Artigo

Reportagem

Fazenda resgata esperança de jovens

A vida de Ivan Alberto, que era um menino alegre e com ambições de qualquer garoto da sua idade, tinha mudado, num ápice, aos 15 anos, quando decidiu provar crack. O gesto que, inicialmente, fazia parte de uma tentativa de descobrir o que outros adolescentes provavam, transformou-se num vício.

Depois de algum tempo a usar crack, o rapaz conheceu a cocaína e vivia do abuso excessivo de álcool. Descontrolado pelos efeitos dos vícios, Ivan viu-se, igualmente, envolvido na criminalidade, passando a praticar roubos, inclusive em casa, numa altura em que já tinha abandonado a escola.

Meses depois de o vício tomar conta de si, o adolescente largou a família e partiu para a aventura das ruas. Foi nesta altura que os parentes, dando conta da gravidade do problema, tentaram arranjar mecanismos para que Ivan saísse da marginalidade, mas os esforços dos pais foram em vão, pois as drogas eram mais fortes que a vontade de sair dos vícios.
No tempo em que caiu no mundo das drogas, parecia comum, nas esquinas ou em espaços isolados da cidade, encarar jovens e adolescentes a consumir estupefacientes.

Na Maianga, zona em que Ivan residia, o uso dessas substâncias era como uma moda, contou o jovem.
“Aquilo, para algumas pessoas como eu, era irresistível e, quando dei conta de mim, já estava totalmente envolvido e sem beco para sair por si só”, contou o jovem, avançando que, caso não buscasse ajuda, talvez já estivesse morto.

Como Ivan, o jovem Telmo Lovala, 22 anos, também esteve mergulhado no mundo das drogas, durante dez anos. Para ele, tudo começou por curiosidade de querer provar um cigarro, que lhe deu azo para experimentar, a seguir, bebidas alcoólicas, até que se viu a consumir liamba.
Durante sete anos, o adolescente, que caiu no vício aos 12, influenciado por amigos do bairro e colegas de escola, só fumava cigarros e liamba. A poucos meses de chegar à maioridade, Telmo partiu para drogas mais pesadas, como a cocaína, que usou durante 3 anos.

“Várias vezes, dormi na rua, roubei e fiz muitas coisas feias. Quando praticava esses crimes não tinha piedade nem remorso de nada. As drogas, esse demónio que se deve combater com intensidade, criam-te a sensação momentânea de seres um astro ou um rei e nada mais interessa. É como se fosses o maior”, recordou Telmo, com tristeza.

Depois de passar a consumir cocaína, o rapaz fugiu da casa dos pais e, por três anos consecutivos, viveu na rua. A sua nova família era constituída por amigos drogados, drogas e criminalidade. “No fundo, não nos pertencíamos. Éramos do abismo”, reconheceu Telmo.
Quando tudo já parecia perdido, esse cenário registou uma reviravolta. Há um ano e meio, quer Telmo, quer Ivan conheceram a Fazenda da Esperança, um programa de recuperação de toxicodependentes, desenvolvido pela Igreja Católica, que veio mudar completamente a vida dos dois jovens.

Foram 13 anos para Ivan abandonar os vícios, dos quais não saía mesmo com a insistência dos familiares.
Esse período conturbado foi desaparecendo na vida do jovem, dias depois de se instalar na Fazenda da Esperança, na província do Huambo, onde, quando lá chegou, achou que fosse apenas deixar os vícios das drogas, da bebida alcoólica e da delinquência, mas o tempo mostrou-lhe que a instituição transformou completamente a sua vida.

Como consequência dessa mudança radical, Ivan é, agora, um homem de bem. Com 28 anos, o jovem tem levado a cabo uma série de actividades junto de várias comunidades, para dar o seu testemunho e ajudar a despertar toxicodependentes de que, com fé, podem sair do vício.
“É possível abandonarmos a vida menos digna e seguir um rumo melhor, que granjeie respeito”, acentuou Ivan, quando dava o seu testemunho a uma assembleia de fiéis da Paróquia do Santíssimo Redentor do Kilamba. “Deus dignou-se em tirar-me da humilhação pública, daí o meu testemunho de vida, para mudar a atitude de outros”.

Um ano e meio depois de ter entrado para a Fazenda da Esperança, Ivan, hoje, totalmente recuperado dos vícios, aconselha jovens e adolescentes a lutarem contra as drogas, prostituição, consumo de bebidas alcoólicas e a delinquência, por serem práticas que, mais tarde ou mais cedo, levam à desgraça total.
Já fora da fazenda, mas trabalhando em grupos de aconselhamento a toxicodependentes, Ivan, ainda solteiro e sem filhos, tem prestado, igualmente, serviços a uma empresa familiar, estando aberto a outras propostas, uma vez acreditar no seu grande potencial para fazer crescer e ajudar a desenvolver projectos.

Já Telmo, também totalmente recuperado, explicou que, na fazenda, nos três primeiros meses, não se recebe visita. Mas, a família que se encontra naquela casa, apesar da distância geográfica da província de origem, dá o calor necessário para que os internos se sintam amados, quando antes “achávamos que as drogas eram o melhor que tínhamos”.

