Opinião / Artigos

O azar do Chico Diarrumba

Um dia destes eu estava a subir as escadas de um dos inúmeros edifícios da nossa cidade capital.

Era um prédio de 10 andares mas que parece ter o dobro, tais são as curvas e contra-curvas que os seus degraus descrevem. Na ocasião eu estava muito acima do peso recomendável, se tivermos em conta os meus 1 metro e 79 cm. Por este facto, constituía para mim um martírio subir escadas. Ainda que fosse apenas até ao segundo ou terceiro andar. Felizmente, agora que baixei de peso, já consigo subir com maior facilidade sem sentir-me mal como acontecia no passado recente.
Naquele dia que me referi no início, eu ainda ostentava os meus 120 quilos mas não me senti mal como noutras ocasiões, porque fui ouvindo a conversa das duas senhoras que iam à frente, na maior das calmas, tal como eu, porque ambas eram também obesas.
Nessas condições, o melhor é mesmo subir devagar, para poupar fôlego e não nos cansarmos muito para não apanharmos um colapso. Das conversas que ambas iam trocando, saltou-me à vista, aliás ao ouvido, as declarações de uma delas, segundo as quais nunca se preocupou em travar a urina por muito tempo, sempre que sentisse necessidade de urinar. Dizia ela que várias vezes já urinou nas coecas ao subir as escadas do prédio ou estivesse a conduzir a sua viatura durante o engarrafamento na estrada. “Eu hem! vou estragar a minha bexiga só porque tenho que apertar o xixi!? Não faço isso, prefiro mijar-me toda”, disse ela.
Depois de ter ouvido essas palavras daquela senhora, quase relacionei-as com um episódio... um não, dois episódios que aconteceram com o meu amigo Chico Diarrumba, que é useiro e vezeiro em fazer pum-pum enquanto conduz.
A primeira vez aconteceu quando estava na fila do posto de abastecimento de combustível, com o intuito abastecer o carro com gasolina, quando lhe deu uma “revolução” na barriga. Ele pensou para os seus botões: aqui não tenho escapatória. Não consigo nem ir à esquerda nem à direita para ir aliviar-me no WC do posto de abastecimento. Também não dá para sair do carro, porque teria que deixá-lo no meio da fila impossibilitando que a mesma continuasse a fluir. Nessa indecisão, Chico acabou por borrar-se, mas ainda assim abasteceu o carro quando chegou a sua vez e foi para casa trocar de roupa de roupa e tomar banho. A sorte é que já era noite e não havia energia eléctrica no bairro, mas mesmo assim, alguns vizinhos mais atentos e com olfacto apurado, daqueles que gostam de permanecer mais na rua que nas suas próprias casas aperceberam-se da situação constrangedora e ridícula que aquele homem passou. Não queria estar na “pele” dele. Nem pensar.!
A outra situação semelhante que aconteceu com o azarado do Chico Diarrumba foi que, em plena condução da sua viatura, a meio de uma manhã ensolarada, novamente ele começou a sentir fortes dores intestinais e abdominais e encontrava-se a mais ou menos dois quilómetros do local de trabalho para onde queria chegar a todo o custo para usar a casa de banho. Mas o seu desejo de chegar rápido foi gorado pelo congestionamento intenso do trânsito que se fazia sentir naquele instante.
Chico Diarrumba transpirava mesmo com o aparelho de ar condicionado ligado ao nível mais baixo para que fizesse mais frio. Mais uma vez Chico não resistiu e abriu as “comportas” fecais e lá estava ele novamente “ensopado”.
Nessa manhã, em função do sucedido, Chico já não chegou ao local de trabalho. Ligou para o chefe explicando da sua impossibilidade de comparecer ao serviço. Inventou uma desculpa esfarrapara para justificar a sua ausência naquele dia.
Ele não podia dizer a verdade porque o chefe é um “boca azul”. Se o fizesse, em pouco tempo toda a empresa ficaria a saber do vexame que se passou com ele, ou através das redes sociais ou mesmo de boca a boca. Então preferiu mentir ao chefe. Agora, ele deparou-se como outro dilema: como chegar à casa sem que os vizinhos se apercebam, já que a rua em que vive está infestada de fofoqueiros, “zongolas” e toda a estirpe de pessoas que gostam de saber e meter-se na vida alheia?
Chico Diarrumba pensou rápido e accionou um plano B: dirigiu-se a uma pracinha perto de casa, comprou um casaco olímpico usado de cor azul-escura e amarrou-o à cintura enquanto estava ainda dentro do carro, para que quando descesse as pessoas não se apercebessem da sujeira e vexame que ele foi sujeito a passar. O casaco custou dois mil kwanzas. E se ele não tivesse dinheiro naquele momento? Teria de pensar num plano C. Moral de parte da história: não devemos sair de casa sem o mínimo de valores monetários no bolso, para atender a situações inesperadas como esta. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Desculpem-me pelos termos pouco higiénicos que utilizei.