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Pandemia, violência e democracia

“Os governos amam pandemias da mesma forma que amam as guerras; porque lhes dá poder; dá-lhes o controle e dá-lhes a capacidade de impor obediência aos seres humanos”.

Esta frase, que começou a circular nas últimas semanas em várias redes sociais, é atribuída ao advogado Robert F. Kennedy Jr., filho do antigo congressista americano Robert Kennedy e sobrinho do antigo presidente John F. Kennedy, assassinado em Dallas em 22 de Novembro de 1963. A mesma teria sido proferida em Berlim, no dia 29 do passado mês de Agosto, durante uma palestra sobre o novo coronavírus.
Segundo a Wikipedia, Robert Kennedy Jr. é um dos mais importantes activistas anti-vacinas actuais. Como que a confirmá-lo, a palestra que proferiu em Berlim foi uma longa peroração contra a covid 19 – que não hesitou em considerar uma “criação” artificial para eliminar a humanidade – e um libelo contra os projectos em curso para descobrir uma vacina capaz de enfrentar o vírus que mantém o mundo paralisado há nove meses.
De qualquer modo, e apesar do alinhamento do ilustre advogado, pelo menos pelo respectivo pedigree familiar, quer com as teses negacionistas relativamente à covid 19 quer com os movimentos anti-vacinas que têm crescido nas últimas décadas, aquela frase faz todo o sentido.
Os factos estão aí. A actual pandemia criou um clima propício ao aumento da autoridade policial dos estados, na maior parte das vezes consentida, mas que, à medida que o tempo foi passando, sem se vislumbrar uma cura para a doença e um horizonte para a plena normalização da vida económica e social, descambou para a utilização excessiva da violência, directa ou indirectamente, isto é, por razões sanitárias explícitas ou apenas estimuladas pelo ambiente geral existente. Em alguns casos, as motivações para tal uso têm-se confundido.
Desde logo, a resposta à pandemia reclama, simultânea e compreensivelmente, medidas e acções de natureza médico-sanitária e de segurança pública e respeito pela ordem, para que possa ser contida com sucesso. Mas, segundo previram logo no início sociólogos, politólogos e outros cientistas sociais, os países democraticamente mais frágeis, para não usar outro epíteto, arriscavam-se a priorizar os procedimentos autoritários e securitários para enfrentá-la.
Conforme acrescentaram os observadores em questão, alguns desses países seriam mesmo tentados a recorrer à pandemia como pretexto para acentuarem a sua natureza ou vocação autocrática, limitando a expansão da democracia. A Hungria, por exemplo, tentou fazê-lo mal a mesma começou.
Aproveito para comentar, incidentalmente, que a maneira como as autoridades angolanas estão a lidar até agora com esta crise sanitária mundial parece dominada pela visão securitária. O reduzido número de médicos e cientistas na comissão criada para gerir a pandemia no país fala por si. Os casos de violência policial que têm ocorrido atribuídos à covid 19 são, entre outras razões, consequência dessa visão.
O facto é que os excessos policiais cometidos em nome da necessidade de fazer observar as restrições decretadas pela maioria dos governos a fim de conter a pandemia não são apanágio exclusivo de Angola, estando a acontecer em muitos países do vasto mundo a que pertencemos. De todo o modo, e como é óbvio, devem ser consideradas liminarmente inadmissíveis, aconteçam eles onde acontecerem. A esse respeito, não há qualquer discussão possível.
Entretanto, e além desses exemplos, tem havido, desde o início da pandemia, numerosos outros casos de violência, em todo o mundo, não motivados directamente por ela, mas que, tendo profundas razões históricas e civilizacionais, são estimulados ou espoletados, talvez, pelo ambiente geral, tenso, depressivo e repressivo, criado pela covid 19.
Os acontecimentos ocorridos nos Estados Unidos na sequência do assassinato de George Floyd, no dia 25 de Maio deste ano, são o primeiro exemplo que nos vem à mente desse fenómeno que, juntamente com a pandemia e depressão económica mundial, marcarão para sempre o início da segunda década do século actual. Tais acontecimentos provocaram e continuam a provocar uma série de ondas de choque que estão a repercutir literalmente em todo o mundo.
Apenas para dar alguns exemplos, num país que nos está culturalmente muito próximo – o Brasil -, a violência policial aumentou mais de 50 por cento de Janeiro a Abril (inclusive) deste ano. Nos últimos dias, o mesmo fenómeno explodiu na Colômbia. Manifestações de rua contra a violência policial e, por vezes, com explícitas motivações políticas, acontecem em vários países, nas américas, em África, na Europa, na Ásia.
Por coincidência, ontem, 15 de Setembro, foi assinalado em todo o mundo o Dia Internacional da Democracia. A data é propícia para aprofundar a reflexão esboçada no presente texto acerca das relações entre esse regime político – na verdade, uma autêntica aspiração universal -, a pandemia do novo coronavírus e a violência policial ainda prevalecente em numerosos países. Como comentou um velho e persistente democrata angolano, a democracia está hoje sob várias ameaças de vários tipos de ditaduras ou projectos de ditaduras, pelo que é vital uma mobilização constante em sua defesa.
Os jovens angolanos parecem conscientes dessa necessidade. No passado sábado, 12 de Setembro, deram um exemplo disso. Não li, vi ou ouvi nada na comunicação social pública, certamente por distracção minha, mas, ao que parece, foram realizadas manifestações contra a violência policial em todas as capitais provinciais, não?

Jornalista e escritor