Reportagem

“Já foste linda, mas temos esperança ainda”

A bela capital angolana não foi só cantada por nacionais. Surpreendentemente, Pierre Akandengue, artista gabonês, depois de várias actuações em Angola rendeu-se aos encantos de Luanda, da mesma forma que os brasileiros dos Tincuãs.  

Depois de uma digressão  Chico Montenegro fechou-se num hotel e criou “Jienda ya Luanda”, tema em que o Rei do Bolero angolano fala da saudade que sentia da sua cidade, Luanda.
Matias Damásio, um filho de Benguela, fez uma das mais belas canções que falam das gentes de Luanda, aquela onde  diz que a cidade da Kianda é uma terra de braços abertos, de todos, e em que o sol brilha para todos, numa alusão às oportunidades de singrar na vida para quem por elas se bate e aproveita. O neto da avó Augusta também ajudou Sandra Cordeiro a “luandar cantando” um belo tema que enaltece as figuras que marcaram esta cidade. A jovem Esmeralda também cantou figuras, locais, o carnaval e outras histórias luandenses.
André Mingas fez um belo paralelismo entre Luanda e a cidade de Salvador da Baía em “É Luanda”, enquanto o seu amigo Filipe Mukenga em “Kianda ki Anda” luandou, “semba-rockou” e “pandemoniou” a cidade “onde a noite manda” e as suas farras. As estórias de Luanda são retratadas, mais uma vez na voz de Mukenga,no percurso do jovem que veio de Cabinda e acabou por suspirar “até um dia Luanda” e “vou ver se a minha vida anda”.
Não sabendo onde anda, o desaparecido Zémax falou da cidade que tem batida e tem vida em “Luanda Bate Bate”, música do tempo que marcou o seu regresso ao país.
Falando de festas, em “Clube Marítmo Africano” Carlitos Vieira Dias canta sobre as farras que iam até de manhã, ajudando através do mesmo tema a perpetuar uma associação ligada à efervescência do nacionalismo angolano.
Na voz de Boano da Silva ouvimos “Luanda Cidade Linda”, acompanhado pelo conjunto Dimba dya Ngola, e Né Gonçalves conseguiu, igualmente, retratar a cidade do Semba com uma letra que mostrou a insuspeitada fa-ceta voltada para a boemia do também advogado. O Duo Ouro Negro homenageia Luanda com outra sonoridade, declarando o seu amor pela senhora Luanda que está debruçada sobre o mar. Outra declaração de amor incondicional e irrevogável foi feita por Leonel Teixeira em “Luanda”, onde diz que gritar o seu nome e tê-la ao lado é “como um grande amor aos pés”.
Nos tempos da febre do Hip Hop duas formações destacaram-se com autênticos hinos à grande cidade: os Mess, com “Festa em Luanda”, não só agitam as pistas como descrevem como é estar em Luanda, com referência aos vários bairros. Já os Kalibrados falam do melhor e pior de Luanda, como a falta de água e os cortes de luz, num tema ousado que satiriza Luanda e ataca de leve os bajú e faz reflectir os revú.
No intro do álbum “Mbanza Luanda, “as meninas de Rosa Roque, as imortais As Gingas, cantaram como gente com vivência dos tempos do kaprandanda depois de uma “torra” afirmam que “Luan-da tem feitiço”. Calabeto, um luandense de gema, em “Gingar da Bessangana”  canta o mufete de carapau, o komba ditókua e faz uma ponte entre Luanda antiga e a nova Luanda. Os Jovens do Hungu, na altura em Portugal, cantaram a mítica Luanda de outros tempos em “Xalenu Mu Luanda”.

Saudades de Luanda


Teta Lando e Eduardo Paim foram felizes ao cantar as saudades que sentiam de Luanda. Teta Lando, quando pensava em Luanda, sentia que ela ficava longe e Paim recordava-se das “baronas gingonas” e do Senhor Cordeiro afamado e bisbilhoteiro que “arrumava intrigas que acabavam em brigas”. Paulo Flores e o seu companheiro de rota Eduardo Paim, na senda das saudades, deixaram a sua marca no repertório musical dedicado à velha cidade com “Luanda Minha Banda”, onde pedem ao pássaro Kangila para “levar uma mukanda”.
Num tempo que não havia “operação resgate”, Teta Lágrimas com nostalgia cantou “Luanda já foste linda”, que contém esta tocante declaração de amor: “Luanda já foste linda / mas temos esperança ainda”.
No tempo em que Kipuka (lua) andava com o conjunto Os Malambas, também chegou a cantar em “Luanda Rica Cidade” sobre as ruas e as gentes da bela capital.   Urbano de Castro canta o mufete que lhe traz água na boca, a saudade do cajú, quifufutila, quitaba e outros quitutes em “Luanda Capital”, afirmando peremptoriamente que “como ela não há igual”. Uma outra música que se baseia nas saudades da capital é “Minha Cidade Linda”, dos Negoleiros do Ritmo, que na voz de Dionísio Rocha é de consumo obrigatório.
Kianda nas quetas
A Kianda (sereia) é um dos símbolos da cidade de Luanda mais cantados, tratando-se de um caminho directo da saudade para os mitos difusos da ancestralidade. Maya Cool em “Sereia” pede à personagem que leve o seu coração para Luanda e Paulo Flores entra na mesma linha em ”Minha Senhora Sereia”, um semba bem cadenciado que bebe com mestria o vinho poético de Filipe Zau. Os Irmãos Kafala, com ”Minha Luanda”, conseguem falar da sinfonia das sereias, do sol e da vida nas águas do mar, concluindo que “Luanda é nossa”. Em “Luanda Kianda”, composição do cabindense Euclides da Lomba, a voz da Lunda-Sul, Yola Araújo, afirma que “foi Deus que fez bela a Luanda Serena”.

