Reportagem

Lentes de contacto são inimigas do ambiente

O que para muitos é uma necessidade, o uso de lentes de contacto, é visto por alguns apenas como um adorno. Em pequenos, muitas vezes ouvíamos os nossos pais a tentar convencer-nos a co-mer legumes e frutas com histórias e ditos, uns verdadeiros, outros nem tanto, a exaltarem as propriedades destes alimentos.

A cenoura, por exemplo, diziam os mais velhos, torna os “olhos bonitos”. Hoje, está provado que sim! E que também é boa para os problemas das vias respiratórias, entre outras coisas.
Já em relação às lentes de contacto, são mais as dúvidas que subsistem do que as certezas que se tem, ficando-se, quase sempre, apenas pelo lado estético da questão. O que se sabe, com plena certeza, é que o uso de lentes de contacto carece de cuidados, pois há o risco de se contrair doenças ou  de agravar deficiências.
Agora, um novo elemento junta-se à já longa lista de malefícios que estes objectos, quando descartáveis – e é a maioria – provocam. As lentes de contacto estão a destruir o ambiente.
A esmagadora parte dos utilizadores desfaz-se das lentes de contacto deitando-as directamente na sanita ou no lavatório. As lentes descartáveis são feitas de plástico, descem pelas condutas até aos rios e acabam por ir para o mar.
Pelo caminho, já causaram danos irreversíveis ao entupirem a canalização, ao fazerem transbordar as sarjetas, ao serem tragadas pelos peixes e outros animais.
Um estudo da Arizona State University, dos Estados Unidos, agora divulgado pela imprensa norte-americana, concluiu que 15 a 20 por cento dos norte-americanos deita as lentes para os esgotos.  Há cada vez mais gente a usar lentes de contacto – e cada vez mais gente a trocar as lentes mensais pelas diárias, por serem mais confortáveis. Ou seja, em vez de se deitarem as lentes pela sanita uma vez por mês, o gesto passa a repetir-se todos os dias.
Estima-se que, só nos EUA, 45 milhões de pessoas usem lentes de contacto, o que equivale a, pelo menos, 13 mil milhões de lentes por ano. Nos países europeus, a percentagem varia entre os cinco e os 15 por cento da população de cada um deles.
As lentes de contacto resistem durante o tratamento das águas e tornam-se parte do lodo dos esgotos, sendo que tudo o que lá está pode voltar à superfície com as chuvas. E daí seguem para os rios e para o mar.
Os investigadores da Universidade do Arizona temem  que estes poluentes tóxicos se possam acumular em organismos vulneráveis, como as minhocas e os pássaros, que fazem parte da cadeia alimentar humana.
O facto de as lentes de contacto serem muito perquenas é o que as torna mais perigosas para o ambiente. É para isso que alerta Rolf Halden, director do Centro de Engenharia de Saúde Ambiental da Universidade Estadual do Arizona.  Fruto dos estudos que fez, Halden assegura que, dado o ciclo que percorrem, ao serem deitadas na sanita, as lentes de contacto acabam à mesa de cada um à hora da refeição.

