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Os efeitos negativos do ajustamento desordenado

A evidência da persistência das distorções macroeconómicas que ocorrem desde há anos no nosso seio parece não ser objecto de grandes preocupações por parte dos gestores das reformas em curso, que insistem na ausência de coordenação das medidas que têm de ser tomadas.

Tudo isto leva-nos a um permanente desequilíbrio que se traduz no adiamento constante do ajustamento dessas variáveis.
Para além de outras, a actualização salarial é uma etapa muito importante no processo de reajustamento macroeconómico, e tem em vista combater os desequilíbrios existentes na vertente das variáveis preço/salário.
Por essa razão a coordenação económica, através do Ministério das Finanças, deveria vir a terreiro para orientar as empresas e os cidadãos com uma metodologia simples sobre o modo como proceder, como devem actuar, não deixando cada um, à sua maneira, fazer o seu ajustamento, aumentando o processo inflacionista.
Em primeiro lugar há que ter em vista os ganhos ou as perdas que as empresas poderão obter com o processo de desvalorização da moeda, no contexto de um país como Angola, produtor de petróleo e portanto gerador de divisas e o nível de poupanças daí resultantes.
Por outro lado, a inflação traduz na maioria dos casos as perdas das empresas que se deparam com uma redução constante do seu poder de compra.
Por conseguinte, há que ter em linha de conta a sustentabilidade da empresa para se auferir o seu poder de encaixe e em seguida fazer o reajustamento do salário de acordo com o nível de inflação e com o índice dos preços do consumidor, se for credível.
Do meu ponto de vista seria prudente solicitar ao Ministério das Finanças orientações sobre as metodologias a adoptar de modo a que exista uniformidade e não se ponha em causa o programa de reajustamento
A guerra económica em curso entre duas grandes potências mundiais, Estados Unidos e China, tem vindo a afectar países e economias como a de Angola, que vêm os seus rendimentos baixarem consideravelmente, numa guerra sem fim à vista e em detrimento das próprias potências.
Alguns cidadãos americanos acreditam que a China está envolvida no comércio internacional que pode ser livre mas não é justo, pois que ao pagar salários baixos inaceitáveis e fazendo-os trabalhar em condições desumanas, a China está a competir de forma desonesta.
Os cidadãos chineses, por sua vez, podem ripostar que é inaceitável que os países ricos, ao advogar o livre comércio, tentam impor barreiras artificiais às exportações chinesas, tentando restringir a importação de produtos baratos. Numa só palavra, acham injusto ser impedido de explorar a única riqueza que têm em abundância : a mão de obra barata.
É óbvio que neste caso, a dificuldade reside no facto de não haver nenhum meio objectivo para definir “ salários baixos inaceitáveis” ou “condições de trabalho desumanas”.
Com efeito, com os enormes hiatos internacionais que existem a nível do desenvolvimento económico e de standards de vida é natural que o que é salário de fome nos Estados Unidos, seja um salário generoso na China e uma verdadeira fortuna na Índia
A estabilidade económica é necessária para o investimento de longo prazo e deste modo para o crescimento e por essa razão o domínio da inflação constitui a base para uma maior prosperidade de longo prazo.
Entretanto, na história mundial há exemplos de casos em que já aconteceu que a inflação pode ter sido dominada mas tornou-se consideravelmente mais vulnerável.
A Alemanha não foi o único país que experimentou a hiperinflação.
Na imprensa estrangeira, a Argentina tornou-se motivo de humor devido à híperinflação nos tempos modernos, com uma taxa de inflação de 20.000%.
Mas ainda pior do que a alemã, foi a inflação húngara depois da II Guerra Mundial e a do Zimbabwe em 2008 nos últimos dias do Presidente Mugabe. A hiperinflação mina as bases do capitalismo tornando os preços de mercado em perturbações significativas.
Citando o prof. sul-coreano Ha-Joon-Chang, bestseller internacional nº 1, especialista em desenvolvimento económico e Investigador sénior da Universidade de Cambridge e, para resumir, o livre comércio, as politicas de livre mercado raramente deram bons resultados.
A maioria dos países ricos não utilizaram essas politicas, quando eram subdesenvolvidos, pois elas abrandaram o crescimento e aumentaram as desigualdades de rendimento nos países subdesenvolvidos durante as últimas décadas. Poucos países tornaram-se ricos através do mercado livre, das políticas de mercado livre.
As economias africanas nem sempre estiveram estagnadas, como alguns quiseram fazer crer.
Todas as desvantagens estruturais que mantiveram os países africanos em atraso, estiveram também presentes nos países ricos da actualidade, como climas pobres (árctico ou tropical), abundantes recursos naturais, divisões étnicas, instituições pobres e nível cultural baixo, entre outros.
Estas condições estruturais parecem actuar como impedimentos para o desenvolvimento em África, só porque os seus países não têm as necessárias tecnologias, instituições e competências técnicas para negociar as suas consequências adversas.
Na verdade, a causa real da estagnação africana, nas últimas três décadas reside nas políticas de livre mercado que o continente foi compelido a implementar durante o período. Contrariamente à história e à geografia, as políticas podem ser alteradas e com toda a certeza à África não está reservado o subdesenvolvimento.
*Antigo ministro das Finanças e governador do BNA