Artigo

Reportagem

Exploração desenfreada de madeira

O rumor, segundo os quais, “lucro fácil na exploração de madeira”, tem gerado grande interesse por parte de alguns cidadãos que mesmo sem licença de exploração procuram a todo o custo exercer esta actividade.

Cidadãos atentos consideram a prática como um autêntico garimpo, que nada tem a ver com o slogan do Executivo sobre a diversificação da economia fora do sector petrolífero. 
A reportagem do Jornal de Angola saiu à rua e ouviu vários depoimentos, inclusive de pessoas que vivem nas zonas de exploração de madeira que condenam o fenómeno que consideram como uma afronta a uma das maiores reservas florestais do país.   Em volta do assunto, a situação não está para menos. Uma grande maioria dos cidadãos contactados defende a adopção de medidas, para pôr fim à desordem verificada na exploração anárquica de madeira na província.      
Sapalo Muecheno vive na zona do Lucusse, uma das localidades com maior presença de empresas de exploração de madeira. O cidadão, que interrompeu o vínculo contratual com uma empresa de exploração de madeira por desavenças com o patrão, alerta no sentido de a entidade de direito acabar com esta onda de açambarcamento deste recurso importante, para a economia do país e da província em particular.
Baseando-se num ditado popular, segundo o qual: "só teme aquele que deve", Sapalo Muecheno receia que grande parte dos que praticam o corte de madeira naquela localidade não sejam empresas autorizadas. E disse mais: para escapar à acção dos fiscais, preferem fazer o transporte de madeira a partir do local de exploração na calada da noite. 
Diariamente, se assiste com maior frequência a saída de dezenas de camiões carregados com madeira em toro para outras paragens, além de outros carregamentos feitos por meio dos comboios do Caminho-de-Ferro de Benguela.
Moisés Tomás, estudante universitário, disse que o Executivo deve fazer cumprir o Decreto Presidencial que proíbe a importação de madeira em toro. O cumprimento desta medida pode garantir mais postos de trabalho para os cidadãos, com a criação de pequenas e médias indústrias para transformação de madeira.
O jovem, que defende a adopção de novas políticas para se acabar com o excesso na exploração de madeira, afirma que a comercialização de madeira no Moxico não obedece os parâmetros legais.

É preciso maior fiscalização
O Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF) no Moxico não tem cumprido com rigor o seu verdadeiro papel no que toca à fiscalização dos recursos florestais, o que tem originado muita anarquia no exercício desta actividade.
No mês passado, assistiu-se vários camiões carregados de madeira apreendidos por longas horas num dos controlos da Polícia, por falta de documentação que autorizava a transportação da mesma; mas, para o seu espanto, disse, o caso foi ultrapassado depois de um entendimento entre os camionistas e os agentes em serviço.
Os indivíduos que trabalham em nome das instituições do Estado devem agir com base na lei, para proteger os interesses públicos e evitar todos os actos que se julguem corruptos.
A exploração de madeira deve ser bem aproveitada pelo Executivo,  para servir como fonte de receitas e de emprego e evitar-se, por outro lado, qualquer acto que propicie  interesses particulares de um grupo de pessoas.  
Ezequiel Cardoso trabalha numa fazenda na localidade de Cangumbe. Ele afirma que  algumas pessoas particulares tem aliciado os sobas com bens para terem acesso à exploração de madeira, mesmo sem possuírem licença que os autorize a exercer tal actividade.
Nos últimos anos, há muita concorrência na compra de madeira, principalmente por cidadãos chineses, que se deslocam até às zonas de exploração para fazerem carregamentos. 
Um jovem, que conhece com maior propriedade todos os meandros que envolvem a exploração de madeira na localidade onde vive, afirmou que muitos cidadãos abandonaram alguns projectos agrícolas para se dedicarem apenas ao corte de madeira.   
O negócio de madeira é um processo de “toma lá, dá cá” e por ser muito rentável e com poucos custos na sua exploração tem motivado muitas pessoas a praticarem esta actividade como fonte de rendimento.   
 Mussivi tem sido a espécie mais cobiçada e procurada devido à sua durabilidade e, por isto, vários cidadãos defendem a adopção de mecanismos por parte do Estado, para proteger esta espécie pouco rara nas florestas do país.
Para além de madeira, a mussivi  dá um fruto   que serve como fonte de alimentação. O seu crescimento, até se tornar uma árvore com uma espessura de pelo menos 60 diâmetros de largura, leva no mínimo 50 anos. A sua semente germina com facilidade e pode ser uma alternativa para evitar a extinção da espécie.  Cidadãos defendem que a exploração de madeira deve ser exercida apenas por empresas licenciadas para se evitar a fuga ao fisco e preservar-se o meio ambiente, usando métodos de repovoamento de novas espécies. Questionado sobre o vandalismo registado na exploração de madeira, o chefe de departamento provincial do Instituto de Desenvolvimento Florestal no Moxico afirmou que a grande procura de madeira nos últimos anos tem aliciado pessoas não documentadas a fazerem corte de madeira para fins particulares.

É preciso combater o suborno

Isaac Victor mostrou-se preocupado e atribuiu, por outro lado, a culpa aos sobas que, seduzidos com bens materiais e financeiros, não resistem aos subornos e tornam-se incapazes de defender as zonas florestais sob sua jurisdição. 
O combate ao corte ilegal de madeira não deve ser responsabilidade exclusiva do IDF. O envolvimento das autoridades tradicionais, responsáveis das administrações municipais e comunais e das forças de Defesa e Segurança é determinante para se  combater a ilegalidade  ainda existente na exploração de madeira na província. 
Para travar este fenómeno na província, o chefe de departamento do IDF defende a criação de uma comissão inter-ministerial que envolva, entre outros, organismos como os serviços de Investigação Criminal e de Migração e Estrangeiros. Esta medida visa penalizar os infractores e o controlo de estrangeiros que se deslocam até às zonas de exploração para a compra de madeira.  
Isaac Victor afirmou que a madeira cortada de forma ilegal implica várias consequências e, para além de ser apreendida durante a sua transportação por não ter a certificação exigida, envolve multas pesadas correspondentes a 30 mil kwanzas   por cada metro cúbico de madeira.  Esta pena abrange tanto aqueles que exercem as actividades de forma ilegal como empresas licenciadas, que durante a exploração excederem os metros cúbicos estabelecidos nos documentos formais.
O chefe do Departamento Florestal no Moxico realçou, no entanto, haver algum indício de tráfico de influência no negócio de madeira, o que tem originado algum fracasso no trabalho dos fiscais na província.