Opinião / Artigos

No curso do grande rio cenas e protagonistas (IV)

Ao embarcar, sabia o perigo da correnteza do Kwanza, mas não imaginei bem a força das suas águas. Cerca de um mês vagando na narrativa, sem prévia ideia das cenas e dos protagonistas em palco, fez-me pensar.

Os cenários e as personagens surgem ao sabor do movimento dos ventos que me avivam a memória, e à medida que chegam recados, oriento o rumo da cruzada pelo Grande Rio, visando o melhor convívio com os leitores. Amável Fernandes, ilustre amigo e quase conterrâneo kwanza-sulino (ou sulista), até me fez imaginar um herói de Mark Twain, o pai da literatura americana. Vi-me a percorrer os cerca dos quatro mil quilómetros de extensão do seu rio, o Mississipi.
De certo modo, já havia cobrido com laivos de heroísmo, os pouco menos de mil quilómetros de comprimento do nosso Grande Rio, ao juntar-me no século antepassado a Emídio Mendonça, uma admirável personagem literária que, ao contrário de mim, fazia incursões reais e mais profundas nas margens do Kwanza. Um agradável vaticínio na mira do impensável estatuto de editor, alcançado com o lançamento de “A Casa Velha das Margens”, romance no qual o grande Arnaldo Santos dá vida a Mendonça. Uma mera, mas feliz coincidência. “Uma narração subtilmente queirosiana”, Luandino Vieira referiu-se ao livro nestes termos. “Li-lhe devagar, para não perder nada”, desabafou a historiadora Maria Emília Madeira Santos, enquanto que Ana Maria Mão de Ferro Martinho afirmou que “são romances como este que nos fazem reavaliar a teoria e a conformidade do discurso crítico”. A opinião de Amável Fernandes, um dos maiores sabedores da literatura universal que conheço, a par de Fernando Pereira, é de que “é um grande livro, senão o maior de Arnaldo Santos”, autor muito feliz nesta sua incursão pelo fascinante Kwanza.
Esfumou-se completamente o sonho de escrever um livro bom, onde coubesse a figura de um tal Gurgel, um mestiço que habitava na povoação de Cainge, na circunscrição da Muxima, obviamente nos lados do Grande Rio. Um texto despassarado, relato estampado num magazine do tempo colonial, suscitou-me a visão benigna de um mundo romântico, mais humano. Onde apareciam pessoas como o Gurgel, identificado como “um desertor dos homens e um profundo refugiado”, que tinham a coragem que ele teve, naquele tempo de medo, de afirmar, “ou se muda o rumo disto, ou a gente da terra proclama a independência”. Este brado fez-me pensar no rumo que a terra leva no nosso agora da vida. E sugeriu a arremetida de Gurgel. Quantas vezes me apeteceu dizer, ao menos, “ou se muda isto, ou…”. Mas logo surgem os medos, os fantasmas que podem trazer de volta, a ira e a palavra arrogante do colono, a mesma que disse a Gurgel, “Ah! Gurgel, se você cabia em me dizer semelhante coisa na administração, em presença dos meus empregados, você Gurgel, ia para o calabouço”. Aí está ele. O medo, a tolher as intenções de ver mudado o rumo das coisas.
Não podemos viver com medo, o medo estimula um futuro negro para ser vivido no presente, diz com propriedade Isabel Allende, a escritora chilena citada na última crónica. Acerca dessa coisa que é o medo, direi ainda que apesar do sentimento que ele suscita, ouso perguntar porque, na Angola nova, livre e independente, não foi devidamente aproveitada a nossa herança patrimonial. Por que razão se afundaram as potencialidades das terras vizinhas do Kwanza e do Lucala, o seu maior afluente? O que foi feito dos profícuos pomares, do extenso palmeiral e dos citrinos do Mucoso, do tempo de Joaquim Ruivo Dinis, de Ndalangombe, a terra de bom clima, tema de abertura das cartas escritas pelo fazendeiro Joaquim de Lima e Cruz? O que levou ao não aproveitamento da mimosa fazenda de Ribeiro e Silva, de laranjal e palmar impressionantes, e da imponente Fazenda Calengue, em Cassoalala, que começava na ponte do comboio sobre o rio Lucala, para jusante, na sua margem direita e nunca mais acabava? Porque faliram a fábrica de têxteis Satec e a sociedade de vinhos Vinelo e, ainda, porque se prepara a liquidação da fábrica de cervejas Eka? Porquê o não racional aproveitamento da valia da energia de Cambambe? E numa lógica de país turístico, será que chega a decadente feira de Artesanato do Dondo para nos sentirmos satisfeitos? As ruínas que circundam a região, não poderiam ter outra serventia? Sinto inveja misturada com tristeza quando leio sobre o que os outros países fazem nesse domínio específico:
Colónia de Sacramento é uma cidade do sudeste do Uruguai, do lado oposto do Rio de La Plata de Buenos Aires, na Argentina. É conhecida pelo Bairro Histórico calcetado e repleto de edifícios da época em que era uma colonização portuguesa. Acima do bairro histórico, encontra-se o farol Colonial del Sacramento, do século XIX, que oferece vistas arrebatadoras para o rio. Nas proximidades, encontramos o Porton de Campo, um vestígio das antigas muralhas da cidade.
A minha amiga Evelise esteve nesta cidade que é visitada todos os dias por milhares de turistas. Diz que é cópia quase fiel do Dondo. E então lembro as ruínas de Massangano, de Nova Oeiras, de Cambambe, do prédio do leão, da varanda dos Bentes, do velho coreto, do centenário mercado com os seus candeeiros e marcas de brasões fundidos, enfim, de tudo o que o Dondo e as suas cercanias têm. Quantos mais exemplos podemos dar do muito que pode ser feito e não se faz, ao longo do curso do Grande Rio? O problema é que ninguém me responde, e a única resposta plausível é a que me conduz ao pensamento derrotado, “pois é, meus amigos, foi a guerra e a democracia é mesmo uma chatice!”.
Até para a semana, se a Covid-19 nos permitir.