Entrevista

Elizabete Dias dos Santos: “Temos feito um percurso ímpar”

Elisabete Zenilda Dias dos Santos é uma empresária “apaixonada” pelo agronegócio. Aos 40 anos, diz que encara com orgulho ser mulher, angolana e africana, comprometida com o país, para contribuir no aumento e na melhoria da produção nacional. Na entrevista ao Jornal de Angola, fala dos desafios que as mulheres africanas devem trilhar, para ajudar a desenvolver o continente.

A 31 de Julho, comemoramos o Dia da Mulher Africana. Podemos já considerar ganha a luta pela emancipação das mulheres no continente, em Angola em particular?

Tenho alguma dificuldade em perceber realmente o alcance da emancipação da mulher num todo, na medida em que esta luta é transversal a todas as mulheres, independentemente da sua raça, religião ou ideologia. A luta está longe de estar ganha, na medida em que o custo de oportunidades entre homens e mulheres não é equitativo. Sem buscarmos uma regra assente na competência e na oportunidade entre homens e mulheres, nunca teremos uma normalização efectiva de oportunidades entre os géneros. Nós, mulheres, temos feito um percurso de luta ímpar e sem igual. Exemplo disso são as imposições, mesmo com reduzido leque de oportunidades, que ainda existem para as mulheres.

No campo económico, já são visíveis as contribuições das mulheres?

Em todos os domínios, as mulheres apresentam-se competentes, determinadas e focadas. O que não acontece é um aparelho político, económico e social que dispõe de iguais oportunidades entre homens e mulheres. Um bom exemplo destas contribuições é na agricultura familiar e lideranças em sectores chave, quer políticos, quer sociais. Agora, sendo poucas as mulheres, é natural que a divulgação dos feitos não alcance os objectivos e se misture num ambiente completamente dominado por homens.

Fale-nos um pouco sobre como conseguiu triunfar nos negócios e o que faz para manter essa trajectória de sucesso?

Primeiro passo, no meu percurso profissional, foi apaixonar-me realmente pelo agronegócio. De tal modo que encaro com orgulho ser mulher, angolana e africana, que se apresenta de um modo realmente comprometido com o meu país e com os filhos e netos deste meu/nosso país. Para manter-me, o primeiro passo é andar com humildade e competência. Rodeio-me de pessoas com igual nível de comprometimento com os objectivos por mim geridos, que passam por estarmos entre os melhores na produção interna nacional. A questão deixou de ser pessoal e passou a ser de sentimento patriótico. Não concordo com a forma pouco transparente como definimos os empresários nacionais. Neste sentido, luto diariamente para reverter este paradigma que, por incrível que pareça, é de angolanos, para angolanos.

A diversificação da economia angolana pode contar com as mulheres? Em que áreas preferencialmente?

A diversificação da economia angolana precisa de todos nós (homens e mulheres), sérios e comprometidos. Neste sentido, as mulheres têm maiores vantagens, faltando melhorar-lhes o ambiente de negócios. As mulheres estão preparadas para todos os domínios! Mas sonho com o dia em que teremos só mulheres no Ministério das Finanças, que já existe, no Banco Nacional de Angola, na Agricultura e Pescas, no Comércio e Indústria … Aí sim, a emancipação estaria representada.

As mulheres têm mais facilidades ou não no acesso ao crédito bancário?

As mulheres têm todas as dificuldades de acesso ao crédito! Há uma clara discriminação neste campo. O que realmente é uma pena, porque os casos de maior insucesso no cumprimento dos serviços da dívida e acesso facilitado aos créditos são maioritariamente de homens.

A era da digitalização exige maior instrução e adaptação às tecnologias. Como as mulheres empresárias lidam com a situação?

Normalmente. Há uma actualização permanente das mulheres nos desafios das sociedades modernas e se têm superado ao mais elevado nível, em comprometimento e reacção.

O segmento em que actua tem outras mulheres ou apenas as que são revendedoras?