Bom bairrismo

Outra vertente da tematização musical de Luanda é a dos bairros, num exercício saudável do bairrismo muito patente em gerações mais velhas. Teta Tando em “Eu Vou Voltar”, no seu jeito reconciliador, fala de vários pontos de Luanda, começando pelo Desportivo de São Paulo, bem próximo à Terra-Nova, B’s eC’s, zonas que o mais novo cantor Kristo também homenageia. O Duo Ouro Negro em “Amanhã” canta que depois de acender velas na Muxima fariam um passeio pela Mutamba e outras ruas da cidade. Ruy Mingas, ao musicalizar o poema ”Morro da Maianga”, de Mário António, consegue radiografar estórias de uma Luanda colonizada.
Outro artista não kalú, Beto de Almeida, retratou o ambiente de Luanda em “Maria Dendém”, onde canta que “não passa” da Mana Maria porque nas Ingombotas “tem gente que fala mal e estão a prender”, num forte ritmo que leva ao Carnaval de Luanda.
Se Bangão transporta os melómanos para as brincadeiras da infância vivida no seu Sambila, Bell do Samba exalta ao quadrado o Sambizanga, um bairro que, na sua óptica bairrista, serviu de berço às figuras mais famosas de Luanda.
A Ilha de Luanda foi cantada e igualmente eternizada na voz de Carlos Bu-
rity, que a descreve como “pombal do amor”, “humilde tecto do pescador”, em suma, um paraíso. Um outro Carlos, o Lamartine, com “Semba Prenda” canta a sua descida pelo Morro da Samba a procura de novos e velhos amigos para passar o fim-de-semana, exaltando os grandes salões do Prenda, a começar pelo Las Palmas. Lamartine, homem nascido em Benguela, adopta um linguajar muito luandense e narra histórias e pratos que qualquer luandense dos “sete costados” gostaria de receber como prenda.

Um ouvir global das músicas e dos lugares

 

De todas as artes a música é a que mais tem o condão de levar qualquer um, mentalmente, a lugares onde fisicamente já esteve ou, quiçá, onde jamais realmente esteve. Pode levar-nos a Yaoundé ao som do camaronês Tala André Marie, que enaltece a cidade capital do país de Mano Dibangu,  ou com Mirian Makeba  em “Pata Pata” situar-nos nas noites dançantes das “townships” de Joanesburgo do tempo do Apartheid. 
É ainda a música que, com o casal de invisuais malianos Amadou e Marien descreve como é o “dimancheen Bamako”. Alpha Blondy deu a conhecer aos amantes do Reggae mundial Yamoussokro e Abdijan com o seu equivalente Cazenga, Treinchiville. O ganense Rocky Dawini brindou os quenianos, e não só, com “Nairobi”, uma homenagem no ritmo dos rastafaris. Youssou Ndour não cantou apenas “Medina”. O príncipe de Dakar cruzou esta cidade com Kingston, que foi cantada tanto pelos UB-40 como por Bob Marley, o Rei do Reggae.
Dentre as várias cidades do mundo, Nova Iorque é das mais inspiradoras. Sting cantou as peripécias do “Englishman in New York”, quando já Frank Sinatra tinha imortalizado a cidade da Grande Maçã em “New York, New York”. Em tempos dos novos terrorismos Alicia Keys e Jay-Z ajudaram a vender o sonho americano com o tema musical “Empire State of Mind”.
Entre os falantes da língua portuguesa, Cesária Évora situa o mundo não apenas em Cabo-Verde, mas em São Vicente; Gilberto Gil em “Aquele Abraço” apresenta a Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, ao passo que em Portugal os fadistas carimbam culturalmente o passaporte dos turistas em Lisboa.