Reportagem

Cabala está bem perto de Luanda mas vive um “mar de problemas”

Margarida João Manuel é uma moradora da povoação Baixa Grande, bairro da Cabala, distrito urbano de Catete, que sente diariamente as consequências da falta de água potável na área em que vive, uma realidade extensiva a outras povoações, como Massesso e Ana Paixão, do município de Icolo e Bengo, província de Luanda.

Manuela Mateus

A moradora da Baixa Grande enumerou um rol de problemas sociais que os habitantes vivem, mas destacou a falta de água potável como o maior, devido à ocorrência de doenças resultantes do consumo de água imprópria, retirada do rio.
O transtorno de dona Margarida João Manuel representa o quotidiano dos habitantes de várias localidades do município de Icolo e Bengo, alguns dos quais, por falta de água potável, percorrem longas distâncias até chegarem ao rio em busca de água para beber, cozinhar e fazer a higiene pessoal.
Algumas pessoas, segundo Margarida João Manuel, chegam a percorrer 20 quilómetros em busca de água, ou por os chafarizes instalados nas suas comunidades não receberem água há muito tempo ou por falta deste equipamento social.
“É no rio onde tomamos banho, lavamos a roupa e, ao mesmo tempo, acarretamos água para cozinhar”, lamentou a mulher da povoação Baixa Grande, pertencente ao bairro Cabala, em cuja localidade moradores continuam a viver à luz de velas ou de candeeiros. A vida moderna, marcada pela existência de uma rede pública de distribuição de energia eléctrica, ainda não chegou à povoação de Margarida João Manuel, razão pela qual suporta diariamente o barulho provocado pelo gerador de onde sai energia que alimenta a sua casa.
“Ter gerador é um luxo que não está ao alcance de muitos moradores”, admitiu a moradora da Baixa Grande, onde se aguarda com ansiedade a chegada do projecto que está em execução na Cabala e que já permitiu a 500 famílias terem, desde Agosto do ano passado, energia eléctrica, na sequência da instalação de quatro postos de transformação de energia.
“Cabala tem falta de tudo”. A frase é de dona Margarida João Manuel, que reforçou o seu pensamento quando mencionou dois factos que entristecem e preocupam os moradores: muitas vezes o centro médico fica sem medicamentos e o posto da Polícia, instalado na Baixa Grande, funciona com apenas três agentes. O centro médico da Cabala abre às 08h00 e fecha, na maioria das vezes, às 13h00, segundo Margarida João Manuel. “Se alguém ficar doente depois das 14h00, tem de ir ao posto médico de Kaxicane, onde o serviço é mais bem prestado”, disse Margarida João Manuel, que acrescentou não estar o centro de saúde a distribuir, há já algum tempo, produto para desinfectar a água. Um bidão de água é comprado a 100 kwanzas, valor que, às vezes, sobe para 150 kwanzas, quando há muita procura.
Maria João, outra mulher com quem o Jornal de Angola conversou, vive no chamado "projecto de casas novas" e lá também não existe distribuição de água potável. Maria João afirma não entender a razão para a falta de água potável, por viver num bairro social projectado pelo Governo e onde vivem famílias que foram retiradas das margens do rio Kwanza, áreas de risco devido à iminência sempre presente de inundações.
“Até hoje nada foi feito, embora nos digam, nas reuniões com os coordenadores dos bairros, que o problema está a ser resolvido pelas administrações”, lamentou Maria João, que, quanto ao sector da Educação, disse haver uma escola pública do ensino primário e uma comparticipada, gerida por madres.
Nas localidades com falta de água deve haver casos de desistência escolar porque crianças, algumas dos oito aos dez anos, deixam de ir à escola porque têm de ajudar os pais a acarretar água. “Há dias em que algumas crianças não vão à escola devido ao cansaço, por terem percorrido grandes distâncias com bidões cheios de água”, lamentou Maria João.
O sofrimento devido à procura de água já tem três anos e é resultante do desaparecimento de uma lagoa que secou, explicou, por sua vez, Elsa Domingos Pedro, para quem “as dificuldades aumentaram depois de a lagoa secar”. “Precisamos também de mais policiamento nos bairros”, pediu Elsa Domingos Pedro, que confirmou ser real a existência de apenas três agentes no posto policial da Cabala.

