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De entre as profissões qual é a maior?

Depois do braço de ferro que durou pouco mais de uma semana, os comboios dos Caminhos de Ferro de Luanda voltaram a circular com a totalidade dos serviços gerais que compõe o percurso das viagens que vai da capital do País à província de Malanje e vice-versa.

Apesar de suspensa, a greve dos trabalhadores poderá ser reactivada a qualquer instante, caso a entidade empregadora não cumpra, dentro dos prazos acordados, com a satisfação das exigências dos trabalhadores, para quem se afigura como mais importante, o aumento salarial na ordem de 80 por cento, a considerar como base o que cada trabalhador aufere neste momento.

De forma simples, os trabalhadores, para além de terem exercido um direito que lhes assiste por via do Artigo 51º da Constituição da República de Angola, demonstraram a importância que têm no conjunto das instituições que fazem uma sociedade heterogénea e democrática.

Em concreto pretendemos dizer que, nas referidas sociedades, ninguém deve se arrogar o direito de ser superior à outrem, e no nosso caso, o que se diz tem respaldo legal na base dos Princípios da Universalidade, “artigo 22º”; e o da Igualdade, “artigo 23º”; ambos da supra mencionada Constituição, de 5 de Fevereiro de 2010. 

Porém, do texto à prática, a lacuna é enorme, motivada por razões que na maioria dos casos não têm razões - o pleonasmo é propositado -, porquanto, para lá de ser o ultraje à condição laboral do outro, é o elevar de um desmedido orgulho que em nada ajuda a consolidação de uma Nação, que precisa de todos.

Entendemos como perfeito o exemplo da greve nos Caminhos de Ferro de Luanda, para despertar a consciência de todos que procedem de tal forma, pois, devem entender que os homens não têm que se valer pela condição laboral que ostentam, mas sim pelo carácter das suas acções, que quanto mais dignas, mais respeitados os tornam.

É o mesmo que dizer que não colhe a razão de existência de Generais sem soldados, Comissários sem agentes, Professores sem alunos, Médicos sem pacientes, dirigentes sem dirigidos, enfim, num interminável universo de exemplos que pudessem ser elencados. Daí gostarmos muito do refrão de uma das músicas de Sebem, onde se ouve:  “Ninguém é maior que ninguém”.

Desde logo, urge a necessidade de reformatarmos o pensamento em relação ao trato e lida com todos os segmentos que permitem o funcionamento de uma sociedade, sobretudo o que chamamos de “classe operária”, longe, claro, dos fundamentos de Marx e Lénine, na configuração do sistema socialista.

Queremos, desta forma, que se proporcione uma revolução na mente colectiva dos angolanos, sobretudo do “núcleo que comanda”, para olhar as preocupações dos operários com o mesmo sentimento humano que os tocaria, caso estivessem em ângulos opostos.

Claro está que não inventamos nada, mas apenas fazemos uma reflexão sobre uma realidade nua e crua que, infelizmente, putrefica a nossa sociedade, que parece estar formatada para a “doutoromania”, sem que para tal existam, na prática, acções que enobrecem a valentia com que muitos se apresentam como detentores de tal título.

Alguns até fazem questão que os seus nomes próprios sejam substituídos pelos títulos, levando às últimas consequências quem ousa em não proceder de acordo com os seus intentos, que, no fundo, não lhe faz diferente de qualquer outro humano, que de concepção é toda “igualita como em Cuba”, conforme se diz.

Chegados aqui, e já na parte final, peço que se faça um estudo sobre os efeitos negativos que terá provocada à economia angolana, a paralisação dos comboios dos CFL, a ver se ganhamos juízo e aprendemos, de uma vez por todas, respeitar todas as profissões, pois é o somatório delas que faz uma sociedade, desde as parteiras (início da vida) aos coveiros (fim da vida). E para a pergunta que fundamenta o texto eis a resposta: De entre as profissões, nenhuma é maior que outra.