Reportagem

Luquinge despovoado há décadas

As poucas pessoas que persistem em viver no Luquinge estão isoladas de quase tudo. Estima-se que desde a déca-da de 1980 a população do Luquinge deixou de ter contacto com a realidade vivida noutras zonas que compõem o município de Calandula.

O estado das vias de acesso entre a sede municipal e Lu-quinge é péssimo. Os únicos meios utilizados para locomoção são as motorizadas ou bicicletas, mas em péssimas condições. 

A falta de vias de acesso impede a instalação de serviços ligados à saúde e à educação.
O director municipal interino da Educação de Calandula, César João Cudibandeca, revela que não é construída uma escola no Luquinge desde 1980. “Não há escolas”, disse lacónico, acrescentando que aquela localidade não recebe nenhum professor, igualmente desde a década de 1980.
Há dois anos, o administrador municipal de Calandula, Pedro Sebastião Dem-
bue, teve de usar motorizadas para se deslocar ao sector do Luquinge. À nossa reportagem, recorda que a viagem foi “um martírio”, devido às sucessivas quedas durante o percurso de 45 quilómetros.
Face esta situação, a administração municipal colocou a construção e a reabilitação da via de 45 quilómetros entre a comuna do Cuale e o sector do Luquinge no topo das prioridades, para permitir a instalação de serviços sociais básicos na região.
Pedro Sebastião Dembue assegura que, neste momento, estão a decorrer as obras de reabilitação da estrada que liga a sede municipal à co-muna do Kinge, uma região com forte potencial de produção do café.
“Os trabalhos de terraplanagem dos 32 quilómetros decorrem a bom ritmo. Como resultado, alguns cafeicultores já começaram a escoar a sua produção”, disse Pedro Sebastião Dembue, que considera “um bálsamo” a reabilitação das vias de circulação.

Falta de condições afugenta turistas
Calandula, antiga vila Duque de Bragança, nome atribuído em homenagem ao soberano português D. Pedro V, comemorou, a 2 de Setembro, o 90º aniversário da sua fundação. O município é uma referência em locais turísticos, que há muito deixaram de receber visitantes devido ao avançado estado de degradação das vias de acesso.
“Nos últimos anos, houve uma redução no número de turistas que visitam as Quedas do Musseleje, Mbango a Nzenza, no Cateco Cangola, a Mesa da Rainha Njinga Mbande, no Cuale, as Quedas do Makatu a Luando, a 13 quilómetros das Quedas de Calandula”, explicou o administrador municipal.
Apesar disso, Calandula recebe em média 500 turistas, entre nacionais e estrangeiros, nos finais-de-semana prolongados. A Administração Municipal está preocupada também com a criação de condições para a acomodação dos turistas. “Felizmente, já há empresários interessados em investir no nosso município, com a construção de infra-estruturas para atrair mais turistas”, garantiu.

Rede sanitária
A assistência médica e medicamentosa está garantida na sede do município de Calandula. Há medicamentos suficientes para os pacientes que acorrem diariamente ao Hospital Municipal. A reportagem do Jornal de Angola testemunhou a entrega de medicamentos fornecidos pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (Usaid), destinados ao combate da malária.
O município conta ainda com 24 unidades sanitárias, dos quais seis centros de saúde. Das 24 unidades, oito deixaram de funcionar devido à falta de pessoal. A directora administrativa, Domingas Manuel, explica que dois a três enfermeiros garantem a assistência médica e medicamentosa às populações. A comuna do Cota conta com um médico nacional, dos cinco que o município dispõe.
O Hospital Municipal de Calandula conta com vários serviços, designadamente consultas externas, medicina, pediatria e consultas pré-natal, entre outros. Diariamente, são atendidas 30 mulheres grávidas.
Em época de Cacimbo, são atendidas entre 60 e 80 crianças na área de pediatria e 50 nas consultas de medicina. Em época de chuva, podem ser atendidos mais de 500 pacientes, adultos e crianças.
As doenças mais frequentes na região são a malária, parasitoses intestinais, anemias e acidentes de viação. Os acidentes de viação ocorrem principalmente aos finais-de- se-
mana, devido ao excesso de velocidade e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas.
O Hospital Municipal de Calandula atende igualmente doentes provenientes dos municípios de Cacuso e Massango e da comuna do Luinga, província do Cuanza-Norte.
A Administração Municipal está preocupada com os atrasos das obras de construção do Bloco Operatório. “Com a conclusão dessas obras, vamos deixar de enviar doentes para o Hospital de Malanje”, disse Domingas Manuel.

Milhares de crianças Fora do sistema de ensino

Ao todo, 10.436 crianças estão fora do sistema de ensino por insuficiência de escolas no município de Calandula. Este ano, estão inscritos no sistema normal de ensino um total de 18.453 alunos, distribuídos por 24 escolas de diversos níveis, sendo 21 públicas e seis comparticipadas.
O município de Calandula possui 453 funcionários no sector da Educação, entre professores e trabalhadores administrativos. César João Cudibandeca diz serem necessários mais 250 professores para satisfazer as necessidades do município. O município de Calandula, com mais de 90 mil habitantes, é o segundo mais populoso da província de Malanje. Tem uma extensão de 7.032 quilómetros quadrados, 474 aldeias e 574 autoridades tradicionais. Conta com cinco comunas, nomeadamente a sede, Cota, Kinge, Cateco Cangola e Cuale. Além do café, produz igualmente jinguba, mandioca, batata-doce e rena, inhame e gergelim, entre outros.
É limitado a Norte pelos municípios de Massango e Alto Kauale (Uíge), a Este pelos municípios de Marimba, Caombo, Kiwaba Nzoge e Malanje, a Sul pelo município de Cacuso e a Oeste pelos mu-nicípios de Samba Caju e Ambaca (Cuanza-Norte).

Energia de Laúca chega em Novembro

A construção de uma nova subestação de energia em Calandula vai permitir aos munícipes beneficiar da energia eléctrica proveniente de Laúca. Por isso, o administrador municipal, Pedro Sebastião Dembue, realça que este facto vai relançar o crescimento e o desenvolvimento do município, com forte potencial turístico e agrícola.
Com a energia de Laúca, referiu, os munícipes deixam de usar geradores como fonte alternativa e reduzem os gastos com os combustíveis.
O director de obras da empresa da Omatapalo, João Gomes, assegura que 80 por cento dos trabalhos estão concluídos e aponta o próximo mês de Novembro como a data prevista para a entrega definitiva da obra. “Em breve, começa a montagem dos equipamentos e fornecimento de energia eléctrica”, garantiu.
Isaac Kudijikila, professor na Escola 2 de Setembro, em Calandula, considera “um sonho” tornado realidade a chegada da energia eléctrica proveniente de Laúca. “É um ganho que cria grandes expectativas, porque pode permitir a instalação de vários serviços de que o município não dispõe”, referiu.
Por seu lado, Xavier Pedro, estudante e a viver há nove anos em Calandula, sublinha que a instalação de novos serviços, devido à chegada da energia, vai criar novos postos de trabalho, principalmente para a juventude ávida por contribuir para o crescimento e desenvolvimento do município, onde o principal cartão de visitas são as Quedas de Calandula.