Reportagem

Escolas secundárias no país com insuficiência de bibliotecas

A maioria das escolas do I ciclo do ensino secundário do país, que vai da 7.ª `à 9.ª classe, não dispõe de uma biblioteca, para os alunos poderem desenvolver o hábito de leitura, bem como para pesquisar, informou o ex-director nacional para o Ensino Geral, Pache-co Francisco, actual secretário de Estado para o Ensino Pré-Escolar e Geral.

Por ocasião do Dia Internacional da Biblioteca Escolar, assinalado  a 22 de Outubro, Pacheco Francisco disse que o país tem duas mil escolas do I ciclo do ensino secundário, mas apenas seiscentas dispõem do equipamento. “As demais não têm”, frisou.
 As escolas que dispõem de bibliotecas não estão completamente apetrechadas com livros, disse Pacheco Francisco, para quem existem espaços reservados no interior das escolas sem bibliotecas, mas “não estão equipados com livros”, referindo que “o problema é extensivo ao I e II ciclo do ensino primário, que vai da 1.ª a 6.ª classe”.
Pacheco Francisco, na altura director Nacional para o Ensino Geral, disse que o país tem seis mil escolas do ensino primário, mas apenas duas mil estão equipadas com bibliotecas, tendo sublinhado que à semelhança do que acontece com as escolas do I ciclo do ensino secundário, também não estão equipadas apesar da existência de espaços.       
O agora secretário de Estado para o Ensino Pré-Escolar e Geral reconheceu que a inexistência desse equipamento nas escolas condiciona a aprendizagem dos alunos, uma vez que seria lá onde eles aumentariam o nível académico e cultural. “Interessa-nos bastante que as bibliotecas sejam criadas e apetrechadas”, salientou.
Além da criação de bibliotecas, o responsável disse ser fundamental que se formem, também, bibliotecários, mas lembrou a falta de subvenção, pelo Estado, nos custos dos livros escolares, como razão para o não apetrechamento destas infra-estruturas.“Os livros cus-
tavam muito caro”, disse, para acrescentar que terá sido isso que desencorajava os empresários a apostar no ramo. Em seu entender, com a entrada em vigor da nova pauta aduaneira, o problema vai ser resolvido.

Biblioteca é o coração da escola
A professora de Matemática e de Física da escola 1.º de Maio, também conhecida como 1058, em Luanda, Delfina de Almeida, indicada pela direcção da escola para falar com a equipa de reportagem do Jornal de Angola, salientou que a biblioteca, por ser o coração da escola, devia estar presente em todos os estabelecimentos de ensino.
“É lendo que os meninos se desenvolvem”, referiu a docente para quem a escola em que trabalha “não dispõe de uma biblioteca, situação que atrapalha o trabalho dos profissionais daquele estabelecimento de ensino".
De acordo com Delfina de Almeida, os 3.015 alunos da escola 1.058, para resolverem trabalhos escolares são obrigados a recorrer sempre à Mediateca 28 de Agosto, que fica fora do estabelecimento.
Hebo Marcelo Luís Mendes, 13 anos, frequenta a 7.ª classe na escola 1.058 e disse que uma biblioteca na instituição ajudaria muito os estudantes. “É lendo regularmente que se consegue ter, não só, uma caligrafia legível, como se aprende a expressar bem”, admitiu.   
Moema de Sousa, 15 anos, frequenta a 9.ª classe na mes-ma instituição, contou que sente a falta de uma biblioteca. A ausência do equipamento obriga-lhe a frequentar o cibercafé. “Só que nem sempre tenho dinheiro para la ir”, lamentou.
Edmilson Franco, 15 anos, frequenta a 8.ª classe, admitiu não ser fácil estudar numa escola sem biblioteca. “A solução tem sido a Internet”, concluiu. O Jornal de Angola contactou, por telefone, a directora nacional do Ensino Técnico Profissional, Maria Julieta, para saber acerca da situação das instituições afectas ao seu pelouro, mas mostrou-se indisponível, tendo indicado o subdirector pedagógico do Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL), Milton Silva, que se limitou a falar da instituição em que trabalha.
O responsável afirmou que o IMIL dispõe de uma biblioteca que está, de algum modo, apetrechada, mas, ainda assim, disse não estar totalmente satisfeito. “O processo de ensino  é dinâmico, o que quer dizer que a actualização da biblioteca deve acompanhar o mesmo processo”, salientou.
Milton Silva referiu que o número de livros que a biblioteca tem não é suficiente, mas dá para responder as necessidades dos alunos. “Temos livros para todos os cursos que ministramos”, garantiu.
Por desconhecermos a realidade de outros institutos médio técnico-profissional, quanto a existência desse equipamento, pois a responsável do sector não aceitou falar, tivemos que visitar algumas instituições, para ouvir dos próprios directores.
No Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL), o director da instituição, Jorge Alberto Costa, sem rodeio, informou que a instituição  tem uma biblioteca, mas regista grande escassez de livros. Disse que a instalação devia estar equipada com um número de livros que rondasse os dez a 15 mil, mas, infelizmente, só tem, nesse momento, dois a três mil livros.
Essa situação, tem impedido a instituição de desenvolver um melhor trabalho com os alunos, mas, para dar a volta ao problema, ela tem apostado nos manuais, vulgo fascículos, elaborados pelos professores, que servem de suporte aos alunos.
“O IMEL sobrevive dos manuais que os professores elaboram para os alunos”, lamentou Jorge Costa que reconheceu que sem uma biblioteca apetrechada, a instituição corre o risco de colocar no mercado alunos sem grande qualidade.
 “É necessário incentivar os alunos ao hábito de leitura”, defendeu o  dirigente aludindo que os livros que a biblioteca tem são antigos.
O IMEL tem matriculados cinco mil alunos, funciona com dez cursos e regista escassez de bibliografia até para um dos cursos mais procurados, Comunicação Social.

   Corrigir com urgência para o bem do aluno

A pedagoga  Elsa Josina António alerta para a correcção urgente do problema, sob pena de os alunos passarem a ser formados com debilidades. Em seu entender, a biblioteca deve ser parte integrante do sistema educativo, porque facilita o processo de ensino.
A ausência de biblioteca em instituições de ensino, segundo a pedagoga, é muito preocupante e pode comprometer o processo de formação dos alunos. “As bibliotecas revestem-se de um papel importante não só na promoção da leitura, mas, também, no desenvolvimento intelectual dos alunos”, alertou.
Elsa Josina acrescentou que os alunos que se formam em escolas que não dispõem de uma biblioteca correm o risco de ficarem privados de certos conhecimentos importantes para o seu desenvolvimento intelectual. “As escolas deviam criar condições para que este elemento não faltasse na instituição”, salientou.
A académica acredita que um dos factores que leva a que muitos estudantes universitários escrevam e falem com erros graves de português pode ter a ver com a falta de biblioteca nas suas escolas.
 “Quando não se cultiva, a partir da base, o hábito de leitura, a possibilidade de o aluno dar erros básicos de português é maior, porque não se familiarizou com as palavras da sua língua de comunicação, por meio da leitura”, concluiu.