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A moto amarela e preta

Com a parte traseira virada para a entrada, não se distinguia bem o que, realmente, era. Ela estava no meio de um quintal cuidadosamente cimentado, ao redor do qual foram construídas salas de aula e de leitura, os serviços administrativos e de apoio logístico, uma biblioteca, um refeitório e um lab que funcionará como, assim o dizem os organizadores, um “espaço de estudo e de discussão sobre vários temas, com base num pensamento social, teológico e político”.

No quintal há, também, canteiros com arbustos, relva e flores, fazendo dele um lugar aprazível. Ao fundo, uma enorme parede branca poderá servir como ecrã/tela multiusos.
Ela mostrava os seus três pequenos telhados amarelos de uns dois metros cada, unidos por dobradiças e nem o estrado tipo altar, que estava do lado oposto ocultando a garagem, conseguia ter mais protagonismo do que ela.
Se desejássemos, poderíamos sentar-nos na esteira que estava no chão debaixo da atmosfera que a presença dela, por si só, criava, ou num dos oito banquinhos de plástico e ou nalguma das quatro almofadas que estavam ao coberto, na sombra das superficies de metal daquele telhado que, com a estante, foram paridos pela carroçaria da moto: foi lá que, na sexta-feira passada, assistimos à inauguração das novas instalações da Associação Visão Propósito e Acção (VPA 20/20), - podem consultar o site deles online - na Zona Verde, em Benfica (Luanda).
Com o simpático sotaque de quem não era daqui, mas agora também já é, o padre costa-marfinense Vicent Mbra oficiou o acto para benzer as pessoas que lá acorreram e o espaço que nasceu fruto de uma vocação cristã, com o propósito de restabelecer parte da dignidade dos utentes que mais necessitam: causa nobre se tivermos em conta que, na Zona Verde e arredores, excepto as de algumas instituições de ensino que lá existem, nas periferias as bibliotecas escasseiam e nenhuma instituição as tem potencializado como uma importante ferramenta de educação.
No meio do piso cinzento do quintal, ela estava lá poisada e pousando como a mais bela das motorizadas e, no instante, até me pareceu que sim. É bem verdade que as vemos, às centenas, pelas ruas, com as suas carroçarias. Pintadas com todas as cores, escritas com diferentes dizeres, ditados ou slogans. Decoradas com cartazes, bandeiras ou ícones. Em Luanda, em Benguela, no Lubango, no Namibe ou noutras capitais de províncias de Angola. Vemo-las no centro das cidades. Com muita mais frequência, nos bairros dos subúrbios e dos arredores das cidades, vilas e povoações.
Imparáveis, geralmente, elas servem para transportar um pouco de tudo: garrafões de água, bidões de combustível, gaiolas com pássaros, armários desmontados, pessoas que querem sair de um lado para o outro com os seus desejos, as suas decisões e outras imbambas. Gosto de todas as motorizadas com carroçaria: são como ter uma casa com um quintal pequeno, mas cómodo.
Porém, actualmente a minha preferida é, sem lugar para dúvidas, a moto amarela e preta. Concebida e acondicionada pela associação sem fins lucrativos dirigida por Tchissola Mosquito, ela transporta livros. Quem sabe um dia possam, por exemplo, estar preparadas para, também, fazer projecções de filmes e de documentários!
Agradável e simpático é o ambiente que as motorizadas amarelas e pretas da VPA 20/20 criam: elas são mesmo objectos úteis que funcionam como pequenas bibliotecas móveis, destinadas a servir de apoio a outros projectos da associação, como o dos clubes de leitura. Vistas de frente, de modo realista, elas são pretas e fazem parte de acções singelas, fruto de uma visão decidida e com forte impacto na vida das crianças e pré-adolescentes carenciados, estes potenciais bons leitores que, no futuro, transformarão o nosso país.