Opinião / Artigos

Escrever o teu nome debaixo das palavras

Está um dia frio cujos fios do tempo ficam sem brilho, e o cheiro da terra é um perfume indecifrável. Os dias assim, pouco engraçados, encostam-nos aos pensamentos nebulosos e menos animados, um sinal de que nem tudo são rosas.

“Que dia! É de ficar em casa”, sigo o que a voz interior ordena. Nessas condições, o céu parece mais perto de nossas cabeças, faz prevalecer em nós um vazio como se procurássemos uma parte de vida que só as recordações sabem reanimar e fazer o grosso do que fora o passado. Muitas vezes abro o meu álbum secreto de músicas que possam ajudar. Não me esforço na escolha, corro o olhar até Daramola, clico no trecho que mais me aproxima de Deus. Só essa música organiza as minhas recordações e oferece-me o mínimo de calor que possa mudar o meu estado de inactividade, de uma tristeza que dói.
O Aires Vasconcelos está na casa de banho a fazer a barba, porta entreaberta. E aprecio a sua beleza, a cadência dos seus gestos e a lâmina a deslizar e a juntar na laringe a espuma branca de barbear. O seu rosto tinha a beleza da minha mãe, cabelo farto e ondulado. Eu era mais parecido ao meu pai, um homem alto de dois metros. Lembro-me que uma colega portuguesa tinha pedido uma foto minha. Decidi tirar do álbum de família uma foto sua, com doze anos, e escrevi atrás: “Sou eu, o Ninano”. A reacção da jovem chegou num papel de pergaminho castanho, numa letra redonda e foi muito poética, “És encantador, teus olhos têm um sinal muito brilhante”. Eu continuava paralisado à porta para lhe ouvir. O que eu mais desejava é que me passasse as suas experiências de vida, sua fé no amanhã e como lutar contra a discriminação racial e desfazer o medo do incerto.
“Aires, quantos nacionalistas mataste?”, perguntei de forma inocente e arrependido da pergunta mesmo antes da resposta. As palavras deviam passar por uma repetição lenta onde pudéssemos depois corrigi-las, dar-lhes outro sentido, mas, infelizmente é assim, saem disparadas até para magoarem as pessoas que amamos: “Estás aí?”, perguntou virando-se para mim. Confessei que há muito estava a observá-lo. “Nano, esses homens não são diferentes de nós, não são diferentes de ti. Têm sonhos”, virou-se completamente para mim. “É ainda cedo para entenderes o mundo e a nossa história, não te apresses. Vais crescer e aparecer na hora certa, vais ver como tudo é tão diferente”.
Depois de vestir a camisa com as divisas de alferes que lhe davam um outro brilho, disse: “Deixei o teu caderno de poemas sobre a minha cabeceira. Ler as minhas anotações”, fez um longo silêncio, levou o rosto para junto do espelho. Eu sentia o chão mover-se para um precipício onde os adultos atiram muitas “esperanças”, ou, no meu caso, a minha crença em ter um certo talento para brincar com as vogais. “O que dizes nas notas?”, não me coibi, tinha pressa. O Aires deixou o espelho, sacudiu o corpo, satisfeito pelo que via de si mesmo. Com carinho deixou pousar a sua mão direita sobre a minha cabeça, fazendo cafunés com seus dedos. Eu estava certo de que qualquer futura incursão minha pela escrita dependeria, e muito, das suas pontuações ao meu inédito.
“Nunca te esqueças, Nano: não escrevas sem pensar bem no que queres passar”, disse com uma voz muito seca e continuou: “As palavras não morrem, já outros o afirmaram”, e seguiu em direcção à porta de saída sem antes deixar de dizer, “Não te quero desiludir, mas não vi no inédito o homem. Ter o estilo surrealista é só uma pequena parte”, saiu sem virar-se para mim, e, eu, com duas mãos coçando a cabeça ainda à espera do abraço e beijo, mas alegre porque não foi um reparo mau de todo. Peguei no caderno, desfiz-me daquela corrente invisível que nos prende em apego aos diários quando os pensamentos são nossos e de mais ninguém. Sem pensar duas vezes, deslizei o fósforo sobre a lixa e a chama tão viva do palito direccionei, sem pena, as muitas páginas do inédito que fumegavam. O fumo, levado pelo vento, transportava consigo os meus sonhos. E toda experiência precoce levei para o livro A Voz da Terra, os versos já tinham homens e mulheres que ocupavam todo o meu imaginário.
