Opinião / Artigos

A vida como uma arte de existir

Com o “ficar em casa” a que chamaram confinamento que foi para além da arte que nos absorve a atenção pela sua beleza ou manipulação mediática. Imaginem, anos atrás, alguém ter escrito um romance de ficção científica adiantado o que estamos a passar hoje com o corona. Porque a vida também é uma ficção.

Com o confinamento houve muitas coisas más que pararam, nem os ralhetes de Trump contra Kim da Coreia, nem soldados no Afeganistão (os tugas piraram-se num ápice), aqui o roubo do clássico carteirista, que antes era feito por mulheres de leste baixou para 50 por cento porque as gatunas estão confinadas e também as pessoas não andam com massa só passeiam os cães. Quando desconfinarem as ladras ficam à solta, as ruas vão ficar cheias de gente desempregada que não tem dinheiro e as desgraçadas das lestistas caem também no desemprego e sem segurança social…
O confinamento também fez parar os aviões , muitos carros e o ar ficou mais limpo que todas as conferências sobre o clima que Trump tinha abandonado sempre à procura de gente culpada e obrigada a ser contra ele.
Mas deixemos os que mandam no mundo e sentem a sua força humilhada por um vírus. Hoje estou em maré de rir. Outro dia, mesmo em vésperas de mandarem as pessoas para casa, no lançamento de um livro meu numa livraria de referência (palavra que está em moda com os “hospitais de referência), o meu amigo, arquitecto Trofa Real usou da palavra e saudou-me com laudas e por apresentar o livro ali no ultramar. As pessoas cumprimentavam-se com cotoveladas. Aí outro velho amigo, de casa em Coimbra e de cadeia em Lisboa, veio com dois livros para eu autografar e falou “não te saúdo como está na moda porque tenho dor de cotovelo por aquilo que tu escreves.” Eu respondi-lhe que não lhe dava um pontapé no pé porque posso-me enganar e fazer subir até uma zona melindrosa e que agora com a economia parada mundo fora, os grandes senhores com dividendos em paraísos fiscais aproveitam a moda angolana do cumprimento com o pé e dão um pontapé na bunda dos trabalhadores e ainda me lembrei da palavra caixa, multicaixa e de quando, antigamente, aqui por estas bandas se tocavam tambores a que chamavam caixas para treinar soldados a marchar tocando nas caixas e assim foram para a guerra de 14… a toque de caixa…daí que se possa dizer que a pandemia desmanda os trabalhadores para o desemprego a toque de caixa.
Tem uma coisa que ninguém toma nota para a lista dos heróis. É a comunicação social e a arte. A minha depressão diminuiu quando, desde a semana, a minha família do JA me começou a mandar o jornal. Os trabalhadores da comunicação social que trabalham de noite para de manhã cedo ardinas calcorrearem as ruas para expandir o que vai escrito em papel ou, pela Net, fazerem chegar o JA até ao meu pequeno écran. Aqui não falam da posição de Angola nos números da Covid 19. Se estivéssemos a morrer aos montes como foi feita a previsão por aqui e pelo etíope (?) da OMS, falavam todos os dias mas como estamos a manter a curva tanto tempo não obstante a última ligeira subida, fazem silêncio por sermos os que estamos melhor na quase defunta CPLP que nem sequer abriu a boca.
Mas falando na comunicação e a arte são a terapia que trava a loucura, a depressão ou a tendência para o suicídio. Óbvio que eu deste segundo andar muito baixo, não dá para me atirar lá para baixo pois só ficaria mais estragado do que estou, quiçá poderia matar um cão a passear, partir o telemóvel da dona e aparecer na televisão como um suicida falhado e assassino de um cão. Mas é a televisão com todos os conteúdos bons e maus, a tonelada de telenovelas, e cantores e músicos, a partir de suas à borla, a envolver esta ficção que é a vida naquilo que mais importa que é o sonho, são os livros que se se vão lendo, os jornais, é a arte que desde que o homem se conhece nos fez distinguir dos animais. A arte sempre desempenhou um papel importante nos momentos difíceis dos povos. Quer para se opor às tiranias, quer para cantar a liberdade e por mais que as comunidades sejam menos imperfeitas que outras, sempre a arte continuará insatisfeita mesmo consigo própria neste momento em que a vida é uma ficção que até se podia imaginar para romance uma pandemia que só dava dentro das casas e as pessoas eram encontradas dentro de seus aposentos hirtas, mortas sem putrefação e guardadas em cacifres no meio dos campos longe das cidades e os vivos obrigados a viver ao ar livre, as cidades pejadas de gente de um lado para o outro, hospitais, lojas, maternidades, tudo ao ar livre, governos, polícias, tudo pelas cidades, casas de banho improvisadas e, de vez em quando, os números de mortos e infectados que tinham arriscado ir a casa para buscar dinheiro ou outro bem de necessidade extrema.
Isto seria ficcionar a ficção. Outra são dois namorados destes dias na brincadeira ele e ela enquanto correm à beira de um jardim. Agora não me beijes, estamos de máscara e não fizemos testes. Pois, disse ele, e de luvas, já bastavam os preservativos mas agora com o distanciamento de dois metros…acrescenta uma prótese, falou ela…
É. Mas o mundo mostrou que há muita comida. Antes já havia movimentos solidários de comida e roupa para ajudar os pobres mas agora é por todo lado, afinal comida não falta o que está é mal dividida fora a que se deita fora e vai para o lixo. Era bom que depois da pandemia continuasse esta solidariedade alargada mas não acredito. Penso que uma má parte dos que agora são solidários é com medo que os pobres adoeçam e transmitem o vírus. Passado o medo, volta o egoísmo talvez alargado pela recessão e a outra pandemia da fome, aí é o salve-se quem puder e tomara que esteja enganado.
Disseram-me que em Luanda, aqui também aconteceu, mal se falou que iam ordenar confinamento quem tinha casa grande juntou duas três famílias e assim, mesmo dormindo os mais novos no chão encamarotados, e ficaram melhor, música, anedotas, cartas de jogar, máquina de medir a tensão, termómetro e, de manhã, eram mais para irem ao peixe, fuba, outros demandar carne ou legumes, outros fruta e farmácia.
Afinal, não é preciso ser velho para lembrar os tempos em que ficávamos confinados nas casas por causa do tiroteio que assolava Luanda, o povo adivinhava quando começava a correr avisado pelo vento. E ainda o tempo de anos seguidos em recolher obrigatório. Agora que íamos desfrutar o cumbú do fundo veio isto mas há um ditado tuga que diz:
NÃO HÁ BEM QUE SEMPRE DURE E MAL QUE NÃO SE ACABE. Mas eu vou dizer ao contrário, assim: NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE E BEM QUE NÃO SE ACABE…