Reportagem

De Luanda ao Cuito por uma estrada tomada pela pandemia da Covid-19

Depois de Maria Teresa, fronteira com o Cuanza-Norte, mas ainda na província de Luanda, o número de viaturas na estrada caiu drasticamente.

Raramente cruzamos com Hiaces azuis-e-brancos. Tudo parece muito diferente durante a pandemia que mudou a rotina das pessoas, empresas e governos. Voltaram as “guias de marcha”, mas agora com informação médico-sanitária. Na quarta-feira à noite, dia 9, quando avistámos o Cuito, província do Bié, tinham passado dez horas de viagem.

Ao contrário do que seria de esperar, a transição entre províncias decorreu sem sobressaltos, nem demoras. Mas sem a referida guia sanitária, que comprova a ausência de Covid-19 no organismo dos cidadãos, nada feito. Não se avança. É proibido sair da província de Luanda, sem um teste negativo.
Os agentes da Polícia registaram os nomes, os dados pessoais e as matrículas das viaturas em que os viajantes se deslocam. Também medem a temperatura corporal. São os novos protocolos, mesmo para quem viaja de automóvel.

Nas fronteiras provinciais entre Luanda e Cuanza-Norte, Cuanza-Sul-Huambo e Huambo-Bié não foram precisos mais do que 15 minutos para cumprir os devidos procedimentos. Uma vez ultrapassada a localidade de Maria Teresa, o destino mais próximo foi a cidade do Dondo, província do Cuanza-Norte, histórico terreiro abraçado pelo Rio Kwanza.
O trajecto foi realizado numa estrada quase perfeita, sem buracos e com a devida sinalização. Agora quase sem carros. Um autêntico paradoxo. Já na ponte que dá acesso à zona urbana, avistámos banana, jinguba, tamarindo, enfim, uma série de riquezas locais que valem ouro, mas que não brilham.

Também aqui a pandemia tem sido implacável: sem viajantes, praticamente, quase sem viaturas naquele corre-corre entre Luanda e Dondo, sem pessoas, os mercados grandes ou pequenos à beira da estrada sobrevivem em profunda recessão. Não há como enganar. Porque até os olhos de quem pretende vender denunciam amarguras e instabilidades.
“O que nos vai matar é a fome”, diz uma senhora magra, de pano amarrado na cabeça e outro nas ancas, enquanto vira as costas à estrada. Não há aqui retóricas suficientes para contrapor sentimentos pessoais.

Subir, subir, subir

Ultrapassado o Dondo e o Alto Dondo, parece que estamos na base de um enorme muro. Que precisa de ser transposto. É o sopé do Planalto Central e as subidas bem pronunciadas sucedem-se. Uma depois da outra, aquilo é só trepar.
Apesar de um ou outro percurso com buracos no asfalto, a larga maioria do troço Dondo-Libolo-Quibala mantém as características originais. Continuamos a assinalar a quase total ausência dos Hiaces, das grandes viagens familiares, dos ajuntamenos aqui e acolá, até porque a facilidade de ir-e-vir está coarctada. Não se sai de Luanda, não se entra na província-capital, ressentem-se os viajantes, os viajados e quem os transporta.

O pior trajecto de todos... Até ao Cuito

Nesta razia, sobrevivem os transportes de mercadorias e alimentos, sobretudo, agora que rumamos ao Waco Cungo e àquelas montanhas que parecem desenhadas a lápis de carvão. Mantém-se a necessidade de vender coisas bonitas ao longo estrada - tomate, aqui aparece muito repolho, ananás, cebola branca e cebola roxa, batata-rena e batata-doce, enfim, um mundo de possibilidades.

Começou também o pior trajecto de todos até ao Cuito, com pequenos buracos a sucederem-se e a falta de manutenção na via a acumular perigos. A noite anunciou-se com o pôr-do-sol e aquela luz ténue que vai divulgando a chegada das chuvas e do calor mais forte e de mais uma campanha agrícola. De mais um ciclo da terra, dos mares, das chuvas e das pessoas. Assim fomos até ao Alto Hama, já no topo do Planalto Central, e a mais uma fronteira interprovincial.

Caiu a noite cerrada na via até ao Huambo, onde fintámos buracos e outras armadilhas mais ou menos esperadas. Continuamos a sentir uma certa falta dos Hiaces, não tanto por hedonismo ou pela qualidade do serviço (sem desmerecer), mas pelo cenário inusitado. Ao longe, já se via a cidade grande, antigo depositório de loucuras e falhanços coloniais e pós-coloniais.

Foi com reconforto que sentimos o Huambo em certa normalidade, com algum movimento de pessoas, as motorizadas em pleno funcionamento (com máscaras para condutor e passageiro) e a zona comercial cheia de luz.
Um ponto de ordem em relação às máscaras agora obrigatórias: são um produto da cidade. Por estes dias, as máscaras transformaram-se num símbolo do afastamento entre a cidade e o campo. Porque nas aldeias e pequenas localidades ao longo da estrada quase ninguém as usava.

A pandemia levou …

Eram 21 e 30 quando entrámos no Cuito, depois de vencer mais um controlo policial no Chinguar, já na fronteira Huambo-Bié. O frio já tinha iniciado a descida a partir dos céus, enquanto os polícias tentavam proteger-se ao lado de uma fogueira de brasas de carvão. Tinham acesso a uma televisão com serviço internacional e cartão pré-pago. A estrada continuou bem escura, quase sem sinalização e algumas crateras que não permitiram descontrair.
Foram 10 horas de viagem e uma certeza: tudo, ou quase tudo, a pandemia levou. É verdade. É penoso. Mas as pessoas, as terras, as montanhas cinzentas-pretas, os tomates, as bananas e os rios mantêm-se nos seus locais tradicionais. São perenes. Também os sonhos deviam ser perenes.