Para Ivan e Telmo, é, exactamente, o calor, a fraternidade, a convivência saudável e o amor que transformam a vida dos jovens. Daí que, num prazo de um ano, vários jovens viram-se livres das drogas e de outros vícios e regressaram à vida normal. Por exemplo, se o primeiro jovem trabalha numa empresa familiar, o segundo retomou os estudos médios, desde Julho de 2019, na área de Desenhador Projectista.
“O meu sonho é ser engenheiro ou psicólogo”, disse Telmo, para quem esses objectivos vão ser materializados, no sentido de, cada vez mais, as pessoas acreditarem que é possível vencer as drogas e caminharmos para projectos melhores, desde que se tenha vontade própria.

Mais de 40 mil retirados do mundo dos vícios

O programa “Fazenda da Esperança” controla 143 estabelecimentos, distribuídos por 23 países, sendo que, em África, o projecto existe, além de Angola, em Moçambique, Quénia, África do Sul e Cabo Verde. Os estabelecimentos da “Fazenda da Esperança” trabalham, actualmente, na recuperação de quatro mil jovens, depois de já terem retirado do mundo dos vícios mais de 40 mil pessoas.

No Brasil, segundo o brasileiro João Paulo, o responsável da Fazenda em Angola, o projecto surgiu por intermédio de um padre franciscano, que trabalhava numa paróquia, onde incentivava os fiéis a viverem fervorosamente o Evangelho. Mas, entre os paroquianos daquela paróquia da cidade de São Paulo, havia pessoas que usavam drogas, tendo sido estes os primeiros que aderiram ao programa, há 36 anos.
Entre os recuperados estava um angolano, que, por ter reconhecido a importância social do projecto, conversou com o arcebispo do Huambo, quando regressou ao país, sobre a possibilidade de o programa ser desenvolvido também no país.

A Fazenda da Esperança já está em Angola há oito anos, durante os quais já trabalhou com centenas de jovens. “Os efeitos da vinda do programa a Angola são visíveis”, afirmou o responsável da Fazenda da Esperança em Angola.
Por exemplo, além de Ivan e de Telmo, os grupos de apoio ou de acompanhamento estão cheios de jovens que, depois de terem conseguido abandonar os vícios na instituição, dão, agora, testemunhos de vida.

“Estes jovens, hoje, levam a vida a instruir e a dar testemunho a outras pessoas sobre como podem, com a ajuda de todos, sair do mundo das drogas, da prostituição, da delinquência e doutras práticas maléficas à sociedade”, referiu o brasileiro João Paulo.
O responsável do programa em Angola disse que alguns jovens têm tido recaídas, mas, quando tomam consciência da necessidade de vencerem a batalha contra as drogas, regressam à fazenda, onde continuam a seguir toda a terapia até à cura total. Por isso, salientou, as desistências são quase nulas.
Em função disso, durante os oito anos de presença em Angola, pela Fazenda da Esperança já passaram mais de 400 jovens, que, depois de curados, voltaram a ser reintegrados na sociedade.

Processo terapêutico com três bases principais

O processo terapêutico a nível da Fazenda da Esperança tem três bases fundamentais, explicou João Paulo. Trata-se do “trabalho”, da “convivência” e da “espiritualidade”, o chamado tripé do sucesso na recuperação de toxicodependentes, executado em todos os programas da fazenda no mundo.

Através do “tripé”, detalhou o responsável, os jovens em recuperação na Fazenda convivem com novas pessoas e aprendem com elas diversos hábitos e maneiras de encarar a vida.
As famílias dos jovens são chamadas a cooperar para o bem do desenvolvimento e da recuperação dos internados, explicou João Paulo.
A par disso, os jovens desenvolvem, na Fazenda da Esperança, uma série de actividades, entre as quais pedagógicas, em formatos ocupacionais, como a laborterapia (tratamento de doenças psico-emocionais através do trabalho).

Por via da laborterapia, os jovens internados dedicam-se à agricultura, produzindo grande parte de produtos consumidos na Fazenda.
Além do trabalho e da convivência, a espiritualidade é outro elemento que ajuda a dar um sentido de vida aos jovens internados na Fazenda. “É das partes mais importantes da terapia, porque a pessoa é convidada a sair de si mesmo e a ajudar o outro”, realçou João Pinto.
O cidadão brasileiro que dirige o programa em Angola realçou que a grande missão da Fazenda “é o resgate da esperança, algo que muitos jovens têm estado a perder, por serem poucas as pessoas que ainda acreditam neles”.

Mais apoios são necessários

Para garantir a sustentabilidade do projecto, João Paulo referiu que a instituição depende dos rendimentos saídos do trabalho que desenvolve em várias áreas, como as da agricultura e pecuária, e do apoio de familiares dos internados.
A instituição é reconhecida pelo Estado angolano, mas não recebe nenhum apoio governamental. O imóvel onde funciona a Fazenda da Esperança, na província do Huambo, foi construído com financiamento da Sonangol. “Precisamos de mais apoios”, avançou João Paulo.

Apesar das dificuldades, o responsável da Fazenda da Esperança em Angola explicou que o grupo vinculado à Igreja Católica funciona como uma comunidade terapêutica e vai continuar a acolher e tratar jovens para ficarem livres da dependência química.

Com capacidade para acolher 51 pessoas, das quais 20 do sexo feminino, a casa da Fazenda da Esperança, erguida no Huambo, é a única existente no país.
Por não haver ainda fazendas noutras províncias, o projecto funciona com grupos de acompanhamento.
Além do Huambo, o projecto está a ser estendido, a partir da criação de grupos de acompanhamento, para as províncias de Luanda (Palanca, Viana e Kilamba), Benguela, Huíla, Namibe e Malanje.