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Compreender os sonhos

Alguns “entendidos” dizem que sonhar com o próprio óbito é símbolo de renascimento e tal pode acontecer a qualquer momento ou etapa da vida. Significa que acabamos de finalizar um ciclo, que se trata de um sinal de muita sorte, em todos os aspectos, que se está mais perto de realizar os objectivos e que, para tal, contaremos com uma ajudinha no Universo.

Como sabemos, o universo é demasiado grande para essa ajuda cá chegar a tempo, a menos que nos façamos transportar por meios de locomoção ainda não provados. Até agora, podemos apenas ficar por interrogações, ainda que possam parecer absurdas, como saber se, quando alguém morre tem consciência disso.
Estudos avançados sobre a matéria são ainda inconclusivos, sabendo-se apenas que depois da pessoa morta, o cérebro continua a emitir por um período muito rápido – milionésimos de segundo – impulsos eléctricos, não se podendo daí aferir que são suficientes para gerar algum princípio de consciência disto ou daquilo.
Por mais que pensemos, é-nos difícil imaginar como será o mundo à nossa volta quando já tivermos morrido, ainda mais se, forem nenhuns os créditos dados à hipótese de existência de alguma forma de vida depois da morte. E se o sonho é uma manifestação da consciência, difícil será falar-se na sua ocorrência depois de mortos e, se assim fosse, como poderíamos estar cá depois para contá-los. Sim. Porque os sonhos, sejam de que tipo forem, tanto os bons como os pesadelos, só ganham sentido se forem contados a alguém.
Mas, é curioso pensar nisso. Lembrar-nos que estávamos ali a ver toda a família e amigos a chorarem e a lamentarem a nossa partida e o todo o mal que se diz de nós em surdina, enquanto sorríamos.
Não somos os primeiros a sonhar com o nosso próprio funeral. Outros casos semelhantes já nos foram contadas, assim como já lemos relatos sobre o assunto. Todas as histórias têm o mesmo enredo: todos choram, alguns gritam à volta do caixão até ao momento em que nos aproximamos e reparamos que somos nós mesmos quem está no lugar do morto; ou então, que passa um funeral, carros uns atrás dos outros a caminho do campo santo, um cemitério qualquer, e então, começa o sepultamento, mas antes de baixarem o caixão à terra, alguém exige que se abra a urna e, então, tal como acontece com muitos outros, confirmamos que somos nós mesmo quem vai a enterrar. É claro que o funeral não acontece, que acordamos antes de nos deitarem terra por cima; já houve mesmo que tenha sonhado estar ali de pá na mão e começar a lançar a terra, mas acordar ou ser acordado nesse momento.
Diz-se que essa interrupção da morte acontece por, afinal, todos têm medo de morrer ou até mesmo porque se chegarmos a morrer no sonho, morremos também na vida real.
Os sonhos são difíceis de “compreender” e remetem-nos quase sempre para a poesia, ou, no mínimo, para a criação de mundos de fantasia. Das nossas experiências de vida, levaremos, assim, o melhor - desde os jogos e correrias da infância aos nossos convívios ou apenas idas à esquina, onde procuramos encontrar-nos sem nunca o conseguir – e acrescentaremos a isso, talvez, um prolongamento da nossa presença na Terra, ainda que seja na forma de fogos-fátuos.
Do que podemos estar certos é que, sejam quais forem as teorias e as correntes religiosas ou filosóficas que seguirmos, a “compreensão” dos sonhos depende de quem os teve e da sua experiência de vida. “Compreender” os sonhos não é apenas uma tarefa difícil, talvez mesmo impossível. “Compreender” os sonhos será, antes de tudo o mais, sonhar acordado.