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Um homem discreto

Um homem discreto, dedicado e trabalhador. Arruma os quartos, serve a mesa, acompanha os hóspedes. Se a electro-bomba falha é ele quem a repara. No fundo, o discreto senhor, com aproximadamente sessenta anos, é uma espécie de faz-tudo no hotel que já conheceu dias melhores.

Localizado algures numa capital africana, o decadente espaço acolhe com assinalável simpatia hóspedes de várias proveniências que se deslocaram ao país para acompanhar um importante acontecimento local. À noite vemo-lo sempre sentado diante do televisor. Com o comando praticamente cativo, acompanha noticiários de várias cadeias nacionais e internacionais. Uma noite a seguir a outra por dias a fio. Quando o último hóspede sai do recinto, ele apaga a luz e também se retira.

Figura intrigante a do discreto senhor. Impossível não reparar nele. O tempo encarregou-se de aumentar as dúvidas no dia em que decidiu quebrar a rotina ao conversar animadamente com um cidadão ruandês. O serão durou algumas horas. Para variar, falavam de política africana. Os dirigentes, a actualidade do continente estavam no centro do debate. “Vocês, as mulheres são o futuro de África”, disse em tom de desabafo. Inesperadamente convocada, prestei oficialmente atenção ao discurso do senhor. O termo discurso é aqui chamado de propósito.

O discreto senhor que parece saber de tudo, descodificou o Rwanda. Falou com propriedade sobre a génese das mutações que colocam o país de Paul Kagame na boca do mundo, apesar deste não estar conotado com as melhores práticas democráticas do planeta. As diferentes zonas geográficas do continente passaram pelo seu radar. Cita de memória Frantz Fannon, Cheik Anta Diop e Achile Mbembe, o intelectual camaronês que relança a velha discussão sobre África com base em novos paradigmas.

O colóquio a três terminou tarde. Em boa verdade, ouvi mais do que falei. Não tanto pelo nível de francês do homem discreto, mas para não desperdiçar a oportunidade de aprender. Facilmente se deduz que o discreto senhor é alguém com elevado nível académico e ampla cultura geral. Com a mesma facilidade com que fala de Angola, onde nunca esteve, analisa a situação política na República Democrática do Congo. Faz projeções políticas que viriam a ser confirmadas pouquíssimo tempo depois.

No dia seguinte, depois das intercaladas aulas magnas, o homem estava novamente remetido ao anonimato implícito. Serviu o pequeno almoço, limpou os quartos e carregou sacos de lixo para o contentor. Cuidou igualmente do jardim. Quem é, o que lhe aconteceu na vida para estar ali a desempenhar um trabalho digno mas que está muito aquém das suas capacidades é a pergunta que não cala. Por qualquer razão não esclarecida fez questão de se proteger. Falou com conhecimento de causa sobre quase tudo, menos sobre ele, dando a entender que a sua vida é um dossier encerrado. 

Em conversa com um amigo que também tinha reparado na erudição do homem discreto, apurei informações que confirmaram as “suspeitas”. O cidadão tem três licenciaturas, uma das quais em filosofia. Obteve o grau de mestre em determinada área do saber. Fez altos estudos no seu país de origem, em França e na Bélgica. Não me perguntem o nome dele. Acreditem, porém, é real. Tem endereço e uma história de vida merecedora de respeito. Dizem, na cidade dele, que por ter prestado serviços a um certo ditador africano foi conotado e acantonado. Não se descarta a hipótese de  ter sido ele próprio a se demitir da vida anterior para viver à sombra.

Ao pensar no homem discreto, recordei-me das palavras de Manuel dos Santos Lima, eminente académico angolano, quando o entrevistei há sensivelmente 27 anos. Estávamos no Palácio dos Congressos. Nessa altura, o ilustre filho de Angola liderava o projecto político a que denominou MUDAR. Pretendia explicar-me que um dos problemas de África é a sobreposição dos políticos às instituições, associada a subserviência de muitos deles. Disse taxativamente que ao respeitarmos certas posições, mesmo discordando ou não gostando da pessoa, estamos tão somente a respeitar a instituição que representa. 

Quase trinta anos passados, o caso do homem discreto faz-me reflectir profundamente sobre as palavras do professor Manuel dos Santos Lima. Com certeza, um dos maiores problemas de vários países africanos é a manifesta incapacidade de cicatrizar feridas e seguir em frente. Existirão no continente milhares de exemplos de figuras ostracizadas em prateleiras imaginárias porque preferimos desperdiçar boa parte do presente a remoer o passado. Talvez sejam de se considerar fórmulas como a criação de comissões de verdade e reconciliação em países reerguidos a partir de conflitos profundos. Vidas discretas deviam ser opções, não condições resultantes de eventuais desacertos passados.