Opinião / Artigos

No mercado do Titanic

No Bairro Sapu, em Luanda, existe um mercado a que as pessoas chamam Titanic: faz-me recordar o filme de James Cameron, em que o mar é um dos protagonistas. Na zona em que este mercado está os protagonistas são os apitos e o fogo: sempre que um ladrão ou um delinquente é surpreendido a roubar, os vizinhos tocam os seus apitos.

Ao ouvir o nome do lugar, fiquei a pensar no engenho das pessoas: não se lhes ocorreu seguir um desígnio ou uma língua ancestral para dar nome ao sítio, nem estiveram preocupadas em ter em conta que o nome lhes associa a uma tragédia. Os nomes das coisas, dos sítios, das ruas, dos países e das pessoas dizem muito delas. No mercado do Titanic ninguém está armado em bom: sabem que fazem parte de uma enorme desgraça.
Ao constatar o nome dado ao mercado, tive a impressão de que é como se, resignados, os vendedores e os clientes assíduos nunca se arrepiariam se chamassem de João da Boa Morte a um filho: eles não fizeram nenhum esforço titânico, nem original, para dar outro nome àquele mercado. Aceitaram o infortúnio e decidiram fazer dele a força para a resistência do dia-a-dia.
Se o mercado tem o nome do filme, então ele terá surgido depois de 1997. Titanic é o nome que lhes pareceu mais apropriado, talvez porque, desde o primeiro momento, depois de verem o filme passou a ser evidente que, afinal, eles viviam como se estivessem a afundar-se no pior que a vida tem. Sem o saberem, de um modo inconsciente, com aquele nome passaram a dizer que ir ao mercado é como estar no fundo de um mar de lixo, de precariedade e de fome.
Quando passei pelo mercado do Titanic, não vi por lá nenhum barco afundado. Passando por perto deu para ver que o fim de cacimbo deixou um rasto do vapor branco que engoliu tudo: fiquei sem saber se o mercado assenta sobre um mar pré-histórico ou se está somente sobre o lugar de passagem de um rio que já não existe. Quando chegarem as enxurradas, as pessoas que lá ficarem e as que por lá passarem serão cobertas pelas águas.
No Bairro Sapu, em Luanda existe um mercado que as pessoas chamam de Titanic: nele vi a pobreza, a ferrugem dos tectos das barracas e essa coisa de lugar sem governo, esquecido por todas as administrações como, de resto, parece ser o que acontece com muitos dos musseques, - os antigos e ou novos -, de todas as cidades de Angola. Não havia barco, nem água nenhuma no mercado do Titanic: dá para intuir que quando surgir a correnteza do rio hoje seco e ausente, a paisagem mudará. A zona ficará no fundo do mar e as gentes que lá vivem ou trabalham para continuar a viver e a resistir terão que flutuar sobre as águas.
Um pequeno posto de polícia poderia nos fazer pensar que a área está sob controlo, termos esperança. Mas, não! Quando a administração está ausente ou é incapaz de dar um nome ou um número a uma rua, a uma paragem de autocarro ou de candongueiro, a uma praça, a uma esquina ou a um cruzamento; quando a administração é incapaz de acompanhar a velocidade com que os bairros, os sítios e os lugares surgem, as populações buscam outras referências: de um dia para o outro, elas encontram maneiras para denominá-las, o modo mais cómodo para orientar-se.
O do mercado do Titanic não é um caso isolado: um lugar sem um nome reconhecido pela administração é como se não existisse. Agora muitas mais pessoas – leitores deste jornal - saberão que existe o mercado do Titanic, uma glória que não têm ainda, nem terão tão cedo, muitos becos dos subúrbios, muitas praças, muitas ruas e até mesmo alguns bairros deste país que, já o disse outras vezes - ferve como se estivesse por cima de um fogareiro. Eles existem para as pessoas. Eles ainda não existem para as administrações, não têm nada que lhes identifique: é como se estivessem afundados num mar de desleixo, de insensibilidade, de irresponsabilidade e de crimes.
No Bairro Sapu, em Luanda, existe um mercado que as pessoas chamam de Titanic: a zona é a do império da justiça por mãos próprias. Não tem graça nenhuma que, em vez do mar, nas zonas e bairros à volta do mercado os protagonistas sejam os apitos e o fogo. Sempre que soam os apitos no bairro é porque um ladrão ou um delinquente foi surpreendido em flagrante delito e terá uma sentença inapelável: sem que ninguém queira saber o nome dele é amarrado e queimado vivo como muito do que deveríamos preservar.