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Se eu fosse um partido político

Tinha eu onze anos quando uma decisão política mudou a minha vida: por causa dela estudei, com bolsa de estudo, ininterruptamente durante catorze anos, da primária ao último ano da universidade, em condições económicas e sociais franciscanas sim, mas que provaram ser eficientes e transformadoras.

Com vinte e seis anos já estava bem formado: a mim e aos meus descendentes, aquela decisão política livrou da pobreza, da ignorância e da precariedade. Na mesma altura que eu, milhares de outros cidadãos formaram-se em medicina, agronomia, pedagogia, arquitectura, economia, microbiologia, entre outras áreas da ciência e do saber: “os caimaneros” não sabem fazer outra coisa, senão contribuirem para o desenvolvimento deste país.
Um partido político, com possibilidades de ser (ou que já é) um partido de governo, que não se preocupa em estimular a sua massa crítica e oferecer-lhes oportunidades, será um partido que, se não optar por métodos ditatoriais, alegais e ou ilegais, tarde ou cedo, estará condenado ao fracasso. Um partido político pragmático, conhecedor dos problemas fundamentais da realidade social que explica a sua razão de ser e dos desafios do seu tempo, só poderá ter um destino glorioso se valorizar os talentos e os quadros que tem, se optar pelas melhores práticas de gestão, se enveredar por uma ética e uma moral comportamentais adequadas e quanto antes o fazer, melhor.
No mundo de hoje, as decisões políticas são as que mais influências têm, são ainda mais decisivas do que as descobertas científicas, do que as instruções de qualquer confissão religiosa, do que o poder de qualquer empresa: só os cidadãos politicamente conscientes, bem educados e organizados poderão contribuir para transformar a sociedade, ainda que tenham que fazer política fora dos partidos políticos.
 É de líderes ousados e com sentido de justiça que precisamos: com uma só decisão, uma entrevista, um decreto ou uma lei, eles podem condicionar a vida e a trajectória de uma empresa, de um indíviduo ou grupo de indíviduos, eles podem fazer com que uma Constituição mude ou até mesmo, quando eles são arrojados, podem mudar uma sociedade.
Um partido político forte não pode fazer chover, mas, se estiver a governar, pode autorizar que mudem a trajectória de um río ou que se subvencionem os investimentos para que não falte água, nem regadios nas zonas de cultivo. Por isso, o ideal mesmo é que uma decisão política tenha uma base científica indiscutível: quando uma e outra se unem, o resultado é mais benéfico para o cidadão do que uma descoberta científica que os políticos ignoram e será mais eficiente do que uma decisão política  populista e ou especulativa.
A maior decisão que um partido político pode tomar é educar bem os cidadãos do país em que governa: se isso acontecer e o partido político se modernizar, se instaurar eleições primárias internas, se se constituirem grupos de reflexão temáticos sérios e ou por áreas e não acéfalos comités de especialidade, todos eles, - o partido, os seus militantes e o líder -  poderão servir melhor os cidadãos.
Se eu fosse um partido político forte e curtido pelas circunstâncias da história, da geografia, das clivagens ideológicas e da ambição dos homens, que tivesse governado um país durante longos anos, primeiro em tempos de guerra e depois em tempos de paz, impulsionaria o mais abrangente pacto de Estado entre todas as formações políticas, organizações da sociedade civil organizada e consciente, associações,  fundações de utilidade pública e reconhecidos os especialistas. 
Se eu fosse um partido político forte, proveria o país de uma autêntica agenda nacional de consenso - diferente daquela que é só para inglês ver -, que fosse realista, abrangente, multisectorial, gradual, intergeracional e de género que protegesse, desde o momento que a aprovássemos, todos os cidadãos angolanos.
Se eu fosse um partido político forte, com o apoio de cidadãos organizados criaria as condições para queimarmos etapas e mudarmos as formas de fazer política, pondo sempre o interesse nacional acima de qualquer partido. Se eu fosse um partido político forte, aceleraria o exercício democrático do Estado de Direito dinamizando, no Parlamento, estratégias para que através do consenso superássemos as disputas.
Se eu fosse um partido político forte, criaria as condições para que ao lado da economia de mercado houvesse espaço para a economia solidária e o comércio justo, para que se instaurasse uma renda universal básica para as famílias angolanas, exigindo uma contrapartida com formação profissional e contínua, o voluntariado e, também, se criasse um alto comissariado contra a pobreza infantil, entre outras medidas.
Os países mais fortes são aqueles em que os políticos e os cidadãos organizados estão mais unidos. Precisamos de decisões políticas que mudem as nossas vidas: um partido político forte que governa pode e deve tomá-las, já!

*Historiador e crítico de arte