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Dificuldades na mobilização de recursos e na cooperação entre a escola e família tradicional

Para superarmos a difícil situação do ensino no nosso país, temos de reconhecer que, mesmo após a instauração da paz, há quase duas décadas, os recursos necessários para o ensino geral e de adultos, para a formação profissional, média e superior, bem como para a investigação em/para a educação, são exíguos para o bom funcionamento de um sistema educativo, que é único.

A nível de África, o percentual destinado à educação nem sequer se aproxima da metade percentual dos 20% do OGE, recomendado pela UNESCO.
À escala macro, segundo Hermano Carmo, para além da mobilização de recursos tradicionais e complementares (empresas, ONG’s e TIC’s), há a necessidade de se controlar a possibilidade de desvios dos investimentos para fins educativos. Face às mutações que se operam em todo o mundo, impõem-se a necessidade de coerência curricular, cujos fins e objectivos das aprendizagens concorram para: o progresso eco-
nómico, a solidariedade e o bem-estar social; a cidadania, a democracia participativa e re-presentativa; a alfabetização audiovisual e informática, vi-sando esta uma maior autonomização dos estudantes.
À escala meso impõe-se, para além de uma adequada gestão interna, uma apropriada definição de papéis e regras de comunicação entre a organização es-
colar e o seu ambiente externo (estrutura de tutela e comunidade envolvente), que, por sua vez, são dependentes de competências técnicas e da inteligência emocional dos gestores escolares.
À escala micro ou psicossocial, torna-se necessário olhar para a formação inicial e contínua dos docentes e para as estratégias compensatórias para estudantes. Contudo, para ambos (professores e estudantes), são indispensáveis acções formativas de empowerment, de educação intercultural, de desenvolvimento comunitário, de inteligência emocional e de fomento de grupos de auto-ajuda.
Quando pensamos em qualidade de ensino e bem-estar, não podemos escamotear estes aspectos, tão necessários ao processo de preparação e formação de cidadãos, visando a sua participação activa na vida produtiva e sócio-cultural. Para uma população que cresce à média de 3,2% ao ano e que tem milhares de crianças fora do sistema obrigatório de ensino, a procura educativa é enorme e a oferta é insuficiente. Tal facto acarreta, do ponto de vista organizacional, problemas de eficácia e de eficiência, que, ao condicionar a acção pedagógica, interfere, de forma negativa, no processo de ensino-aprendizagem.
A família é, por outro lado, o parceiro natural da educação e tornava-se necessário o estabelecimento de uma relação de cooperação desta com a escola, particularmente, no meio rural, onde o quadro de valores se apresenta bem diferenciado. Dado o plurilinguismo existente em Angola, nem sempre a língua de escolaridade é suficientemente dominada pelos alunos que, sobretudo, fora dos meios urbanos, utilizam outros veículos de comunicação. De um modo geral, os pais compreendem a necessidade de mandar os filhos à escola. Mas, dado o seu analfabetismo literal e funcional, não se encontram preparados, nem motivados, para encorajarem os filhos a obterem bons resultados, ou a colocarem à disposição destes os meios necessários para o reforço dos conhecimentos adquiridos na escola.
Na escola, a criança é encorajada a estabelecer contactos com crianças e adultos. Contudo, há usos familiares, em África e também em outros continentes, que orientam a criança a conviver, preferencialmente, com outros da sua idade. A escola encoraja à conversação, à troca de ideias, à interrogação e à curiosidade, mas, a família, tendencialmente, ensina à criança, que, a boa educação, consiste em saber comportar-se silenciosamente.
Richard Arends também nos relata, que as crianças ameríndias nos EUA “se sentavam silenciosamente nas suas carteiras durante a aula, mesmo quando o professor lhes dirigia alguma pergunta. A maioria dos americanos admitiria que estas crianças eram muito tímidas ou que possuíam dificuldades de aprendizagem ou linguísticas, referindo-as, neste último caso, para classes de baixo desempenho ou de ensino especial. Pelo contrário, Philips verificou que no seio da sua própria cultura era esperado que aprendesse através da observação de modelos de adultos sem interagirem com eles; que quando precisava de ajuda deveriam dirigir-se aos irmãos mais velhos e não aos adultos”. Desta feita, a experiência escolar e a vida familiar para a criança constituem, muitas vezes, duas realidades totalmente distintas.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais