Reportagem
“É possível existirem corruptos, mas não ficarão impunes”
Na conversa, mostrou-se convicto de que o país será capaz de lutar contra a corrupção e destacou o que considerou a grande diferença para os tempos antes da sua tomada de posse:
"Ninguém pode garantir que daqui para a frente não haverá corrupção. A única coisa que posso dizer é que é possível existirem corruptos, mas que não ficarão impunes. A diferença é que anteriormente havia corruptos e impunidade e agora, se houver corruptos, serão punidos. Não há intocáveis. Esse tempo ficou para trás."
O Chefe de Estado angolano também frisou que recebeu do Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, o compromisso de que o país europeu iria "ajudar, na medida do possí-vel", a repatriar verbas que o Estado angolano considera terem sido retiradas ilegalmente do país.
Quanto à retirada de Isabel dos Santos e de dois dos seus irmãos de cargos em empresas controladas pelo Estado e se essas decisões não representavam uma perseguição à família do anterior presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, respondeu negativamente.
"Essas pessoas têm outros irmãos. Por que razão essas medidas foram só tomadas contra eles? Se se toca em ministros, em generais e não se toca em cidadãos, só porque são filhos de quem são? A afirmação da perseguição à família do ex-presidente não colhe", ressalvou.
Um dos temas que mais tempo ocupou na entrevista à RTP foi mesmo a corrupção. João Lourenço lembrou:
Foi "dos compromissos que o meu partido (MPLA) assumiu perante os angolanos. Concluiu-se que a corrupção no país tinha atingido níveis insustentáveis. Tinha de se fazer alguma coisa, sob pena de o investimento estrangeiro sair".
"Este é um combate de todos. Embora a iniciativa tenha sido do MPLA, toda a sociedade está envolvida. E eu, como bom soldado, estou a fazer o que foi decidido", disse ao jornalista da RTP Vítor Gonçalves.
O Presidente da República reconheceu não ter sido surpreendido com os índices de corrupção no país lembrando: "Não sou alguém vindo de outro país, de outro planeta, de outro partido político. Eu sou parte do sistema; cresci dentro do MPLA; acompanhei tudo o que foi feito de bom e de mau pelo meu partido."
As apostas de Angola
Reconhecendo que encontrou o país numa situação económica difícil - "mas não de bancarrota" - devido à pouca diversidade da economia angolana, que dependia quase em exclusivo da exportação de petróleo - João Lourenço salientou ter o Go-verno quatro áreas em que aposta: Agricultura, Indústria, Pescas e Turismo.
"Produzem riqueza, em-prego e produtos de exportação, que podem pesar na capacidade de gerar divisas", explicou.
E para mostrar que o país está "a mexer", lembrou que o Estado abriu concurso para "20 mil professores" e outros na área da Saúde. Decisões tomadas antes do pedido de ajuda ao Fundo Monetário Internacional, cuja intervenção no país será de índole técnica, pois as medidas que estão a ser implementadas foram apresentadas pelo Governo e não impostas pelo FMI.
Quanto à relação com os empresários portugueses, disse que "gostaria de ver maior presença de empresas portuguesas na área da Cultura, em várias indústrias, sobretudo na Transformadora e Turismo".
Na área da cooperação, considera que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa devia dar mais atenção a "questões de ordem económica".
"Temos privilegiado as questões de ordem histórica, cultural e linguística. Angola deve assumir a presidência dentro de um ano e esse será o objectivo", anunciou.
Disse ainda ter como referências Agostinho Neto - "o fundador da Nação, que levou o povo para a independência. Foi o Moisés de Angola" - e Nelson Mandela, pela "sua capacidade de perdão", lembrando que Israel ainda hoje "persegue os nazis, mais de 50 anos depois (da II Guerra Mundial)".
“As relações com Portugal estão no pico da montanha”
Na entrevista à RTP, João Lourenço fez elogios às relações pessoais com Marcelo Rebelo de Sousa, deixou a certeza de que a dívida às empresas portuguesas é para pagar e que hoje a economia angolana está já a sofrer transformações para deixar de ser tão dependente do petróleo, que representou 90% das exportações do país.
João Lourenço defendeu o trabalho do Governo e, embora reconheça pobreza no país, frisou que "hoje não se pode dizer que há fome em Angola". Mas há deficiências ao nível da "habitação, acessos à água potável, energia, educação".
O Presidente João Lourenço festejou, na terça-feira, o 65.º aniversário, o que coincidiu com a chegada de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola. Uma coincidência que não o foi assim tanto, como reconheceu, lembrando que esteve em Portugal em Novembro, altura em que o convite foi feito. "Na política, além das relações institucionais, as pessoais ajudam e as relações com o Presidente Marcelo são boas. Juntámos o útil ao agradável", sublinhou.
Questionado se as relações com Portugal estão num bom momento, depois do processo judicial que envolveu o ex-vice-presidente angolano, Manuel Vicente, por suspeitas de corrupção, enquanto presidente da petrolífera angolana Sonangol, disse:
"Para Angola, essa questão foi relevante, porque estávamos perante o incumprimento de um acordo entre dois Estados e havia necessidade de uma das partes recordar à outra que existia esse acordo para cumprir. Felizmente, o bom senso prevaleceu". E, por isso, as relações com Portugal "estão no pico da montanha. De qualquer forma, temos o dever de continuar a trabalhar, no sentido, não diria de manter esse nível, mas de subir ainda mais".
De tal forma estarão, que, depois de não ter feito uma referência a Portugal, no seu discurso de tomada de posse - "A interpretação é vossa quando, se disse que foi intencional, não fiz referência a muitos países presente" -, João Lourenço garantiu que dentro de três anos (deixando quase certa a ideia de que se vai recandidatar em 2022), "quando houver novas eleições, não vou adiantar o que direi sobre Portugal, mas será uma boa surpresa".
Pagar a dívida de Angola a empresas portuguesas - cujo valor não especificou - é um dos objectivos do Governo, adiantou João Lourenço, não se comprometendo no, entanto, com prazos.
"O montante da dívida varia consoante o momento. Desde a minha visita, até agora, temos vindo a reduzi-la e, nos próximos dias, faremos mais um pequeno esforço no sentido de a reduzir. Se fosse possível pagá-la de uma vez, fá-lo-íamos. Mas o importante é o devedor reconhecer a dívida e Angola a reconhece. Estamos a fazer um esforço para pagar", acrescentou.