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Futebol, responsabilização e repatriamento

Há uns anos que vemos todos com grande preocupação a ausência de público nos estádios de futebol. Contam-se as vezes que tivemos estádios cheios, depois do CAN2010. Há várias razões que podem explicar isso, do meu ponto de vista. Em primeiro lugar, o divórcio do público com os estádios coincidiu com a construção do 11 de Novembro. Antigamente, todo o mundo ia à Cidadela Desportiva. 

Então, tenho para mim que a construção do 11 de Novembro fora do centro de Luanda não favoreceu os amantes do futebol. Ou seja, a colocação do estádio numa zona urbana nova, com sérios problemas do ponto de vista das acessibilidades não foi uma boa saída. Os estádios de futebol, com raras excepções, estão muito ligados a um determinado bairro, clube, criando na vizinhança um sentimento de pertença e quase uma década depois isso não acontece ali. A juventude do Kilamba, Calemba 2, Sapú, Nandó e do bairro 11 de Novembro não se apropriaram do espaço, como sucedia com os bairros vizinhos a Cidadela (Vila-Alice, Marçal, Rangel, C´s, B´s, Terra-Nova, Bairro Popular, Cazenga, etc) ou ainda com os Coqueiros.
Uma outra razão (senão a principal) que explica também esta ausência de espectadores nos estádios é a fraca qualidade do futebol que é praticado apesar da presença em Angola, nos últimos anos, de jogadores com grande técnica individual, vindos mesmo da Europa; Brasil e dos países limítrofes mais competitivos para reforçar os clubes do Girabola. Foi assim que tivemos os Rivaldo, Tresor Mputu, Meyong, Cali, etc. Ora, a vinda destes jogadores, estranhamente, não se traduziu em melhores performances para os nossos clubes nas competições africanas e nem a nossa selecção teve melhor aproveitamento. Parece um contra-senso, mas esta foi das piores fases do nosso futebol. Portanto, com má qualidade, maus resultados, o público prefere deixar os jogadores sozinhos. É constrangedor a imagem que nos chega pelas transmissões televisivas de certos jogos do Girabola no estádio 11 de Novembro. Estádio absolutamente às moscas.
Por isso, fiquei bastante satisfeito ao assistir o jogo das Afrotaças entre o nosso 1º de Agosto e a equipa da RDC – TP Mazembe, um colosso do futebol africano. Não sendo expert nas questões futebolísticas, apesar da paixão que nutro pelo futebol (e basquetebol), ver o mar de gente no estádio cria outro ânimo. Para todos, jogadores e adeptos.
Quando tudo fazia antever um bom desfecho, veio-nos a hecatombe. Infelizmente, nem tudo foi um mar de rosas. Morreram alguns adeptos a saída do estádio, sendo mais dramático o caso de uma família que perdeu três membros, segundo relatos da rádio. E isso leva-nos ao tema ao factor fundamental da ausência de espectadores: a segurança nos estádios de futebol. 
Assistimos há cerca de dois anos um incidente semelhante no Uíge, no jogo de estreia, no girabola, da equipa local. Agora é no 11 de Novembro. A culpa não pode sistematicamente morrer solteira, sobretudo quando estão em causa vidas de nossos concidadãos. A morte de um angolano deve preocupar-nos. De sete muito mais e não é por isso aceitável, é no mínimo revoltante, o silêncio de certas instâncias com responsabilidade no affaire. Era bom que a postura do comandante Panda fizesse escola entre nós. É coerente proceder deste modo. E quando não é assim, a responsabilização disciplinar, civil e criminal deve ser acossada a quem falhou. Fala-se de menos portas abertas. Seja o que for, temos de saber porque aquilo sucedeu e acossar responsabilidades, tirar lições pois os estádios de futebol não podem ser campos de violência e palco para mais mortes.  
Finalmente, não gostaria de estar indiferente pois vimos todos, recentemente, com grande atenção a entrevista concedida pelo banqueiro Álvaro Sobrinho ao programa Grande Entrevista, da TPA1, com o jornalista Paulo Julião. Foi um exercício quase inédito, provavelmente por descortinar. De qualquer modo, não podemos deixar de saudar o arrojo do entrevistado em vir publicamente expor, do seu ponto de vista, o que se passou no conhecido «caso BESA». Levantou a poeira e um assunto incomodo e engavetado entrou para a agenda pública, sendo apenas destronado pelas mediáticas detenções. Outros intervenientes do caso BESA reagiram também, mas estamos longe de perceber, com exactidão, o que de facto se passou ali dentro, com repercussões sérias para a credibilidade e sustentabilidade de todo o sistema financeiro (bancário especificamente) nacional.
Mas não obstante essa “ousadia” do banqueiro, cujos contornos judiciais ficam agora sob a alçada da Procuradoria-Geral da República, notamos com estima o facto de ter sido o primeiro rosto público de um angolano que assume repatriar capitais para Angola, no quadro da Lei do Repatriamento cujo período voluntário termina já em Dezembro, mas, ao menos que o assunto esteja no sigilo bancário, há pouco estrondo público em volta do assunto. Mais interessante é o facto de assumir e identificar as suas novas áreas de investimento, a saber: agricultura, indústria farmacêutica e turismo, áreas vitais no processo de diversificação económica, combate a pobreza e geração de empregos. Foi pena que não tivesse ficado suficientemente claro, na entrevista, a estratégia subjacente ao plano de novos investimentos de Sobrinho em Angola, bem como os seus timmings. 
Não se espera que haja a publicidade de todos os que façam o repatriamento voluntário. Espera-se apenas que o dinheiro, em muitos casos, saído de Angola de forma ilícita retorne ao País, per fas et nefas, aproveitando essa janela inédita que o Estado abriu, com intenção de reanimar a economia e estimular também o investimento estrangeiro que olha com desconfiança o facto dos próprios nacionais não investirem internamente, o que é absolutamente vital para que possamos voltar a crescer, com empresas competitivas, produtivas e a população com renda e maior capacidade de consumo.