada dia que passa difícil devido à escassez de serviços.
Limitado a Norte, pelo município dos Bundas (Moxico), a Este, pela Zâmbia, a Sul, pela Namíbia e a Oeste, pelos municípios de Dirico e Mavinga, a circulação rodoviária entre as comunas de Rivungo e as intermunicipais são difíceis não só por falta de estradas e ao enorme areal que caracteriza quase todo o território da província do Cuando Cubango.
“O problema do areal não é de hoje, é uma particularidade que remonta à administração colonial não soube transpor, limitou-se a apelidar o Cuando Cubango de “Terras do fim do mundo”. As guerras de Libertação, pós independência e das eleições legislativas e presidenciais de 1992 que se prolongou até 2002, complicaram ainda mais a situação de mobilidade em toda a região.
 No caso concreto do Rivungo, as pessoas deslocam-se de uma aldeia ou comuna para outra, de carroças puxadas por bois ou burros, e há os que caminham durante dias e noites para chegarem ao destino. “Pessoalmente, conheço todo o território do Cuando Cubango como a palma da minha mão, e esta situação é vivida pela população do interior de quase toda a província".
 Apesar da enorme escassez de serviços, a população mantém a esperança de dias melhores e em coordenação com a Administração Municipal procuram mitigar a situação, desenvolvem pequenas actividades agrícolas e quando não cai chuva, as culturas são nas margens dos rios ou riachos (pequenos cursos de água) para sobreviver.

Velocidade de cortejo funerário
Actualmente, a circulação rodoviária para o Rivungo faz-se em picadas, por inexistência de estradas, a deslocação a partir do Cuíto Cuanavale para a sede do município dura entre três ou quatro dias se for de Toyota Land Cruiser 4X4, mas de camião pode durar uma semana e com os riscos possíveis, por causa do areal e da presença de animais ferozes.
As dificuldades começam à saída do Cuíto Cuanavale. A partir daí, a viatura só anda com a primeira mudança, a uma velocidade de cortejo funerário, e a alternar com o reforço do veículo nos pontos em que o areal é mais espesso e ao chegar à vila de Mavinga, depois de percorridos 200 quilómetros, a paragem é obrigatória para retemperar energias e fazer alguns reapertos para que o meio atinja o destino.
Os obstáculos estendem-se por toda a via, mas é no Yevela, Tchambinga, Wefo Wefo, Ukhanga onde se põe à prova qualquer chauffeur, motorista em português, que a bordo do seu 4X4, as únicas viaturas que se adaptam ao tipo de terreno da região.
A escassez de bens de primeira necessidade é sentida por toda a população do município, seja funcionário público ou não, para mitigar a fome às pessoas que recorrem ao mercado de Shangombo (Zâmbia), para a compra de víveres manufacturados, mas a taxa de câmbio praticada pelos zambianos não facilita muito as coisas.
Uma nota de mil kwanzas, no Shangombo, é cambiada a 20 Kwachas, a moeda oficial do Governo zambiano, e que serve somente para comprar dois quilos de arroz. Na travessia do canal, que é utilizado por operadores nacionais e estrangeiros, a viagem de ida e volta, o passageiro paga mil kwanzas.
 
Sector agrícola
Apesar das dificuldades, é notória a execução de alguns projectos sociais que visam dar outra imagem à região, e garantir melhores condições para os munícipes. O sector agrícola é a salvação dos membros das comunidades, porque com o apoio da Administração está a ser notória a entrega dos camponeses na produção de bens agrícolas.
Júlio Vidigal disse, que no Rivungo tem 281 comunidades que se dedicam essencialmente no cultivo de milho, massango, massambala, mandioca, batata rena e doce, soja, hortícolas diversas e pequenas quantidades de arroz, assim como a actividade de pesca no rio Cuando, meios de sobrevivência da maior parte da população.
 No primeiro trimestre do ano em curso vai ser lançado o projecto agrícola, designado Aldeia Produtiva, com cerca de 25 mil hectares de terras aráveis para o cultivo de milho, arroz, batata rena e doce, soja, hortícolas entre outros produtos agrícolas, que visam beneficiar cerca de mil e 500 famílias camponesas.
O rio Cuando serpenteia o município do Rivungo, num percurso de 480 quilómetros, é rico em peixe e a implementação de projectos virados para  este sector de actividade, pode ajudar para que a região contribua para a diversificação da economia nacional.

