Reportagem

Dramática história de sobrevivência no mar

O relato dos pescadores tem requintes de uma ocorrência tirada da ficção. Porque baleias que orientam para terra firme homens perdidos, com mar a cercá-los, só mesmo da ca-beça de mestres da escrita. Pelo menos é assim que pensa o senso comum.

Mas os pescadores angolanos da Ilha de Luanda, que foram parar à República do Gabão, depois de ficarem 28 dias perdidos em alto-mar, garantiram ao Jornal de Angola que se salvaram seguindo a rota de três baleias, a partir do Soyo, uma das zonas por onde passaram, até ao Gabão, país onde atingiram terra firme.
Depois de ficarem à deriva, por conta de uma avaria técnica registada no motor do barco, na região do Ambriz, província do Bengo, os homens do mar viveram inesperadas peripécias.
“Alcançámos a terra graças a ajuda que recebemos das três baleias", um dos pescadores  - o que foi confirmado pelos colegas -, assegurando que, se os mamíferos não aparecessem, continuariam, seguramente, perdidos em alto mar.
Cristiano da Silva, de 20 anos, dois dos quais dedicados à pesca, explicou que os mamíferos andaram ora ao lado, ora à frente do barco, indicando a direcção em que deviam seguir, para alcançar a terra.
“Quando tentássemos ir para uma direcção que não nos levaria à terra, elas nos direccionavam para o caminho cer-to”, contou o jovem. Mais novo do grupo, o pescador acrescentou que a baleia é um animal inofensivo e, na maioria das vezes, só aparece quando alguém está em perigo.
“A baleia é um animal que ajuda”, assegurou, por seu lado, o mestre do grupo. Aos 57 anos, 27 deles entregues à pesca, o navegador mais experiente do grupo disse que as informações sobre o animal,  dando conta de que é muito feroz, não passam de um mito.
“As pessoas confundem a baleia com o tubarão, que é muito mais agressivo”, disse.
Já em solo pátrio, depois de um trabalho aturado de diplomacia, realizado pela Embaixada de Angola no Gabão, junto do Serviço de Migração daquele país, os 11 pescadores não esconderam a satisfação por conseguirem sobreviver.  
Tudo começou no dia 12 de Junho, quando o grupo partiu da Ilha de Luanda, em direcção à zona do Ambriz, onde chegaram dia 13, para pescar atum e quimbumbo.  Nesse dia, fizeram a primeira captura, que, como contam, foi muito boa. Precisando de mais uma pequena quantidade de pescado para completar a capacidade da embarcação, programaram as 24 horas seguintes para a última captura, antes do regresso. Porém, cerca das 12 horas do dia 13, perceberam que o motor do barco estava desligado, por iniciativa do condutor da embarcação,  sem consultar o mestre. A situação, na opinião de todos eles, constitui um erro grave.
“O motorista não pode tomar nenhuma decisão sem consultar o mestre do barco ou  mesmo os colegas”, explicou um deles. Após várias tentativas, não conseguiram voltar a ligar o motor. Para piorar, as baterias acabaram por se descarregar. Os pescadores ficaram sem saber o que fazer. A situação agravou-se, porque não possuíam rádio de comunicação. O barco ficou à deriva.
“Não havia embarcação alguma no local, a que  pudéssemos  pedir ajuda”, contou o mestre. O barco chegou até ao Soyo, província do Zaire, onde tiveram a sorte de deparar com uma lancha. Mas esta não os podia rebocar, porque o motor era pequeno. Três pescadores mudaram-se para a lancha, sendo igualmente transportada parte substan-cial do pescado, na tentativa de tornar o barco mais leve e possibilitar o reboque.
Gorada esta hipótese, a alternativa encontrada foi solicitar aos tripulantes da lancha que fossem buscar socorro. Estes, sem hesitar, foram atrás de um barco rebocador. Com eles, foram também os três pescadores e a quantidade de peixe retirada do barco. Quando regressaram, horas depois, com um barco rebocador, a embarcação já não se encontrava no local. Tinha sido levada pela correnteza, para destino desconhecido.
Francisco António, um dos pescadores que passou para a lancha, contou que ainda procuraram pelos companheiros, ao largo da região onde os tinham deixado.
“A partir desse momento, comecei a ficar preocupado. Temia por alguma coisa pior”, frisou. Por seu turno, o mestre Armando Lombe, que continuou na embarcação, disse que, ao longo do percurso, já de noite, avistaram barcos rebocadores. Conta que fizeram sinais para serem vistos. Em vão.  “Eles viam-nos, mas nenhum dos rebocadores  aceitou parar. Usamos até um foguete para sinalizar, mas foi em vão”.
Entretanto, a comida que traziam no barco durou apenas até ao dia 19 de Junho. Nessa altura, já se tinham desfeito do pescado capturado, para deixar o barco mais leve. Para não morrerem de fome, du-rante a jornada, cujo fim desconheciam, tiveram de se alimentar de peixe fervido que pescavam na hora.
“Preparávamos já uma quantidade para dois dias”, ressaltou. Por não haver muita água para beber, os pescadores tiveram de usar água do mar e, para cozinhar, usavam al-guns paus que estavam no porão do barco. O mestre da embarcação explicou que conseguiam facilmente peixe para se alimentar, porque o barco tinha se tornado num viveiro deles. “Eles ficavam sempre debaixo do barco para comerem o limo”, contou.
Depois de 28 dias perdidos no mar, a viverem esta e outras situações difíceis, conseguiram, finalmente, avistar terra, supostamente com a ajuda das baleias, que vinham com eles desde o Soyo.
“Elas só desapareceram nesse momento”, avançou Cristiano da Silva.
Sem saber, concretamente, onde se encontravam, ancoraram o barco e dois dos oito pescadores, Cristiano da Silva e Sabonete Lopes, fizeram-se ao mar, numa jangada construída por eles, para fazer o re-
conhecimento da terra que acabavam de ver e pedir ajuda.
A distância entre o local em que o barco ficou ancorado e a terra avistada era de, aproximadamente, duas milhas (equivalente a 3.704 quilómetros de distância). Os dois pescadores partiram do barco as 6h00 e só chegaram a terra às 16h00. Procuraram por aju-da, mas não havia ninguém naquela área.
“Era uma mata. Não passava ninguém”, contou Cristiano da Silva. Por já não haver condições físicas e materiais para regressar ao barco e informar os colegas, tiveram de passar uma noite ao relento naquela floresta.
No dia seguinte, os demais colegas que haviam ficado no barco decidiram mergulhar também no mar, já sem jangada, para irem atrás dos dois colegas. Eles suspeitavam que tivesse acontecido alguma tragédia com ambos.
 “Além disso, também já não tínhamos comida no barco”, acentuou o mestre.
Já todos juntos, percorreram mais de 80 quilómetros, em busca de ajuda. Pelo caminho, onde só viam pegadas de animais, depararam-se com um cidadão, supostamente de nacionalidade francesa, que lhes deu a indicação para chegarem até à margem de um rio, onde se podia fazer travessia para chegarem a uma zona povoada. Foi através dessa pessoa que eles ficaram a saber que estavam no Gabão.
Após chegarem a esse ponto e já depois de feita a travessia, foram levados para um posto fronteiriço, onde receberam abrigo durante alguns dias. No dia dez de Julho, data de aniversário de Cristiano da Silva, o mais novo do grupo, foram levados para uma delegacia, onde prestaram declarações. Depois, seguiram para Port-Gentil, capital da província de Ogoué Marítimo.
Nessa cidade, o aniversariante conseguiu fazer amizade com um jovem, que o deixava ficar várias horas com o seu telefone. Por via desse apare-lho, conseguiu enviar uma mensagem para um tio, Quito, irmão da mãe, através do Facebook, dando-lhe a conhecer que estavam no Gabão.
Por sua vez, o tio, em Luan-da, informou também a filha do mestre da embarcação. Sem perder mais tempo, esta comunicou o facto à Embaixada de Angola no Gabão, que, depois de os localizar, desencadeou diligências para que regressassem ao país dias depois, de avião.
Fruto da situação que passaram, os pescadores deixam um conselho aos colegas: “não ir ao mar sem antes fazer uma boa manutenção no barco, sem o rádio de comunicação e sem comida suficiente”.
Apesar do incidente, os pescadores disseram que não estão traumatizados e que, tão-logo o barco, que ainda se encontra no Gabão, chegue ao país, vão voltar ao mar. “Dependemos da pesca para sustentar as nossas famílias”, justificaram.

