Reportagem

“Eu consigo ver beleza na ferida”

Judith Luacute é uma profissional de enfermagem, com 43 anos de carreira, que desenvolve, entre outras tarefas, a de tratar feridas crónicas no Hospital Josina Machel, em Luanda, desde 2007. Em 2015 passou a utilizar a técnica a laser para tratamento de feridas crónicas, especialidade feita no Brasil, tendo até ao momento atendido mais de dois mil pacientes, entre homens, mulheres e crianças de várias idades.

No alto dos seus 62 anos, Judith Luacute continua a ajudar, juntamente com outros colegas da área de enfermagem, muitas pessoas que “já tinham perdido a esperança” de ver curada a ferida. Muitos carregavam o golpe há vários anos. Ela acentua: “consigo ver beleza na ferida”, quando outros profissionais do ramo “até fogem” de pacientes com esse tipo de patologia.
Natural da província do Huambo, é a quinta filha de uma família de sete irmãos. O interesse de Judith pela Enfermagem começou cedo. Ainda muito nova, nas brincadeiras com as amigas, já despontava nela uma forte inclinação pela profissão.
“No grupo, sempre gostava de assumir uma posição que me permitisse cuidar dos outros”, lembra. A certeza de que era mesmo essa a profissão que queria abraçar surge quando, certa vez, com apenas cinco anos, ao visitar a mãe no hospital, que se queixava de fortes dores no corpo, presencia o momento em que uma enfermeira aplica uma injecção à progenitora.
“A partir daí, falei para mim mesma que também queria ser a profissional que tira as dores dos outros”, frisou. Decidida em tornar real o sonho, Judith Luacute começa a frequentar um curso de auxiliar de enfermagem, para mais tarde passar por uma escola média também de enfermagem.
Após a conclusão da formação média, é seleccionada, nos anos 90, para fazer parte do primeiro grupo de angolanos que foram fazer licenciatura em Enfermagem no Brasil, no âmbito de um projecto do Ministério da Saúde.
Por circunstâncias da vida, não regressa com o grupo ao país, após a conclusão do curso. No Brasil, onde ficou cerca de 15 anos, aproveita para trabalhar em vários hospitais, já como enfermeira.
Em 2005, a saudade de Angola “pegou-me e trouxe-me de volta”. Mas já na qualidade de consultora técnica de uma empresa japonesa, que prestava um serviço de assessoria ao país. “Este projecto de consultoria tinha como objectivo treinar os profissionais de enfermagem, através de um equipamento que o Japão tinha oferecido a Angola”, salientou.
Como consultora, notou que os cuidados prestados aos doentes na altura, em algumas unidades hospitalares, chocavam com os padrões universais, nos quais os próprios familiares desempenhavam tarefas exclusivas de enfermeiros.
Essa situação, disse Judith Luacute, “deixou-me tão triste, que decidi não regressar mais ao Brasil” com a empresa japonesa, que já tinha terminado a missão no país. “Senti que o país precisava de mim”.
Com a permanência em Angola, decide criar o projecto “Luacute Atendimento Humanizado”, implementando-o no Josina Machel. A iniciativa foi lançada no momento em que o país acabava de colocar no mercado, através do Instituto Superior de Enfermagem, os primeiros licenciados.
Parte deles foi acolhida para o projecto. Judith Luacute disse que “os doentes não eram bem assistidos naquela altura”, porque havia um número inferior de enfermeiros, que não conseguiam dar resposta ao elevado número de pacientes que acorriam às unidades hospitalares.
Com este projecto, tem trabalhado arduamente para garantir uma assistência mais humanizada aos doentes.

Tratamento de ferida crónica

O interesse de Judith Luacute por feridas crónicas nasce quando implementava o seu projecto no Hospital Josina Machel. Por saber que ela tinha um curso de tratamento de feridas, o director do hospital pede para a enfermeira cuidar de um doente com uma ferida crónica com três anos, que se encontrava há três meses internado na área de Cardiologia.
“Usei a técnica de tratamento a laser e a ferida ficou sarada”, contou, para acrescentar que depois deste, outros casos começaram a chegar às suas mãos, que também foram curados.
Entre todos os casos que já tratou, destaca-se o de uma jovem de 19 anos, natural do Cuanza-Sul, que tinha uma lesão enorme das nádegas quase até ao joelho, resultante de um acidente.
Essa lesão provocou à doente um forte trauma, ao ponto de não querer mais viver. Com o apoio de outros colegas, Judith Luacute conseguiu ajudá-la e devolvê-la à vida.
“Não há nada mais gratificante do que ver uma pessoa com uma ferida de longo tempo cicatrizar e ir para casa”, disse comovida.
No entender da enfermeira, que não se imagina chegar a médica, o segredo para a cura da ferida muitas vezes não é o medicamento, mas “sim a atenção, compreensão, paciência, persistência e cumplicidade que o enfermeiro oferece ao doente”.
Judith Luacute revelou que um dos segredos para encarar, sem receio, as feridas crónicas é colocar-se no lugar do doente. “Nesta posição, consigo ver como gostaria de ser tratada, se a doente fosse eu”, afirmou.
A enfermeira disse que ela e os colegas não tratam apenas a ferida física dos doentes, mas também da alma. A especialista referiu que alguns doentes com feridas crónicas chegam ao hospital muitas vezes com ideias suicidas “e nós temos de trazê-los para a vida”.
Fruto desse trabalho, ela e outros colegas conseguiram influenciar a direcção do Hospital Josina Machel a criar uma sala de tratamento de feridas crónicas, que antes não existia. Na opinião de Judith Luacute, o enfermeiro não está abaixo do médico, pois, a seu ver, são dois profissionais cujos trabalhos se complementam.
Em reconhecimento ao trabalho que desenvolve, Judith Luacute, que é mestranda em Gestão e Saúde, foi recentemente nomeada consultora técnica da ministra da Saúde para a área de enfermagem.