Opinião / Editorial

Entre a realidade e a fantasia

“As reclamações são normais, pois, na verdade, nem tudo foi feito”. A frase, que citamos de memória, é do Presidente João Lourenço, quando dava recentemente, durante a sua estadia em Nova Iorque para participar na Assembleia-Geral da ONU, um pequeno depoimento à imprensa angolana sobre os dois anos da sua governação. O Presidente acrescentou, a propósito, que aquilo que não foi feito em 44 anos de independência, não poderia ter sido feito em escassos dois anos.

O posicionamento do Presidente da República e chefe do Governo pode e deve ser lido de duas maneiras.
A primeira nota é que mantém o compromisso, expresso no seu discurso de empossamento, há dois anos, de respeitar as opiniões contrárias, as críticas e as reclamações. Ou seja, ele não demonstra nenhum estresse, por causa das vozes divergentes que se fazem ouvir. É uma atitude a seguir por todos os políticos, no poder ou na oposição.
A segunda nota é que João Lourenço não teve receio de contrariar o discurso demagógico e populista, que exige a resolução dos ingentes problemas nacionais da noite para o dia, quase com um mero estalar de dedos. Demonstrou, assim, a sua verdadeira estatura de estadista. De facto, um líder é aquele que sabe ouvir as massas, mas não vai a reboque delas e muito menos daqueles que falam em nome delas, sem terem mandato para fazê-lo.
Nos tempos que correm, em todo o mundo, de crescente e generalizada demagogia e populismo, quantas vezes misturados com os sentimentos mais baixos dos seres humanos – o ressentimento, a vingança, o ódio e tantos outros -, essa coragem de dizer aos cidadãos que os problemas não se podem resolver em dois anos deve ser devidamente exaltada.
É, sem dúvida, um exemplo a seguir por alguns políticos no poder que entram em pânico por qualquer notícia negativa, qualquer ataque nas redes sociais ou qualquer reclamação dos cidadãos, perdendo, assim, o foco, para resolverem paulatinamente os problemas que lhes compete resolver.
O país vive momentos difíceis, sim. Mas é preciso coragem para contrariar a narrativa interligada que alguns pretendem impor a toda a sociedade. Essa narrativa é que, supostamente, não houve quaisquer mudanças nestes dois anos de governação do Presidente João Lourenço e que, mais do que isso, a actual situação é alegadamente pior do que a anterior. Isso – digamo-lo com toda a frontalidade - não é verdade.
Qualquer angolano honesto e de boa-fé reconhece as melhorias que tem havido em diversas áreas, do asseguramento prático dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos às melhorias macro-económicas, aos sinais de diversificação da economia e das exportações, ao aumento do fornecimento de luz e a água, às melhorias na saúde e tantos outros.
Os problemas que persistem ainda são imensos e altamente complexos. Mas afirmar que foram criados pela actual governação só pode ter um nome: desonestidade.
Só para dar dois exemplos, a actual recessão económica - com todas as suas consequências, como o desemprego - não surgiu no final de 2017, mas já vem desde 2014, e, quanto a certas atitudes e práticas sociais, de tão enraizadas, não poderiam ser transformadas em dois anos. Mudar a cabeça das pessoas – todas elas - e as suas práticas leva tempo.
Todas as previsões apontam para o fim da recessão e o início da retoma económica, embora tímida, para o próximo ano. Será preciso o trabalho de todos, a começar pelo Governo, mas também por todos os cidadãos, para acelerar esse processo com competência, esforço, sacrifício, diálogo, inovação e, sobretudo, sentido patriótico e de urgência. Como dizia J.F. Kennedy, antes de perguntarmos o que é que o país fez por nós, perguntemo-nos o que é que nós fizemos pelo país.
“Trabalho” é, pois, a palavra-chave. Ficar em casa não ajudará a resolver os problemas de ninguém, nem dos indivíduos nem do país. Isso é fantasia. Os problemas existem, sim. As críticas e reclamações são legítimas e necessárias, é verdade. Mas tentar criar desestabilização social a pretexto de manifestações pueris, convocadas a partir do “exílio dourado” e corrompendo “marimbondinhos” locais, é uma brincadeira de mau gosto condenada ao fracasso.