Mundo

África e a Covid-19: como fazer o impossível com o que é possível

A Etiópia não optou logo pelo bloqueio nacional ao contrário da generalidade dos países do Continente africano e do mundo, mas antecipou medidas que foram implementadas nas economias desenvolvidas só mais tarde e foi capaz de controlar a disseminação do novo coronavírus com relativo sucesso.

E o sucesso da Etiópia mostra como é que os países africanos podem enfrentar de forma eficaz, e apesar da escassez de recursos, a pandemia.
Para surpresa de muitos, os governos africanos têm respondido de uma forma rápida e corajosa à crise da Covid-19 – é uma opinião que se consolida em alguns factos. Um dos mais consensuais é que o continente africano estava em desvantagem relativamente ao mundo desenvolvido para enfrentar o “inimigo comum”.

No final de Março, Abiy Ahmed, o Primeiro-Ministro da Etiópia e Prémio Nobel da Paz em 2019, escrevia, num artigo de opinião que foi publicado no Financial Times, que “as economias mais avançadas apresentam pacotes sem precedentes de estímulo à economia” – a esse propósito temos a mais recente proposta de 750 mil milhões de euros para um fundo de recuperação da economia europeia -, e, prosseguia, “os países africanos, por outro lado, não têm os meios necessários para fazer este tipo de intervenções de uma forma tão significativa”. No entanto, advertia,“há a consciência generalizada que se o vírus não for derrotado em África não o será no mundo”, e, por isso mesmo, o Primeiro-Ministro etíope argumentava, “estamos todos juntos nisto e devemos trabalhar juntos até ao fim”.

Olhando para a realidade país a país, no continente africano, temos que a Etiópia fez uma abordagem pouco convencional no combate ao surto pandémico. Desde o início, o Governo liderado por Abiy Ahmed entendeu que o sucesso do país no combate à Covid-19 dependeria não do número de ventiladores e de camas em cuidados intensivos - que não possuía -, mas das medidas de saúde pública adoptadas para conter a propagação do vírus. Ao mesmo tempo que o governo tentava, até ao limite, evitar danos maiores a uma das economias que mais crescia em África – a uma média anual de 10% entre 2004 e 2018 -, mas, ainda assim, vulnerável, salvaguardar esta tendência de crescimento – hoje impossível -, impedir a perda de postos de trabalho e garantir a sobrevivência das empresas passou a ser fundamental.

O Governo de Addis Abeba só decretou o “estado de emergência” em 8 de Abril, mas logo em Janeiro adoptou uma série de medidas restritivas. No final da semana passada, a Etiópia registava cerca de mil casos e oito mortes devido à Covid-19 - mesmo que conscientes que, e à semelhança do todo o continente, o pior ainda está para vir. O país está com uma taxa de infecção de 0,8% na população testada, sendo que 80% dos casos são pessoas com idades compreendidas entre os 24 e os 44 anos.

Em Janeiro, quem chegava ou partia era submetido, no aeroporto de Addis Abeba, a um rigoroso protocolo de triagem. O Ministério da Saúde, a nível central, e os governos locais e regionais, realizaram a triagem casa a casa a mais de 11 milhões de famílias, o equivalente a cerca de 40 milhões de pessoas, entre a capital e as províncias. Em Fevereiro, os dormitórios das universidades públicas transformaram-se em centros de quarentena obrigatória. E os testes passaram de zero no início de Março a mais de 5 mil por dia em Maio. A consciencialização e a educação públicas foram essenciais neste processo. OPrimeiro-Ministro comunica regularmente e o ministro da Saúde diariamente.

O Governo etíope deitou mão a algumas medidas de estímulo à economia, segun- do um princípio da partilha de custos e benefícios, sacrificando a receita à necessidade de alocar despesa para conter a pandemia, e através da negociação entre trabalhadores, confederações patronais e Governo muitas foram as empresas que entraram em lay off (suspensão da relação jurídico-laboral).

Rastrear e testar é agora o desafio

A África do Sul já iniciou o desconfinamento. Ghana e Quénia, que impuseram uma mistura de distanciamento social, restrições de viagens, uso obrigatório de máscara e recolher obrigatório, também estão de regresso a uma relativa normalidade. Nos países africanos a resposta à pandemia não foi homogénea, mas é tida como geralmente boa, apesar de o Presidente da Tanzânia, John Magufuli, ter posto nas mãos de Deus a luta contra o novo coronavírus, e no Quénia um grupo de pessoas que desafiaram o recolher obrigatório pelo menos 12 foram baleadas pela polícia, quase tantas quantas as mortes por Covid-19 na mesma altura no país - eram 14.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, no acrónimo em inglês) em África, só surgiram em 2017, e são agora fundamentais. John Nkengasong, um virologista nascido nos Camarões e especialista em HIV, dirige os CDCs a partir de Addis Abeba e tem estado em permanente diálogo com os Governos africanos, e com eles reúne esforços para o grande desafio que é testar em todo o continente.

Não por acaso, diz-se que uma das grandes vantagens dos países africanos é o facto de estarem familiarizados com as consequências devastadores das doenças infecciosas e de saberem lidar com elas.

Depois dos 15 milhões de africanos que morreram de Sida, nas décadas de 80 e 90 do século passado, mais recentemente o surto de Ébola na África Ocidental, que matou cerca de 11.300 pessoas entre 2013 de 2016, deixou um legado de óbitos, mas também de lições como lidar com uma epidemia. Daí o alerta precoce nos países africanos - acentuado pelo facto de assistirem ao desabar dos sistemas de saúde da China, Itália, Reino Unido e Estados Unidos quando tiveram de lidar com o novo coronavírus -, que, confrontados com a fragilidade dos seus sistemas de saúde, agiram rápido.

Conta-se mesmo uma piada, algo sombria, no Sudão do Sul, que tinha mais vice-presidentes (cinco) do que ventiladores (quatro). Os países africanos não tinham escolha: ou agiam cedo ou estavam irremediavelmente condenados.