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Reportagem

Famílias clamam por melhores condições na morgue de Luanda

A luz do dia ainda estava adormecida quando Amadeu Pedro, de aparentemente 43 anos, colocava na bagageira da viatura uma banheira de cor castanha, contendo toalha, sabonete, pente, lençóis diversos, perfume e um conjunto de roupas novas.

Enquanto ajeita bem as coisas no carro, um parente seu aparece com dois bidões de 25 litros de água e coloca também na viatura. O relógio marca neste momento 4h30. O destino é a Morgue Central de Luanda, onde está em conservação, há dois dias, o corpo de um jovem, falecido por doença. É o dia de preparar o corpo para o funeral. Vários familiares  estão mobilizados para a operação. O carro parte do Benfica, local do óbito, às 4h50 e chega à morgue às 5h20.
A chegada àquela hora tem a ver com uma orientação da direcção da instituição, que pede às famílias para comparecerem mais cedo ao local, devido ao engarrafamento que se regista na via que dá acesso à casa mortuária, a partir das 8h00.
À porta da instituição, várias senhoras vendem luvas, máscaras, cigarros e whisky em pacotes. “A instituição não fornece material hospitalar às pessoas que aqui vêm à busca de defuntos”, disse uma fonte no local.
Os homens que acabaram de chegar dirigem-se a uma das vendedoras de material gastável para comprarem luvas e máscaras. Dois deles compram seis pacotes de whisky, dividem e, em fracções de segundos, desfazem-se deles já todos vazios. “Agora, podemos entrar”, disseram.
Dentro do estabelecimento, Amadeu Pedro dirige-se a um funcionário, apresenta o documento que confirma o depósito de cadáver. Acto contínuo, segue na companhia de um outro funcionário, até à câmara onde está o corpo do seu familiar.
Por falta de espaço na zona específica de lavagem, algumas famílias dão banho aos seus ente-queridos mesmo à porta da câmara, deixando a zona alagada e suja com plásticos que saem nos caixões, sabonetes, pentes, lâminas e bidões de água de 20 e 25 litros.
Mais um pouco ao lado, estão outras famílias a terminar o aprumo dos seus entes-queridos, a céu aberto. Já no interior da câmara, um pormenor chama atenção de Amadeu Pedro,  o facto de ter deixado apenas o cadáver do seu primo e, no dia do levantamento, ter encontrado três corpos a partilharem a mesma gaveta.
Depois de retirar o corpo do seu familiar da gaveta, com a ajuda de outros parentes, o defunto é levado à zona de lavagem. O banho foi feito com a água transportada em dois bidões de água de 25 litros. Filipe Mahapi, chefe de departamento de Serviços de Cemitério, Morgue e Velório do Governo da Província de Luanda, disse ao Jornal de Angola que as famílias levam água à morgue porque pensam que não vão encontrar o líquido para lavar os entes-queridos.
Além de água corrente, a instituição dispõe de um reservatório com capacidade de 50 mil litros de água. “Essa coisa de levar água à morgue é um vício que as famílias desenvolveram e não querem largar”, frisou. “É impossível uma casa mortuária, que faz regularmente autópsia, não ter água corrente. Temos água bastante, lá”, declarou o responsável, para quem não faz sentido que as famílias continuem a levar bidões de água para aquela instituição.

Vista dos prédios
Os moradores dos prédios das redondezas confrontam-se todos os dias com imagens de  familiares a lavarem e a vestirem mortos, no recinto da casa mortuária de Luanda. Uma senhora disse ao Jornal de Angola ser “um autêntico desrespeito àqueles que partem para o além.”
No entender da cidadã, o espaço onde os cadáveres são lavados é pequeno para o número de corpos que são tratados ali diariamente.
“É por essa razão que algumas famílias lavam os seus entes-queridos em lugares impróprios no recinto dessa instituições”, frisou. Nessa altura, o corpo do familiar de Amadeu Pedro já estava tratado e pronto para abandonar o local. Um cheiro nauseabundo paira no ar e desperta a atenção dos presentes. A câmara 5 está aberta.
Naquele frigorífico, três homens procuram identificar um parente desaparecido, há uns dias. No equipamento, que está isolado dos demais, são colocados os cadáveres recolhidos na rua pela Polícia Nacional, que chegam a ficar ali por muito tempo.

Morgue Central recebe 40 mil corpos anualmente

Com capacidade para conservar 172 corpos, a Morgue Central de Luanda regista sobrelotação, onde em cada gaveta ficam entre dois e três corpos,  devido ao elevado número de pessoas que morrem na capital e que dão entrada na instituição, cuja cifra chega a atingir os 40 mil, anualmente.
Filipe Mahapi disse que, se o número de mortos fosse reduzido, “seria possível acomodar apenas um cadáver “, para elucidar que se se dividir os 40 mil por 366 dias do ano, “conclui-se que naquela unidade entram diariamente 109 pessoas.”   
Luanda dispõe de três morgues, sem contar com a dos hospitais, sendo a central, que mais corpos recebe, localizada por trás do Hospital Josina Machel, outra em Cacuaco, com capacidade para 48 corpos e a terceira no Camama, com 24 gavetas.
O chefe de departamento de Serviços de Cemitério, Morgue e Velório do Governo da Província de Luanda é partidário da ideia de que cada município da capital tenha a sua casa mortuária, para desafogar a pressão sobre a principal unidade de referência.

Cemitério do Benfica

O cemitério do Benfica, com 110 hectares, equivalente a 150 campos de futebol, o maior existente em Luanda,  chega a registar mensalmente mais de 400 funerais, disse Filipe Mahapi, para quem é o campo santo que vai, durante muito tempo, suportar a procura, até que sejam erguidos outros.
Filipe Mahapi deu a conhecer que os seis cemitérios oficiais que Luanda tem, nomeadamente o do Benfica, do Camama, Alto das Cruzes, Santa Ana, Mulemba (vulgo 14) e o de Viana, são insuficientes, tendo em conta o número de pessoas que morrem na capital.
Segundo o responsável, está em curso um projecto para a construção de mais dois campos santos, no Zango, em Viana, e na Centralidade do Sequele, em Cacuaco, tendo anunciado o fim dos cemitérios clandestinos.