Plástico no oceano
Os cientistas fazem notar que, ao contrário do que muitos pensam, as lentes de contacto não são biodegradáveis. Apesar de serem maioritariamente feitas de água, o plástico nelas presente acaba por ir parar ao oceano, onde é, depois, consumido pelos animais marinhos.
Facto mais grave ainda é que, em geral, as lentes de contacto não incluem instruções sobre como agir depois de as utilizar. Também são muito poucos os casos de fabricantes que façam a sua reciclagem. A quantidade de resíduos plásticos gerados pelas lentes e as suas embalagens só nos Estados Unidos equivale a 400 milhões de escovas de dentes por ano.
Rolf Halden afirmou que, nos EUA, milhões de lentes acabam nas águas residuais, uma carga estimada em 20 mil quilos por ano. Os resultados do estudo agora divulgado vêm juntar-se a muitos outros sobre o impacto dos plásticos no ambiente, tendo em atenção hábitos adquiridos pelas sociedades de consumo, como os saquinhos de plástico dos supermercados e as palhinhas para o consumo de bebidas.
As conclusões a que chegaram os pesquisadores da Universidade do Arizona servem de alerta para os governos de todo o Mundo. Tanto assim é que a União Europeia aprovou acções concretas sobre a questão, no quadro das medidas a tomar em relação aos plásticos.
A União Europeia indica que os Estados-membros têm de reduzir a utilização de plásticos em recipientes descartáveis para alimentos e bebidas, podendo fazê-lo através da fixação de objectivos nacionais de redução, disponibilizando produtos alternativos nos pontos de venda ou garantindo que os produtos de plástico descartáveis não possam ser fornecidos de forma gratuita.
A União Europeia (UE) propõe  que os Estados-membros sejam responsáveis pela recolha de 90 por cento das garrafas de bebidas de plástico descartáveis até 2025. Os países podem, por exemplo, instituir regimes de restituição de depósitos, como taras recuperáveis. Propõe-se também que os produtores contribuam para cobrir os custos da gestão dos resíduos e da limpeza, bem como para medidas de sensibilização para o problema dos recipientes de alimentos, dos pacotes e embalagens (por exemplo, de batatas fritas e doces), dos recipientes para bebidas, dos produtos de tabaco (filtros dos cigarros), dos toalhetes húmidos, dos balões e dos sacos de plástico leves.
A UE avança  que sejam dados incentivos à indústria para desenvolver opções menos poluentes para estes produtos.

  Má utilização pode provocar complicações 

"Num caso extremo, um utilizador de lentes de contacto pode perfurar a córnea [parte transparente do olho] e ter complicações sérias ao nível ocular", diz Walter Rodrigues, coordenador do grupo de superfície ocular, córnea e contactologia da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia.
O especialista explicou que as lentes são um corpo "estranho" em contacto com a córnea e, por isso, é extremamente importante a correcta utilização das mesmas e a consulta com um oftalmologista frequentemente.
Pelo menos uma consulta anual é necessária", frisou. "Só um oftalmologista consegue perceber se existem complicações nos olhos, se está a ter lesões ou neovasos nos olhos", acrescenta  Walter Rodrigues.
A limpeza das lentes é também um processo importante para evitar infecções oculares, não esquecendo que tudo é alvo de contágio. "É fundamental a higienização na hora de colocar a lente de contacto. Tem de ter as mãos bem lavadas. E fazer o processo correctamente", diz.
Primeiro abre-se o estojo das lentes (onde estão a maioria das bactérias que podem infectar o olho), depois lava as mãos e, por fim, colocam-se as lentes. "Se primeiro lavar as mãos e depois abrir o estojo já está infectado", sublinha o oftalmologista.
O tempo de utilização é outro dos factores que podem influenciar as lesões no olho. "Quanto menos tempo tiver de utilizar a lente, melhor. Sempre que puder deve retirar as lentes, porque a córnea é um tecido transparente que necessita de oxigénio. Com a lente de contacto, o oxigénio fornecido quer pelo ar, pela lágrima ou pelos vasos é reduzido", justifica o especialista.
Os sinais de perigo manifestam-se com o aparecimento de olho vermelho, sensação de areia e algum desconforto. "A dor, normalmente, surge apenas quando retira a lente. Isto porque só quando pestaneja e passa na úlcera é que lhe dói, até então estava “protegida” pela lente, acrescenta o médico.
Os problemas mais frequentes decorrentes de um má utilização das lentes de contacto são as infecções oculares. "Qualquer ulcera na córnea está sempre associada a algumas complicações. Depois, a gravidade do problema depende do agente bacteriano", alerta o especialista, para explicar que estas patologias podem levar à diminuição da actividade visual.