Há outras mulheres, exemplo da dona Filomena, em Benguela, com uma história belíssima de superação. Existirão outras, como pequenas produtoras, que mantêm uma maior interacção com a Associação dos Pequenos Produtores.

Já pouco ou nada se ouve sobre as associações empresariais femininas...

Deixa que lhe diga … Tenho pavor às associações. Há quem diga que servem para defender os interesses dos associados e permitir um diálogo mais filtrado entre as associações e os órgãos de apoio ao Presidente da República. Isso fez crescer a quantidade de associações, algumas até surpreendentes quanto aos seus objectivos. Com uma multiplicidade de associações, é natural que algumas vão desaparecendo, porque ainda existe muito pouco de tecido empresarial, para justificar tantas associações. Não conheço esta associação, em particular, e as poucas que conheço, acompanho muito timidamente. Mas todas são dominadas por homens e algumas mulheres.

Concorda que também o empresariado feminino está muito concentrado em Luanda? Como superar este cenário?

Penso que não. Não me parece! As maiores lideranças femininas e empresariais não estão em Luanda. Dentro do que conheço, estão fora de Luanda e são bem organizadas e fortes!

É possível conciliar sucesso empresarial com gestão de família e social?

Claramente... não é fácil! É necessário ter-se o parceiro sério e certo. Filhos comprometidos com os seus deveres e que todos eles nos apoiem naquilo que decidimos como desafio enquanto seres humanos, sem deixarmos de parte o lado familiar. Na parte social, nunca fui uma jovem de grandes eventos, acredito que quem assim opte terá um grau de dificuldade de gestão, em tudo na sua vida: faz tudo e não conclui nada. No meu caso pessoal, trabalho com prazer e cuido da minha família com prazer. Não sinto falta de uma vida social muito agitada. No outro dia, meu filho perguntou-me o seguinte: “mamã, como se conquista o sucesso?” Respondi-lhe que o sucesso não é uma busca individual, é um reconhecimento colectivo! Só se atinge o sucesso quando merecemos o respeito e admiração das pessoas que nos observam ou apreciam o nosso trabalho. Nunca busquei ter sucesso! Agradeço todos os dias às pessoas, aos clientes e ao país pelo reconhecimento das minhas contribuições para uma Angola melhor.

O que normalmente recomenda às principiantes no mundo dos negócios?

Em tudo na vida, precisamos de perceber a estratégia do que decidimos abraçar. Confiar com um olho aberto e outro fechado! Rodear-se de gente muito boa, mas que lhe reconheçam liderança para conduzir uma boa equipa! É como os treinadores de futebol: nem todos conseguiram ser grandes jogadores. Mas com um diferencial, nós temos de ser jogadoras e treinadoras!

O relançamento da actividade económica e empresarial, nesta fase específica, deve ser guiado pelo sector público ou privado?

Em todas as fases, boas ou más, o relançamento da actividade económica quem deve ou deveria guiar é o sector privado. Quando muito, existir uma co-gestão, pública/privada. O sector público deve criar linhas mestras de definição política e coordenação económica. Quem deve movimentar a economia são os agentes económicos, que devem merecer um bom ambiente de negócios proporcionado pelas políticas públicas.

Nome: Elisabete Zenilda Dias dos Santos

Filhos: tenho três filhos: um menino de 16 anos, o Vinicius; uma menina de 13 anos, a Fernanda, e a bebé de um ano e nove meses, a Bruninha Elizabeth.

Férias: por incrível que pareça, odeio viajar. Se o marido ou os filhos não pressionarem, não sinto falta.  Adoro viajar na minha mente e me reinventar. Passo as férias em qualquer sítio em família.

Local de nascimento: Nasci no dia 25 de Março de 1980, em Luanda.

Morada: Bairro Popular.

Idade: Tenho ricos 40 anos

Desporto: adoro praticar desporto, motas aquáticas, basquetebol, futebol, faço ginásio, com musculação, e não só.

Cozinha: sou excelente a cozinhar. As pessoas se surpreendem.

Prato: funge de miudezas, feijão de óleo de palma e kizaca.

Dança: danço muito bem.