Há dias no aniversário do amigo Amável, setenta anos, ainda mal me tinha sentado à mesa faustosa de alimentos e bebida, alguém foi me recordando os trechos que mais o empolgaram, debitando pontos de vista sobre o artigo que apelava à necessidade do pré-escolar, “Adriano, dizes umas verdades que não sei se te vão ouvir”, nesses momentos de encabulação só sei abanar a cabeça. Agradeci a leitura e as interpretações que foram sendo feitas. Chegou um momento, fiquei confuso, já que muitas linhas e falas já não eram de minha autoria. Os leitores, animados pelo néctar, tinham dado vida e maior amplitude discursiva aos personagens, uns mais profundos que outros, era, na verdade uma maneira de dizerem o que gostariam de ter escrito e assinado por baixo. Uma senhora, linda, foi muito mais no fundo do baú dos meus textos: “Adriano, o seu artigo sobre as dívidas não reconhecidas deu cá um aperto no coração”, e puxou o marido para si: “Muitos sonhos destruídos, há cinco anos que o Estado não paga a nossa dívida, mesmo depois de reconhecida”, tirou um lenço de papel para limpar as lágrimas. “Nós estamos a ficar pobres, muitooo”, eu fiquei petrificado, baixei a cabeça, pude ouvi-la o tempo todo, porque só assim poderia sofrer com o casal que tinha medos.
Um santo dia, fui chamado por um alto dirigente da República que queria travar uma breve conversa. Foi, como sempre, uma pessoa amável e de boa prosa solta. “Adriano, não concordo contigo no último artigo que espalhaste nas redes sociais”. “Qual artigo?”, perguntei inquieto. “Eu não assino artigos para animar as redes sociais”, mexi-me na cadeira. Esticou delicadamente o artigo para o meu lugar, senti na sua voz uma tristeza imensa. “Esse tal de Botelho, até que escreve bem. Só podes ser tu”, acusou. Pude ver que uma ferida no seu carácter nos separava e muito. Não deixei de lamentar o ocorrido. Mas não permiti que entrasse no debate à volta dos méritos do artigo. Sempre penso que esse tipo de equívocos não é para continuar no limbo das especulações, até porque sempre assino os meus artigos. Se alguém assina textos apócrifos, usando partes do meu sobrenome, a sério, não me vejo a ter de desmentir toda santa vez que surja um apócrifo que herde os nomes de família.
Outro cenário. “Adriano, estou zangado contigo. És um amigo da onça”, vociferou um ex-governador de Luanda. “Quero que possas conhecer a nova morgue”, gritava do outro lado da linha. “O meu roteiro, senhor Governador, é o das famílias que têm os entes queridos abandonados na morgue velha”, respondi com azedume. Não era para pedir desculpas, frisei que no artigo só quis deixar o retrato das condições das morgues que todos dias tinham as gavetas cheias de larvas que caíam com os pingos de líquidos pegajosos e malcheirosos dos corpos bastante putrefactos. “Pintaste a cena”, acusou. Uns minutos depois, a Patrícia, minha amiga, ligara para agradecer: “Amigo, gostei da coragem. É preciso que eles entendam que governar assim não dá”, e encerrou dizendo que o texto já teria feito muito.
Seria bom que ao escrevermos, como disse o Aires, cada escriba procurasse colocar nos períodos o Homem e não seguisse o jogo de Fernando Pessoa. O poeta tinha um nome apócrifo para cada corpo poético da sua obra impressionante. E porque “as palavras não morrem”, devemos assumir uma relação de responsabilidade e nem partilhar com os amigos, através das redes sociais, textos não assinados com o propósito de assassinarem o carácter de alguém indefeso.