Reportagem

Jovens temem perder campo de futebol

Moradores do bairro do Kasseque, em Benguela, temem perder o campo de futebol utlizado por jovens em momentos de lazer. É que a Administração Municipal autorizou a cedência de parte da parcela de terra anexa ao recinto desportivo a uma entidade particular, para erguer um empreendimento.

O jovem António Joaquim, de 25 anos, que sempre praticou futebol naquele local, procurou a reportagem do Jornal de Angola para manifestar a sua inquietação. Ele prevê que, com a construção do empreendimento,  a “modalidade mais popular” começa a correr o risco de desaparecer na zona.
“Tudo começa assim, por se repartir o espaço de terra e, paulatinamente, a acção continua. Com o andar do tempo, podemos perder mais um espaço público para a prática do futebol aqui no bairro do Kasseque. Foi desta maneira que os outros espaços foram literalmente ocupados e neles foram construídos imóveis para fins habitacionais e comerciais ”, disse. De acordo com o interlocutor, a prática desportiva faz com que os jovens tenham a auto-estima em alta e se sintam capazes e integrados socialmente.
“Quando um jovem se sente fracassado na busca por um emprego ou no aprendizado escolar, representa uma porta aberta para os caminhos errados.Nesse caso, o desporto, juntamente com a educação, evitam que esse jovem tenha a sua vida aliciada pelas vias do crime, oferecendo-lhe um futuro mais digno e humano”, referiu António Joaquim.
O futebol tornou-se tão popular graças a facilidade de se jogar. Basta uma bola e jogadores , para que, em qualquer espaço, crianças e adultos possam  divertir-se, na rua, na escola, no campo do bairro ou até mesmo no quintal de casa.
Desde cedo, jovens de vários cantos da localidade começam a praticar futebol nesse espaço. Por isso, acreditam os contestatários, não é correcto que se assista impávido à construção de infra-estrutura em terrenos que servem o futebol nas comunidades da periferia.

Sem risco de conflitos
Para o responsável do Departamento dos Desportos na Província de Benguela, Júlio Paiva, a obra que está ser erguida no espaço não vai colidir com o campo de futebol. 
“A proximidade não vai criar constrangimentos às partidas de futebol que venham a ter lugar no recinto, por estarem salvaguardados os limites do campo aos do empreendimento que está a ser construído nas proximidades”, disse.
O responsável reconheceu que já se perderam muitos espaços desportivos nos bairros. Por isso, o órgão que representa tem mantido contactos com as Administraçoes locais, de forma a se fazer a catalogação das áreas ainda disponíveis para a prática do desportivo junto das comunidades. “Estamos a defender  a socialização e o interesse pela actividade física desportiva, pelo que não haverá conflito. O órgão que rege o desporto na província está a acompanhar todo o processo junto da administração local”, reforçou.

 Chano Rasgado espera pelo pior

Chano Rasgado, antiga es-trela do futebol angolano, actualmente ligado à escola de futebol da cidade de Benguela, considera que o desaparecimento das quadras para prática de futebol, nos arredores da cidade,  é uma autêntica “garimpagem” que o desporto tem vindo a sofrer nos últimos tempos, a favor do imobiliário.
A maior parte dos espa-ços para a prática de futebol na zona periférica do litoral da província de Benguela tem vindo a perder a sua função e a transformaram-se em empreendimentos habitacionais e em superfícies comerciais.
“Eu tenho na minha equipa de futebol jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, que vivem nos bairros da Camunda, Benfica, Kotel e que não tinham necessidade de vir treinar aqui, no campo de Unidade de Protecção de Individualidades Protocolares da Policia Na-cional. Podíamos fazer lá, próximo às suas residências. Mas, infelizmente, os campos desapareceram aos olhos de todos e, como alternativa, são poucos os que ainda restaram”,  disse.
Chano Rasgado explica que a prática desportiva, particularmente o futebol, sempre foi vista como um escape para dirimir os problemas sociais e criar empatia entre os jovens das zonas periféricas da cidade.
“Com o fim dos rectângulos de jogos que existiam um pouco por todo o lado, o resul-
tado está à vista: jovens mergulhados na delinquência”, salientou.
Acrescenta que, se houvesse a iniciativa de construção, entre dois bairros na periferia da cidade de Benguela, de um campo,  com a finalidade de resgatar a actividade, como meio educativo comprometido com o princípio de transformação social, a comunidade sairia a ganhar.
“Teríamos os jovens adolescentes mais próximos das suas áreas de residências, sob o olhar atento dos encarre-gados de educação. Não exis-tem campos nos bairros e a deslocação implica o regres-so precipitado dos adolescentes para se preparem e irem para a escola, entre outros riscos”, disse.
A Escolinha de futebol li-derada por Chano Rasgado também é um projecto desportivo que tem oferecido muitas oportunidades aos jovens das comunidades. São diversos os campeonatos e participações em eventos para os atletas. O futebol promove uma integração entre jovens de diversas classes so-ciais, pois o que rola dentro do campo é algo único. O preconceito e as diferenças ficam de lado e dão lugar ao espírito desportivo, ao trabalho em equipa, que é fundamental.
A libertação por meio do desporto e educação vem como resultado de um viver criativo e cheio de emoções, permitindo o esquecimento das grandes dificuldades, dando esperança ao amanhã.
Chano Rasgado começou muito cedo a jogar futebol, na equipa do Nacional de Benguela, aos 13 anos de idade. Cinco anos depois, mudou-se para o Petro de Luanda, onde jogou por mais de 10 anos. Ganhou seis campeonatos nacionais. Em 1995, passou a viver na Inglaterra, onde fez formação na área do futebol  infanto-juvenil.