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Jair Bolsonaro adopta medidas que antes condenava

Em oito meses de mandato, Jair Bolsonaro (PSL) mostrou que, no exercício do mandato de Presidente, a sua prática divergiu do que defendeu como deputado federal, quando era crítico contumaz daqueles que o antecederam no Palácio do Planalto.

No cargo de chefe do Poder Executivo, passou pelo que auxiliares presidenciais chamam uma "metamorfose", abandonando algumas posições de carácter ideológico e adoptando um comportamento mais pragmático, sobretudo no campo económico e na articulação política.
O Presidente recorreu a atitudes que o parlamentar condenava, entre elas a adopção de uma idade mínima de 65 anos no regime de aposentadoria, o favorecimento de familiares, o apoio a privatizações de empresas estatais e a utilização de uma política de "toma lá dá cá" para aprovar iniciativas governamentais.
Em quase 30 anos de mandato na Câmara dos Deputados, por exemplo, Bolsonaro subiu, em mais de uma oportunidade, à tribuna, para pedir que os filhos do ex-presidente Lula (PT) fossem investigados por terem ascendido durante a gestão do pai.
Em Julho deste ano, no entanto, anunciou que indicaria um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para o prestigioso cargo de embaixador do Brasil nos EUA e afirmou, nas redes sociais, que pretende beneficiar, sim, um filho seu.
Ele cogitou indicar ainda outro filho para um cargo no Governo, antes mesmo de assumir o mandato, na formulação de sua equipa presidencial. Avaliou nomear o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) para a Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência, mas recuou, após uma série de críticas.
Noutro episódio envolvendo familiares, Jair Bolsonaro permitiu, alegando questões de segurança, que parentes seus apanhassem boleia num helicóptero da Presidência da República para o casamento de Eduardo Bolsonaro com a psicóloga Heloísa Wolf, em Maio, no Rio de Janeiro.
Na articulação política, a prática também não coincidiu com o discurso. Sob o lema da "nova política", o Presidente criticou durante a campanha eleitoral o chamado "toma lá dá cá", expediente adoptado junto ao Congresso Nacional para a aprovação de projectos de interesse do Governo.
No primeiro turno da reforma da Previdência, no entanto, o Executivo liberou mais de mil milhões de reais em emendas parlamentares e, na terça-feira, dia 6, enviou um projecto que abre espaço orçamental para disponibilizar mais 3 mil milhões de reais, ou seja, 2,67 mil milhões de euros.
A chamada "nova política" também foi deixada de lado na intolerância em relação a acusações de irregularidades. O programa de governo, apresentado pelo então candidato à Justiça Eleitoral, ressaltava a garantia de uma "tolerância zero com o crime, com a corrupção e com os privilégios".
Até o momento, contudo, Bolsonaro não afastou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro António, que, como revelou a Folha de São Paulo, é suspeito de patrocinar um esquema de candidaturas de fachada do PSL em Minas Gerais, na campanha eleitoral do ano passado.
Na área económica, o Presidente chegou a defender, no passado, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fosse fuzilado por ter implementado uma política de concessões de empresas públicas à iniciativa privada.
"Barbaridade é privatizar, por exemplo, a Vale do Rio Doce como ele fez. É privatizar as telecomunicações. É entregar as nossas reservas petrolíferas para o capital externo", disse em 2005.
Desde que assumiu o mandato, porém, Bolsonaro já autorizou a venda da Eletrobras e tem afirmado que vai passar os Correios para a iniciativa privada. Chegou a demitir um presidente da companhia estatal, depois de este se ter mostrado contrário à venda da empresa.
Além disso, num vídeo nas redes sociais, criticou a adopção de uma idade mínima de 65 anos para homens na reforma previdenciária proposta pelo ex-Presidente Michel Temer (MDB), chamando o projecto de "porcaria". A iniciativa dele, porém, que foi aprovada em primeiro turno neste ano, estabeleceu a mesma idade.
Eleito com um discurso antipetista, costumava acusar o PT, sobretudo na campanha eleitoral, de dividir o país. Como Presidente, indica em seus discursos a prioridade de governar para os que o apoiam.
Em declaração feita em Sobradinho (BA), na segunda-feira, dia 5, condicionou o diálogo com governadores e a liberação de recursos federais a um apoio público deles à sua gestão e disse que são os mandatários nordestinos que agem para dividir o Brasil.
"Não vou negar nada para o Estado. Mas se eles (governadores) quiserem que realmente isso tudo seja atendido, eles vão ter que falar que estão trabalhando com o Presidente Jair Bolsonaro", afirmou.
A opinião do Presidente sobre política externa também sofreu mudanças. Em 1999, elogiou, em entrevista, o venezuelano Hugo Chávez e disse que ele era uma esperança para a América Latina. Mas hoje critica o país vizinho e o regime de Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, e diz que o Brasil precisa evitar que a Argentina se torne uma nova Venezuela.
Na semana passada, o Presidente afirmou ainda que o programa Mais Médicos não respeitava os direitos humanos, uma vez que os cubanos seriam impedidos de trazer seus familiares para o Brasil, apesar de a medida provisória que deu origem à iniciativa não ter essa proibição.
Em 2013, em discurso no plenário da Câmara, chegou a posicionar-se contra a entrada de familiares de cubanos que participavam do Mais Médicos.
Para a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), aliada de Bolsonaro, é natural que um Presidente, no exercício do mandato, mude seus pontos de vista e evolua nas suas ideias. Ressalta que ele tem, inclusive, reconhecido que pensa diferente.
"Ele tem feito isso com humildade e isso mostra a evolução dele, como na questão da reforma previdenciária."

 

As controvérsias do Presidente

A seguir, algumas das mais marcantes controvérsias do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro

Toma lá dá cá
Antes crítico do que chamava de "velha política", Bolsonaro distribuiu mais de mil milhões de reais em emendas parlamentares antes da votação do primeiro turno da reforma previdenciária, num contraponto ao lema eleitoral de implementar uma "nova política".

Tolerância zero
O programa de Governo do Presidente pregava uma política de "tolerância zero com o crime, com a corrupção e com os privilégios". No entanto, mantém no cargo o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro António, suspeito de patrocinar esquema de candidaturas de fachada em Minas Gerais nas eleições do ano passado.

Privatizações
Em 2005, Bolsonaro defendeu que o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso fosse fuzilado, por causa da sua política de privatizações. Desde a campanha, contudo, promete privatizar e vender estatais. Na semana passada, autorizou a venda da Eletrobras e tem defendido a entrega dos Correios à iniciativa privada.

Cubanos 
Na semana passada, ao lançar um programa em substituição do Mais Médicos, Bolsonaro afirmou que a iniciativa não respeitava os direitos humanos, uma vez que os cubanos seriam impedidos de trazer os seus familiares para ao Brasil - o que não condiz com a medida provisória que deu origem ao Mais Médicos. Em 2013, porém, Bolsonaro tinha-se posicionado contra a entrada de familiares de cubanos.

Venezuela
Crítico do regime de Nicolás Maduro, Bolsonaro tem afirmado que o Brasil precisa evitar que a Argentina se torne uma nova Venezuela. Em 1999, numa entrevista, Bolsonaro defendeu o ex-Presidente venezuelano Hugo Chávez e disse que ele era uma esperança para a América Latina. Maduro foi o vice-Presidente e sucessor de Chávez, que morreu em 2013.

*Diário de Notícias