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Wirecard, a grande fraude no país das contas certas

O que se assistiu a seguir foi o desmoronamento de uma das mais relevantes empresas de tecnologia financeira alemã - estrela da Bolsa de Frankfurt e uma das empresas do prestigiado índice DAX - como se de um castelo de cartas se tratasse.

Braun foi preso pelas autoridades policiais de Munique, em 23 de Junho. Percebe-se que os empréstimos vencidos, estimados em cerca de 1,3 mil milhões de euros, “não estavam garantidos”, e foi também num tribunal de Munique que, em 25 de Junho, a empresa entrou com o pedido de insolvência.

A implosão da Wirecard aconteceu alguns dias depois da EY (Ernest&Young), que fazia a auditoria da empresa há mais de uma década, se ter recusado a sancionar as contas de 2019, levando Markus Braun a admitir que dois mil milhões de euros registados nas contas provavelmente não existiam. “Há indicações claras de que esta foi uma fraude sofisticada, praticada em diversas partes do mundo”, diz a EY em comunicado citado pela Reuters. A notícia desta tremenda fraude foi publicada, em 22 de Junho, pelo The Wall Street Journal e, nesse mesmo dia, a Wirecard admitiu a fraude. Braun, entretanto, renunciou ao cargo de CEO da empresa.

A EY também não ficou nada bem na fotografia, mesmo quando argumenta que recebeu informações falsas da empresa e que imediatamente as reportou às autoridades competentes.

A partir de Bruxelas, a Comissão Europeia já pediu explicações à Alemanha, concretamente às autoridades reguladoras alemãs. A Wirecard, com um valor de mercado de 28 mil milhões de dólares, é a primeira empresa do índice DAX 30 a falir.

É um “desastre total”, comenta-se nos mercados financeiros, e o ministro das Finanças do Governo de Angela Merkel, Olaf Scholz, descreve este colapso como “um escândalo”.

Acrescentou que é necessário repensar as “estruturas de supervisão” do país e pediu ao seu Ministério para apresentar ideias sobre o assunto o quanto antes, que podem ser “legais, legislativas e regulatórias”. “Um escândalo como o da Wirecard é o alerta de que precisamos de mais monitoramento e mais supervisão para além da que temos actualmente”, afirmou Scholz.

Ascensão e queda da Wirecard

A Wirecard foi fundada nos arredores de Munique, em 1999, como empresa de recuperação de créditos. Em 2002, Markus Braun, ex-consultor da KPMG, assumiu o cargo de CEO e fez a fusão com uma rival de Munique, a Electronic Business Systems, começando aí a verdadeira ascensão da empresa.

Em 2005, a Wirecard tinha 323 funcionários e o foco de negócio era a gestão do pagamento de jogo e pornografia online, e foi também nessa altura que entrou na Bolsa de Frankfurt através de uma outra empresa que, entretanto, foi extinta.

Em 2006, entrou no sector bancário, com a compra da XCOM. Depois, e já como prestigiado Wirecard Bank, foi homologado pela Visa e pela Mastercard – passou a emitir cartões de débito. Em 2008, há os primeiros sinais de irregularidades nas contas, a EY passou a auditor da empresa.

A partir de 2010, a empresa iniciou a sua expansão no mercado internacional. Entre 2011 e 2014, a Wirecard captou 500 milhões de euros no mercado accionista e investiu em obscuras empresas de pagamentos do mercado asiático, desde Singapura. A empresa começou a atrair cada vez mais investidores.

Em 2015, o Financial Times começou a questionar a consistência das contas da em-presa numa série de artigos titulados “House of Wirecard”.O jornal falava de um buraco de 250 milhões de euros.

A Wirecard lançou mão de uma campanha de relações públicas para iludir questões reputacionais e continuou a comprar empresas, nesse ano, na Índia. Havia, no entanto, suspeitas de branqueamento de capitais e outros ilícitos, e o BaFin (a autoridade federal de supervisão financeira, o regulador alemão) investiga.

Apesar dos sobressaltos, a Wirecard continuou imparável e entrou no mercado norte-americano através da compra do Citigroup. Em 2017, era a maior fintech europeia e as acções da empresa duplicam de valor. Ainda nesse ano, a Wirecard emprestou 150 milhões de euros ao Deutsche Bank, um empréstimo garantido por uma participação no capital do banco de 7%.

Em 2018, em Singapura, na sede da empresa para a região, há rumores de actos fraudulentos que envolvem três membros da equipa financeira. O departamento jurídico investigou um esquema de “round trip”para a Índia (envio de dinheiro através de terceiros).

Em 2018, as acções da Wirecard valiam, em Agosto, 191 euros e a empresa 24 mil milhões, tinha 5 mil funcionários e uma carteira de clientes de cerca de 250 mil comerciantes. Emitia cartões de débito e cartões pré-pagos e fornecia tecnologia wireless para smartphones. Entre os clientes estão a Aldi o Lidl e uma centena de companhias aéreas.

Continuamos em 2018, e a Wirecard substitui o Commerzbank no prestigiado índice Dax 30, tornando-se um investimento automático para os fundos de pensões em todo o mundo. É vista como uma das poucas empresas europeias capazes de desafiar os gigantes de Silicon Valley, nos Estados Unidos. Braun, cuja participação na empresa estava avaliada em 1,6 mil milhões, prometeu a duplicação dos lucros nos dois anos seguintes.

Mas a Wirecard estava a erodir por dentro. A investigação em Singapura não deu em nada, antes pelo contrário, foi anulada. Começou o revés da empresa: as acções, em Fevereiro de 2019, passam para um preço abaixo dos 100 euros. O Financial Times começou a denunciar os negócios da Wirecard e a empresa respondeu processando o jornal. Em 2019, a EY ainda aprova as contas da Wirecard, mas sinalizando Singapura.

A Wirecard tem uma rede de negócios que saiu da Alemanha, chegou dos Estados Unidos e passou pela Índia, Irlanda, Japão ou Dubai, numa escala planetária. Em Setembro de 2019, a Wirecard emitiu títulos de crédito no valor de 500 milhões de euros classificados pela Moody’s. Há, já nesse ano, uma auditoria da KPMG que não garante as contas da Wirecard e a EY não consegue garantir que 1,9 mil milhões de euros depositados em dois bancos das Filipinas existem.

O surto do novo coronavírus adiou a apresentação dos resultados da KPMG de Março para Abril, mas, quando surgem, dá-se o inevitável: as contas não batem certo e as autoridades judiciais alemãs começam a investigar a queixa formal do regulador, o BaFin, que referia que a Wirecard enganou os investidores antes da publicação do relatório da KPMG, em 28 de Abril.

Em 18 de Junho, a Wirecard deveria ter publicado o relatório das contas de 2019 auditadas pela EY, mas alegou que faltavam documentos, isto é, o que faltava mesmo era saber do paradeiro de cerca de dois mil milhões de euros. No dia seguinte, Markus Braun renuncia ao cargo de CEO da Wirecard. É preso pouco tempo depois, em 23 de Junho.No dia anterior, em 22 de Junho, a Wirecard admitia a fraude. Seguiu-se a insolvência, em 25 de Junho. Fala-se que há 3,5 mil milhões de euros que os credores nunca irão recuperar, entre eles, 15 bancos espalhados pelo mundo.