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Domingo é dia de água

O nosso belo continente, rebaptizada pelo académico senegalês Cheick Anta Diop como o berço da humanidade, tem estado no centro de infindáveis reflexões.

O incomensurável amor que a maioria dos seus filhos nutre por África não os coloca em estado de negação. Amamo-la! Temos multimilionários, mansões de sonho e carros de alta cilindrada encomendados directamente da fábrica e marcas de luxo. Temos revistas cor-de-rosa onde as nossas celebridades emergentes e os novos-ricos mostram que se pode encontrar aqui o que de melhor existe nos países desenvolvidos. O glamour e a beleza refinada graças a contas bancárias recheadas fazem furor nas redes sociais. Às vezes chegamos a acreditar que aqueles invejosos lá do hemisfério norte só nos chamam pobres para alfinetar a nosso ego. Por que nos sentiríamos “diferenciados” se temos no nosso continente tudo o que outros ostentam? A chamada da secretária doméstica quebra o raciocínio. “Não temos água para consumo”. Esse não pode ser problema suficiente para interromper o meu invulgar exercício de optimismo. Obviamente é só ligar a electro-bomba, respondo pensando na mania que temos de insistir no problema ao invés de investir em soluções. “O problema é mesmo esse, os reservatórios estão vazios. Temos que chamar o kupapata…”
No segundo a seguir percebi que o único factor óbvio é que a senhora tinha ligado exactamente em busca de solução para a maka recorrente. A chamada serviu igualmente para me devolver ao meu “habitat”. Um bom choque de realidade faz bem, principalmente quando se sai por alguns dias da conjuntura habitual. Involuntariamente vejo-me na contingência de redireccionar a crónica. Qualquer que fosse a maravilha continental a realçar, ficou descredibilizada antes de aflorar. Caso não quisesse encarar os factos ou preferisse atribuir a culpa de todas as tragédias colectivas ao Ocidente, as estatísticas estão aí para ajudar a discernir. Desgraçadamente, os números não mentem. Não são os outros que se limitam a explorar os piores ângulos das nossas fotografias. Os altos contrastes subsistem. Os castelos fazem parte do postal das novas zonas nobres. Falta de água constitui novidade apenas nas centralidades. Nas periferias, que já superam as áreas urbanizadas em conformidade com os padrões universais, as torneiras secas cabem na normalidade. Quem não teve o bom senso de reconhecer as mil utilidades da chuva fica com o problema dele. Quer dizer, com os velhos tambores ressequidos.
Lembro-me de ter ido no mês passado à empresa que garante o abastecimento de água à Luanda para regularizar contas e obter esclarecimentos pertinentes. No posto localizado na Terra Nova pedi um livro de reclamações. A amável funcionária atendeu-me. Juntou-se outra colega à conversa. E mais outra. Deram muitas explicações. Mas não vi o livro. Disseram-me que as reclamações referentes aos cortes de abastecimento só são aceites depois de um mês de privação do líquido. Rigorosamente assim! Dito de outro modo, não interessa se o cidadão deixou de consumir a água. Além de estar impossibilitado de reclamar por escrito, ainda é obrigado a pagar a quantia de 6.748 kwanzas por mês, de acordo com a tabela actualizada em Julho último.
Não estou em condições de precisar os períodos de corte. Contudo, ao longo do ano corrente, o meu povoado nunca foi abastecido durante um mês ininterrupto. Pode faltar água duas ou três vezes por semana. Estranhamente, domingo, com algumas excepções, é dia de água. As pessoas não protestam contra os cortes. Compreendem que, provavelmente, a cidade ficaria submersa se se todos os canais fossem abertos simultaneamente. Habituamo-nos a viver privados disto e daquilo. Há quem ainda acredita que a empresa à qual pagamos pelo serviço que sem sempre temos, faz um favor ao cumprir a sua obrigação. Provavelmente alguém pensa que o facto de os nossos antepassados terem vivido em bairros onde o chafariz era luxo de consumo nos obriga a atribuir o estatuto de benemérita aos prestadores de serviço. Como se unicamente os deveres fossem de cumprimento obrigatório, enquanto os direitos morrem sem direito a defesa. Concentro-me para tentar identificar países, incluindo em África, onde o consumidor aceite pagar tranquilamente por algo que não consome. Situações do género, que atentam contra a cidadania. São inadmissíveis no outro lado do mundo. Por estes “pequenos” detalhes nos afundamos nas tabelas do índice de desenvolvimento humano que deixam analistas boquiabertos chocados.