Opinião / Editorial

Denominações religiosas

As igrejas estão para as sociedades modernas, independentemente do seu papel nem sempre consensual para todos, como fiéis depositárias do exercício da fé, da aceitação, do perdão e da reconciliação. Independentemente da laicidade do Estado na maior parte dos Estados contemporâneos, na verdade, a adoração a Deus  e respeito aos homens são plenamente conciliáveis.

Em Angola, o Estado há muito deu prova da sua vocação para lidar e conviver com as confissões religiosas cujas agendas, procedimentos e actuações se conformem com a Constituição, as leis, valores e tradições. E não há dúvidas de que numerosas igrejas que conseguem reunir tais condições coexistem com as estruturas do Estado e realizam as suas actividades dentro da legalidade. O Estado angolano, como de resto sucede com qualquer outro Estado, em qualquer parte do mundo, quer denominações religiosas que surjam e actuem dentro da legalidade. Ainda assim, até muito recentemente muitas denominações religiosas, rompendo com a lei, ergueram locais de culto, promoveram as suas actividades ilegalmente e sem a mínima preocupação para se legalizarem. Não obstante essa realidade e agindo de boa fé, o Estado deu um prazo para que as igrejas não reconhecidas regularizassem a sua situação e informou que findo esse prazo as instituições tomariam medidas previstas por lei. Este prazo terminou no domingo, de acordo com a Direcção Nacional dos Assuntos Religiosos do Ministério da Cultura e para conter a "febre eclesiástica" que grassa pelo país com o surgimento de numerosas denominações religiosas, o Estado vai fazer recurso a medidas e leis de que dispõe. O encerramento de igrejas ilegais vai ser a medida apropriada porque, além de passar as várias oportunidades que as igrejas tiveram para se legalizarem, o Estado não pode conviver com ilegalidades. As igrejas ilegais podem revelar-se verdadeiros "cavalos de Tróia" para o Estado angolano na medida em que muitas das suas actividades são perniciosas. Não é segredo para ninguém que numerosas igrejas, particularmente as ilegais, se transformam em correias de transmissão de crimes transnacionais, tráfico de seres, lavagem de dinheiro e destruição de famílias. Em muitos países, algumas organizações terroristas, grupos armados e de crime organizado, começaram com inspiração religiosa ou foram potenciadas por denominações eclesiásticas. As autoridades angolanas, com as medidas que pretendem aplicar, com o encerramento de igrejas ilegais, apenas pretende evitar o pior porque, como disse Castro Maria, director nacional dos Assuntos Religiosos , o número de igrejas ilegais no país pode chegar a quatro mil porque existem muitas fora do controlo do Estado. O que é controlável agora deve ser feito e já, em vez de se deixar que o fenómeno cresça e se fortaleça a ponto de assumir contornos difíceis de fiscalizar.