  Pescadores violaram a Lei

Domingos Azevedo, o director-geral do Serviço de Fiscalização de Pesca e Aquicultura do Ministério das Pescas e do Mar, disse que os pescadores se excederam ao irem parar à província do Bengo. Explicou que a Lei das Pescas, em vigor no país, impõe limites no exercício da actividade pesqueira.
O responsável esclareceu que a referida lei define três segmentos de pesca: artesanal, semi-industrial e industrial. A primeira só deve ser praticada dentro de um limite que vai até quatro milhas, a contar da base da costa marítima ao alto-mar. "Não pode transpor esse limite", frisou, para acrescentar que, ao chegarem até à província do Bengo, violaram gravemente as normas. 
Domingos Azevedo esclareceu que os outros segmentos podem actuar além das quatro milhas “a pesca semi-industrial pode chegar até seis milhas e a industrial pode ir além das 12 “, explicou. O responsável garantiu que os pescadores conhecem essas regras, mas, por causa da ambição de quererem obter mais lucro, violam-nas propositadamente.
Domingos Azevedo  sublinhou que a embarcação que os pescadores utilizaram mede 13 metros de comprimento e, em função disso, cai na alçada das artesanais.  Deu ainda a conhecer que a Lei das Pescas determina que todas as embarcações que se fazem ao mar devem possuir, entre outros meios de segurança, um sistema de comunicação, como rádio ou GPS, para localização, em caso de haver algum incidente. "Eles só se faziam acompanhar de uma bússola", realçou.
Domingos Azevedo lamentou o facto de os pescadores não terem sido socorridos pelos barcos com os quais se cruzaram. Disse que a Lei Marítima Internacional determina que toda a embarcação em perigo no mar deve ser apoiada. “O que aconteceu com eles é um acto condenável”, concluiu.