 

Défice de salas coloca crianças fora do sistema de ensino

 

A escola pública número 6051, a única em funcionamento na Cabala, lecciona a primeira e segunda classes e tem apenas dois professores. A escola só tem uma sala, onde, no período da manhã, estudam 75 alunos da primeira classe e à tarde 60 da segunda classe. O nú-mero de escolas públicas vai subir para três, por estarem em construção duas, cujas obras estão paralisadas há já algum tempo, por razões que o Jornal de Angola não conseguiu apurar.
O director da única escola pública, José Pompeu, disse que na Cabala ainda há muitas crianças fora do sistema de ensino. As causas do fenómeno social, na visão de José Pompeu, são várias, desde o défice de salas de aula ao fraco rendimento económico das famílias.
A aprendizagem de algumas crianças fica comprometida porque deixam, por exemplo, na época da recolha do tomate, de ir à escola porque têm de ajudar os pais, lamentou o director da escola, que disse haver casos de crianças que nunca mais voltam às aulas.
A escola não tem água potável nem casa de banho em condições. Por falta de um auxiliar de limpeza, são os alunos, professores e encarregados de educação que fazem a limpeza aos finais de semana. Uma latrina improvisada foi construída pela comunidade na escola, uma realidade que pôs fim à defecação ao ar livre.
José Pompeu, técnico da Educação há mais de 30 anos, disse já ter formado centenas de alunos. “As cri-anças que hoje vêm à escola têm vontade de aprender, mas as condições não são muito favoráveis”, lamentou o director da única es-cola pública da Cabala, que disse estar satisfeito com o nível de aproveitamento escolar.
A direcção da Educação no município de Icolo e Bengo já disponibilizou os livros para serem distribuídos, mas as crianças ainda estão sem manuais escolares, por não terem sido ainda levantados em Catete, sede do município, por falta de transporte. “Estou à espera de uma boleia para ir a busca dos materiais escolares para distribuir aos meus alunos”, informou o director da escola, que confirmou haver sempre meren-da escolar na Cabala.
O director José Pompeu pediu às entidades de direito para darem uma maior atenção à Cabala, porque as famílias são de baixo rendimento, razão pela qual “poucas têm dinheiro para pôr os filhos na escola comparticipada”.
Por esta razão, acrescentou, a Cabala tem de ter mais escolas públicas para todos os níveis de ensino tutelados pelo Ministério da Educação.

 

Posto médico sem energia há três meses

O posto médico da Cabala funciona com três técnicos de enfermagem e está sem energia há três meses por não ter dinheiro para o carregamento do cartão do sistema pré-pago.

A esta dificuldade junta-se a falta de um quarto de banho e de água potável, factores que contribuem para o mau funcionamento do posto médico.
A chefe do posto, Maria da Piedade, disse ao Jornal de Angola que a unidade sanitária não tem auxiliar de limpeza, razão pela qual os técnicos de saúde, incluindo a responsável, é que fazem a limpeza. “Muitas vezes mando acarretar água na margem do rio”, explicou Maria da Piedade. Às vezes, quando não há água no posto médico, aos doentes com febres altas é pedido que se desloquem ao rio, para molharem o corpo, “uma recomendação que não gostaríamos de dar porque a água do rio, por ser suja, pode trazer outras complicações”.
Maria da Piedade disse que o posto médico não fecha às 13h00, como foi dito por Margarida João Manuel, mas sim às 14h30, ou seja, depois de seis horas e meia de jornada laboral. O encerramento às 14h30 deve-se à falta de meios de transportes públicos na Cabala, um facto que cria transtornos à vida dos técnicos de saúde. “Fechamos mais cedo quando temos poucos pacientes ou reuniões de trabalho em Catete”, explicou Maria da Piedade, que disse serem a malária e as doenças diarreicas agudas as patologias mais frequentes na Cabala.
Diariamente, são atendidos em média dez doentes. O número de casos de paludismo reduziu, mas pode vir a aumentar com o aumento do nível do rio, admitiu a chefe do posto médico da Cabala.
A responsável disse não ser verdade que a população não recebe o “Bactevic”, produto para desinfecção da água. “Os agentes comunitários tudo fazem para distribuir o produto, mas ainda há pessoas que preferem não fazer uso dele”, garantiu Maria da Piedade, que disse não ser a primeira vez que a população diz não haver distribuição de desinfectantes de água.
Maria da Piedade lembrou que, há meses, foram distribuídos mosquiteiros, alguns dos quais transformados por algumas pessoas em redes de pesca, um “facto lamentável”.
O posto médico recebeu, há dias, medicamentos para combater a malária, testes rápidos para diagnóstico da doença, testes rápidos para dengue, desparasitantes, salbutamol (utilizado para o alívio do bronco-espasmo em condições como asma e doença pulmonar obstrutiva crónica) e aspirina. Na falta de exames para a realização de testes rápidos para a malária, os doentes procuram o centro médico de Catete e de Kaxicane.