Saúde e educação
O administrador municipal do Rivungo, Júlio Vidigal, disse que o município tem 46 salas de aulas do primeiro ciclo, que são asseguradas por 73 professores, tem e 12 postos de saúde onde funcionam 15 enfermeiros que atendem 281 comunidades que habitam a região.Para que os serviços médicos e medicamentosos possam chegar a todos os populares, os enfermeiros são obrigados a deslocarem-se todas as semanas às zonas mais recônditas, ao encontro dos cidadãos.
Para o combate à malária, foram distribuídos cerca de 13 mil e 500 mosquiteiros para os mais de 30 mil habitantes do Rivungo. Do número de mosquiteiros disponibilizados para o município, há um défice de 17.804, situação que impossibilita que todos os munícipes beneficiem do referido material. Para o combate à febre-amarela, deslocam-se todas as semanas grupos de enfermeiros no seio das comunidades mais longínquas para a vacinação das populações, para que o Rivungo esteja imune da doença.
 “Queremos que os serviços que prestamos aos populares sejam de excelência, apesar da actual conjuntura financeira que o país vive com a escassez de recursos”, disse e acrescentou que "esta situação obriga-nos a sermos criativos para o melhoramento de condições aos munícipes".

Caça furtiva
O município do Rivungo tem 22 mil quilómetros quadrados de área de conservação, que abrange uma grande parte do projecto eco-turístico e de conservação da biodiversidade do mundo, Área Transfronteiriça de Conservação do Kavango/Zambeze (ATFC-KAZA). No parque do Luiana, no período compreendido de Janeiro a Dezembro, foram abatidos 11 elefantes por caçadores furtivos provenientes da Namíbia e da Zâmbia, com alguma conivência de cidadãos nacionais. A par dos elefantes, existem espécies como os búfalos, girafas e palancas, esta última  precisa de ser inquerida se é gigante, castanha ou preta. Estes animais encontram-se em vias de extinção,  devido à acção contínua de caçadores furtivos.  Com a aquisição de meios novos, da Policia de Guarda Fronteira (PGF) e os Fiscais Ambientais, assim como o aumento do número de efectivos para a protecção das áreas de conservação da biodiversidade, nos últimos dias tende a diminuir a presença de caçadores furtivos.

Resposta do Executivo
O Executivo, atento à estes problemas, iniciou em 2014 um projecto de construção de um canal fluvial sobre o rio Cuando, que liga a sede do município do Rivungo ao distrito de Shangombo, para o fomento das trocas comerciais entre os povos dos dois países, e servir de porta de entrada de material de construção diversos, para a construção de infra-estruturas de apoio ao projecto KAZA.
Recentemente, uma delegação multissectorial do Ministério dos Transportes de Angola chefiada pelo seu titular, Augusto Tomás, e outra encabeçada pelo seu homólogo da Zâmbia, Brian Mushimba, trabalharam na sede do município do Rivungo, para avaliar o grau de execução das obras, que deixou entusiasmada a comitiva do país vizinho. Acompanhados do governador do Cuando Cubango, Pedro Mutindi, os titulares dos Transportes de Angola e da Zâmbia visitaram  a ponte cais, as 10 residências de apoio aos funcionários e o edifício da Administração Geral Tributária (AGT), Polícia Fiscal, Serviço de Migração e Estrangeiros (SME) e de Protecção Civil e Bombeiros.
De seguida, mantiveram um encontro à porta fechada, segundo apurou o Jornal de Angola, Augusto Tomás pediu ao seu homólogo da Zâmbia para as autoridades daquele país trabalharem com mais celeridade, sobretudo, na construção dos serviços de apoio ao funcionamento do canal fluvial na localidade de Shangombo, onde até agora ainda não se ergueu nenhuma infra-estrutura do género.
Avaliado em 49 milhões de dólares americanos, a construção do canal fluvial foi idealizado por Angola ,em cooperação com o governo zambiano, para conferir mais mobilidade de pessoas e bens entre os dois países, para reforçar o comércio transfronteiriço e o desenvolvimento socioeconómico das populações circunvizinhas.
Neste momento, Angola executou cerca de 75 por cento das infra-estruturas de apoio à navegação do canal fluvial,  espera-se que o Governo zambiano siga os mesmos passos para que se possam marcar datas indicativas para a inauguração deste importante projecto para a vida da população do Rivungo.