Desporto

“Preparação da selecção tem de obedecer a critérios especiais”

A propósito da qualificação para o Campeonato do Mundo sénior masculino de andebol, a disputar-se em Janeiro do próximo ano, de modo inédito em dois países, Dinamarca e Alemanha, com presença assegurada por via da conquista da medalha de bronze no “Africano” das Nações, o Jornal de Angola visitou as instalações do Complexo Desportivo do Gama, onde entrevistou o seleccionador nacional, Filipe Cruz.

Na conversa, o técnico perspectivou de forma descontraída o Mundial de 2019, abordou a possibilidade de pesquisar atletas angolanos que actuam no estrangeiro, a ambição do grupo que dirige de jogar a final de um CAN e os aspectos a serem melhorados, visando o alcance de tal desiderato.

Angola está qualificada para o “Mundial” de 2019. Já existe um plano de preparação?


Filipe Cruz - Não. Terminámos recentemente o “Africano” e dentro de um ano disputamos o “Mundial”. É uma competição que vai merecer de todos especial atenção. Em 2017, as impressões que deixámos foram insatisfatórias. Vamos ter uma preparação diferente, com vista a uma representação condigna. As partes devem traçar um plano perspectivando o desafio que temos daqui a 11 meses.

Qual seria o tempo ideal de trabalho para deixarmos uma impressão diferente?


É ponto assente que temos de fazer algo diferente do “Mundial” passado. Temos de  trabalhar muito a vertente física. A preparação tem de obedecer a critérios especiais. Um Campeonato do Mundo não é um “Africano”. A exigência é muito maior. O tempo ideal seriam 45 dias.

De que condições dispõe?


Trabalho com o que está à minha disposição. O estágio em Rio Maior, Portugal, foi satisfatório. A julgar pelas condições de trabalho gostaria de voltar com uma programação mais ou menos dentro desta linha. Disputando dois ou três torneios, a selecção estará apta para o “Mundial”.

Já agora, qual o número de jogos e de que nível gostaria fazer?

             
É relativo. O fundamental é haver condições para realizarmos um bom estágio e, consequentemente, representar condignamente o país. Começamos a ter consciência de que alcançamos outro nível. Superamos a qualidade do nosso jogo, por isso vamos ser exigentes connosco mesmo. Portugal, se calhar neste momento, não é o ideal para os jogos de controlo.
 
Que avaliação faz do desempenho do “sete” nacional nas duas últimas presenças no Campeonato Africano das Nações (CAN)?


A conquista da medalha de bronze em duas edições consecutivas não foi obra do acaso. Estamos no bom caminho e, no futuro, vamos superar o terceiro lugar. O mais difícil é manter-se lá. A nossa prestação superou a expectativa. Não fomos consistentes de todo durante a competição e os desafios são cada vez maiores. Somos um problema paras as equipas do Magreb. Vamos continuar a trabalhar para crescer como equipa.


O que falta para jogarmos uma final africana das nações?


 Todos temos ilusões de que um dia iremos lá chegar. Temos de criar condições para ultrapassar as nossas debilidades. Se melhorarmos, na ordem dos 20 ou 30 por cento, podemos jogar uma final. A ideia é implementar coisas novas e eliminar o que afecta negativamente o desempenho. Vamos pesquisar na Europa se temos jogadores disponíveis para ajudar a selecção. É importante ter 16 atletas com a mesma capacidade, técnica e táctica.

E o quadro competitivo interno pode trazer melhorias para o “sete” nacional?


Esperamos que sim. Em função da própria conjuntura do país não vejo mudanças num futuro próximo. En-quanto agentes desportivos, devemos procurar soluções, trabalhar na formação e superar dificuldades.

Existe algum posto específico que precisamos de reforçar?


Há melhorias a fazer em todos os postos. Geovani Muachissengue praticamente está sozinho. Precisamos de reforçar os extremos, laterais e pivôs. Verifica-se um défice no biótipo, por serem mais franzinos, mas com trabalho podemos contrapor a mais-valia física das outras equipas.

Com 33 anos, Geovani está no fim da carreira?


FC - Somos obrigados a fazer a gestão da carreira dele. Se não tiver problemas de or-dem física, ainda tem muito para dar. Espero que ele consiga jogar até aos 40 anos. Desde muito cedo que ele fez a diferença.

No “Africano” houve algum atleta que o surpreendeu?


Fiquei surpreendido pela positiva com o conjunto. O nível e a qualidade do jogo que apresentaram é resultado da técnica de cada atleta. Não seria justo destacar um ou outro jogador. A única estrela que existe é a equipa. Disputámos sete jogos, quatro atletas foram destacados em distintas partidas como Melhor Jogador (MVP) e um integrou o “sete” ideal da competição. Portanto, prevaleceu o trabalho de equipa.

Como estiveram os seis estreantes?


Uns melhores que os outros. Todos tiveram os seus mo-mentos. O mais importante foi dar-lhes experiência e rodagem competitiva. De alguma forma, tiveram pouco tempo de jogo. É normal.

Sentiu que a renovação da selecção foi oportuna?


Sim. Conversei com a minha equipa. Acreditámos no nosso trabalho, seja com o atleta A ou B. Se trabalharmos com dedicação, as coisas funcionam sempre e sobre este ponto de vista a aposta foi ganha. Foram unânimes os elogios, por parte dos intervenientes das outras equipas, segundo os quais o trabalho desenvolvido com atletas jovens é notório. Este é o caminho a seguir.