Reportagem

Figuras e feitios para o Nobel da Paz

O anúncio do vencedor do Nobel da Paz acontece hoje, em Oslo, Noruega. Amanhã  realiza-se a primeira volta das presidenciais no Brasil. Ambas as situações deixam o mundo suspenso, com muitos a preferirem enveredar pelo caminho das aposta, em quem serão os ganhadores.

E dizemos ganhadores porque, independentemente do lado para o qual recaírem as escolhas, haverá apenas perdedores e não vencidos. No que diz respeito ao Nobel, devido ao sigilo em torno dos nomeados, poucos pormenores foram adiantados pelo Comité Nobel Norueguês. Ainda assim, são muitas as previsões acerca dos favoritos e o que se pode dizer é que, se, em 2017, a atribuição do Prémio à Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares foi quase consensual, este ano, as coisas estão longe disso.
Na edição anterior, o intenso trabalho desenvolvido para alertar para as terríveis consequências humanitárias que podem advir do uso de armas afins e os esforços empregues para criação de um tratado que vise a proibição de armas nucleares mereceu  aprovação unânime como seria de esperar, dada a natureza do prémio em si.
 Como se sabe, o Nobel da Paz tem um simbolismo distinto dos prémios de Física, Química, Fisiologia ou Medicina e Literatura, pois permite premiar pessoas ou organizações que desenvolvem acções no sentido de resolverem problemas, essencialmente de cariz humanitário.
Cabe ao Comité Nobel Norueguês, composto por cinco membros, fazer a selecção dos candidatos elegíveis, bem como a escolha dos vencedores, que recebem o prémio não em Estocolmo, como acontece com os restantes prémios, mas, em Oslo. A entrega só tem lugar numa cerimónia a realizar-se em Dezembro.
Para o Prémio Nobel da Paz 2018 existem 330 candidaturas, das quais 216 de pessoas e 114 de organizações, número ultrapassado apenas em 2016, ano em que houve 376 concorrentes.

Little Rocket Man

Embora os estatutos da Fundação Nobel impeçam que sejam divulgadas quaisquer informações sobre os nomeados, pelo menos até se passarem 50 anos do evento, algumas informações vindas a público colocam entre os favoritos Donald Trump, Kim Jong Un e Moon Jae-In, Presidente da Coreia do Sul.
Outros nomes fortes são os de Carlos Puigemont, antigo Presidente da Catalunha, Raif Badawi, escritor, dissidente e activista saudita, o Papa Francisco e o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados. O ex-Presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva também é candidato.
A campanha a favor de Lula foi lançada por Adolfo Pérez Esquivel, arquitecto, escultor e activista dos direitos humanos argentino, ele próprio vencedor do prémio, e pelo site Change.org. Conta com o apoio de um dos principais intelectuais do mundo, o linguista, filósofo e activista político norte-americano Noam Chomsky.
De acordo com informações postas a circular, a campanha a favor da candidatura de Lula pode reunir até 300 mil assinaturas.
“O que Lula fez na área da política pública e nas políticas sociais, tirando da pobreza mais de 30 milhões de brasileiros e brasileiras, é um facto único no mundo”, defendeu Esquivel, que tentou visitar Lula na sede da superintendência da Polícia Federal brasileira, mas foi barrado pela Justiça.
Adolfo Pérez Esquivel saudou a adesão de Chomsky no seu Twitter: “Noam Chomsky se suma a la campaña para que Lula Da Silva reciba el Premio Nobel de la Paz por su lucha contra la pobreza y ladesigualdad”, escreveu.
Ainda assim, Donald Trump mantém-se no topo dos favoritos. Caso vença, junta-se, na galeria dos premiados pelo Nobel da Paz, a Barack Obama, que venceu em 2009.
Os apoiantes da sua candidatura realçam o trabalho por ele feito com vista a acabar com a guerra entre as Coreias e a desnuclearizar a Coreia do Norte, levando a paz ao território, após um período muito conturbado nas relações da Coreia do Norte com outros países, incluindo os EUA, com risco iminente de uma guerra global.
Os mais críticos questionam o facto de se agraciar com o Nobel da Paz o homem que manifestou orgulho de ter em sua posse o “maior” botão para armamento nuclear do Mundo. Porém, a verdade é que, após Moon Jae-in ter defendido que deveria ser Donald Trump, o próximo a receber o Prémio, 18 congressistas republicanos formalizaram a nomeação, numa carta enviada ao comité norueguês.
Na missiva, salientaram que o empresário nova-iorquino devia ser reconhecido pelo seu contributo para“o fim da Guerra da Coreia, a desnuclearização dessa península e para a paz dessa região”.
A imprensa em todo o Mundo considera a nomeação de Donald Trump “particularmente curiosa”, pois, durante meses, o líder norte-americano entrou em confronto directo, através do Twitter e da comunicação social, com o líder norte-coreano, a quem apelidou de “little rocket man”(pequeno homem do foguetão).

 “Ele Não” é liderado por mulheres

No Brasil, o instituto de pesquisa da opinião pública Ibope referia na segunda-feira que a popularidade de Jair Bolsonaro continua a crescer, sobretudo após o atentado à facada sofrido a 6 de Setembro. De acordo com as projecções, o candidato viu as intenções de voto a seu favor subirem para 31 por cento, naquela que foi considerada a pior semana da sua campanha desde o ataque.
Tudo porque na imprensa brasileira tem aumentado as matérias negativas a Bolsonaro, ao mesmo tempo que, na rua, crescem os protestos em todas as cidades, liderados principalmente por mulheres, gritando “Ele Não”.
Curioso é que, apesar de todas as controvérsias que cria com as suas declarações racistas, xenófobas e sexistas, contra os pobres, a favor do armamento da população e privatização de empresas públicas, Jair Bolsonaro tem visto manifestar-se a seu favor algumas figuras públicas no Brasil, como os cantores Gustavo Lima, Eduardo Costa, Amado Batista e André Valadão e o jogador de futebol Felipe Melo.
 Analistas políticos explicam a popularidade de Bolsonaro com o clima de incertezas que se vive no Brasil, devido à corrupção generalizada, atribuída, em grande medida, à gestão do PT e ao clima de insegurança, sobretudo, nas grandes cidades.
A esperança de muitos é que, ao ser arrastado para uma segunda volta nas eleições, Bolsonaro acabe derrotado, já que, como os cenários apontam, ele perderia para qualquer dos candidatos.