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Patinhas e Metralhas

Vários de nós, crianças nas décadas de 40 até finais da 80 do século passado, lembram-se das estórias sobre o avarento Tio Patinhas, eternamente obcecado em ser cada dia mais rico, indiferente às necessidades alheias.

As estórias, contadas em quadradinhos, sobre vida do Tio Patinhas, como tantas outras com as mais variadas personagens, chegavam-nos em pequenos livros comprados, vendidos, revendidos, trocados em alfarrabistas, quiosques, mas, igualmente entre os que liam, muitas vezes já com páginas coladas ou soltas de tanto sofregamente folheados, num tempo em que televisão era menos do que miragem.
Aquelas estórias aos quadradinhos - impressas sem os primores técnicos dos álbuns de banda desenhada que lhes sucederam - foram as primeiras que muitos de nós lemos, criando, sem darmos por ela, o gosto pela leitura, quiçá, incutindo-nos sentimentos de justiça e injustiça, egoísmo e solidariedade. Sem elas, provavelmente, também, não tinham sido entendidas mensagens, mesmo que camufladas, de poetas e prosadores sobre valores humanos.
Os “tios patinhas” para nós eram os donos de quintais de árvores carregadas de fruta, que ordenavam aos guardas que disparassem tiros de sal e acicatavam ferozes cães contra crianças que ousavam saltar o muro para saborear uma manga, uma laranja, desafiar o perigo da proibição. Também, o taberneiro, que acrescentava água ao vinho, adulterava a balança a favor dele, sempre na mira do lucro fácil.
O Tio Patinhas original, mostrado nas estórias aos quadradinhos, era, não restam dúvidas, um forreta, egoísta e desconfiado, o que levava a meter-se, periodicamente, sozinho no cofre forte para contar moeda a moeda a fortuna acumulada. Mas, convém sublinhar para esclarecimento de quem o não conhece, nunca roubou, nem favoreceu parentes. Pelo contrário. Dos sobrinhos, Donald era “pau para toda a colher” e o Peninha, trabalhador no jornal do tio, pois claro, ambos sem horário, nem salário, raramente viam a cor do dinheiro. Restava o Gastão, que nunca “vergou a mola”, o sortudo da família, a quem bastava pôr o pé rua para encontrar o suficiente para comer, beber, vestir. Enfim, era o boémio da família. Luisinho, Huguinho e Zezinho, netos do chefe do clã, viviam na inocência de crianças, sem perceberem por que não tinham nada e, apesar do avô ser quem era, ficavam-se pelas cores e cheiro das guloseimas, que viam nas montras.
O Pateta, tido apenas como amigo, nunca beneficiou, como é evidente, de favores. Também, a única coisa que fazia de bem feito era fazer jus ao nome. Sequer, quando se transformava em Super Pateta, após engolir o feijão, que lhe permitia voar, mas os resultados das façanhas foram sempre desastrosos.
O avarento Tio Patinhas, no fundo, era o rei e senhor na cidade de Patópolis. Patacôncio, a única outra pessoa, na cidade, com dinheiro próprio para levar vida desafogada, mas a “léguas de distância” da fortuna do multimilionário.
As crianças que leram as estórias sobre o Tio Patinhas, sobrinhos, netos e demais população de Patópolis, estavam, na altura, longe de imaginar que, volvidas todas décadas, iam recordar-se delas tantas vezes. Mas, fazem-no, cada vez mais, ao tomarem conhecimento das verbas roubadas ao nosso erário. Umas, anunciadas e provadas, outras que se hão-de provar, algumas tão volumosas que os algarismos resultantes das somas não conseguem ser lidos, nem pelo mais experiente matemático ou contabilista. Provavelmente, nem eles próprios, os lapidadores do dinheiro público. Para que se hão-de dar a esse incómodo se lhes não custou a ganhar.
O Tio Patinhas, avarento e egoísta, além de nunca ter roubado, nem beneficiado parentes e amigalhaços, jamais pôs o dinheiro fora da terra dele, nem exportou o quer que fosse. Conclusão, os marimbondos não leram as estórias sobre ele. Se o tivessem feito não faziam o que fizeram e continuam a querer fazer. Assim, se tiverem de ser comparados a alguém só se forem aos irmãos Metralhas.