Reportagem

Guerra de potências sem vencedor à vista

A China acusou os Estados Unidos de pretenderem destruir a ordem mundial, favorecendo o bilateralismo e o proteccionismo. A acusação pode ser verdadeira, mas chama a atenção pela ironia da História.

Na verdade, a China é governada pelo partido comunista, suposto opor-se à ordem mundial capitalista, enquanto os Estados Unidos têm, neste momento, um governo onde o capital privado é rei quase absoluto. Algo mudou profundamente, dando razão a quem, como o economista norte-americano James Galbraith, assinala o fim da normalidade.
Podemos acrescentar o fim das dicotomias: bons contra maus, socialistas versus capitalistas. O PC chinês governa e estimula uma economia capitalista, a Casa Branca governa e estimula no mesmo sentido. Além disso, ambos visam hegemonia mundial. Razão para confronto.
A acusação chinesa veio da porta voz governamental e do Banco Popular, quer dizer, o banco central, ao tomarem a decisão de reduzir em mais de 2 por cento , sem pré-áviso, a cotação cambial do renminbi ou, como é corrente nos mercados ocidentais, o yuan, moeda chinesa. Ao mesmo tempo, Pequim anunciou a suspensão de compra de produtos agrícolas norte-americanos.
Washington reagiu de imediato, acusando a China de manipulação cambial, o que é grave, pois constitui crime interno em qualquer país e concorrência desleal nas trocas mundiais. Agricultores estadunidenses, por sua vez, manifestaram grande ansiedade ao declararem como catastrófica a suspensão de venda de soja à China.
As referidas decisões chinesas são vistas como resposta às de Donald Trump de impor às importações procedentes da China taxas aduaneiras acrescidas em 25 por cento e abrangendo uma vasta gama de produtos, cujo total pode ser de 300 mil milhões de dólares, com efeito a partir de 1 de Setembro próximo.
Portanto, duas medidas de guerra económica (não apenas comercial), uma vez que o câmbio monetário entra na batalha. Um dos objectivos de Trump na pressão sobre a China é manter o grande avanço tecnológico que os Estados Unidos possuem sobre qualquer país e, referem diversos círculos mundiais, atrasar o projecto “Made in China” 2030.
Washington designa esta vertente como defesa dos direitos de propriedade intelectual, acrescentando um aspecto muito prometido durante a campanha eleitoral - reequilibrar a balança comercial do país, cujo défice ultrapassa os 800 mil milhões de dólares, quase metade dos quais na relação com a China.
Washington quer que a China compre mais produtos seus e esta, recentemente, tinha concordado com tal princípio, após contactos entre delegações dos dois países, na sequência da moratória acertada em Buenos Aires (Argentina), na reunião de Chefes de Estado e de Governo do G-20, agrupamento das 20 maiores economias do mundo. Mas foi de curta duração e as negociações seguintes devem ter sido decepcionantes para os Estados Unidos. Estes voltaram ao ataque alfandegário e mantiveram um quase boicote sobre a empresa de telecomunicação chinesa Huawei, acusando-a de espionagem.
Há forte suspeita nos mercados de que quase todos os fabricantes de smartphones avançados procuram capturar dados, tal como ocorre com os servidores de Internet. Mas no caso da Huawei, o significado vai mais longe: Trump proibiu investimentos chineses nas empresas norte-americanas de alta tecnologia, tendo suspenso o fornecimento à Huawei de componentes micro que só a Sillicon Valley (e seus prolongamentos) produz.
A Huawei assinalou resultados comerciais positivos no primeiro semestre, mas suspendeu a colocação no mercado de novo modelo e confirmou gestão especial para aqueles componentes de origem USA. O projecto de 5G em andamento na China continua mais próximo da conclusão que nos Estados Unidos, onde este resultado parece aceite e trabalham já para retomarem a dianteira com um futuro 7G.

Os investimentos chineses nos Estados Unidos caíram 90%, desde a chegada de Donald Trump ao poder. Em termos macro-económicos, não afecta o desempenho interno, pois o PIB norte-americano cresce em torno dos 3% e há a criação mensal de entre 160 mil e 200 mil novos empregos, dois dados excelentes para uma economia deste porte e diversidade.
Precisamente aqui está outro eixo central das rivalidades. Pela primeira vez, deparamo-nos com discrepâncias na definição de qual PIB ocupa o primeiro lugar mundial. Até há pouco, por qualquer dos métodos de cálculo, era o dos Estados Unidos. Agora, estes mantêm a dianteira pelo método Nominal, enquanto a China está em primeiro pelo método PPP.
O resultado do choque, a curto prazo, é a redução das trocas entre estes dois “monstros da economia global”, fazendo cair as previsões sobre elas, conforme revela o FMI nos seus habituais “outlooks”.
Do ponto de vista económico, o perigo maior é, na continuação desta escalada de taxas e chantagens, ambos perderem o controlo das operações, tanto mais que há rivalidades militares e políticas. As militares incidem sobretudo em movimentos navais nos mares da China, desde as Filipinas a Taiwan, enquanto as políticas apresentam um dado perigoso: ambos os governos são conduzidos por personalidades autoritárias. É um facto haver, em termos militares, muito mais precaução que nas interdições tecnológicas e duplas punições aduaneiras.

História do caso

Chegámos a este ponto rapidamente. Ambos os lados adoptaram a resposta taco-a-taco imediatamente. O conflito passou à prática em Março do ano passado, quando Trump, argumentando com o desequilíbrio nas trocas recíprocas e nos direitos autorais, decretou alta nas barreiras alfandegárias sobre um bloco de produtos chineses, avaliado entre 50 e 60 mil milhões de dólares, tendo a China retaliado sobre 128 produtos americanos.
Em Maio de 2018, houve reaproximação, com um ciclo de negociações, mas em Junho deu-se nova alta para produtos chineses à entrada nos Estrados Unidos, num novo total de 50 mil milhões, dos quais 36 MM de efeito imediato. Pequim respondeu na mesma área, atingindo 50 MM de mercadoria Made in USA e, em Agosto do ano passado, apresentou queixa na Organização Mundial de Comércio, entretanto, impotente para travar este choque de titãs.
Na mais recente reunião do G-20, em Osaka, os dois Chefes de Estado reencontraram-se e anunciou-se a retoma das negociações entre delegações de alto nível para Setembro próximo. Até aqui nenhum dos lados desmentiu nem anulou, mas cada um lançou uma “flechada” contra o outro.