Desporto

Exercícios ao ar livre ganham adesão no bairro Futungo II

As manhãs e noites mudaram de paradigma do Futungo II, com muitos moradores a optarem pela prática de exercícios físicos no calçadão, que se estende do largo da Corimba até à estrada que dá acesso ao Centro de Conferências de Belas.

A actividade (acontece em muitos bairros de Luanda) começou com pouco mais de uma dezena de praticantes. Mas, desde Maio, por altura do decreto de Situação de Calamidade Pública, devido à Covid-19, viu o número aumentar de forma exponencial.

É fácil, para os que passam por aquele perímetro, ver duas, três, cinco, dez, cinquenta ou mais pessoas a suarem o corpo com caminhadas, corridas, exercícios localizados, etc. Alguns, poucos por sinal, respeitam as regras (distanciamento de 1,5 ou de 2 metros, uso de máscara facial, lavagem constante das mãos), mas outros, a grande maioria, nem por isso.

Helena (doméstica, de 30 anos), Esperança (educadora de infância, 45) e Ana (balconista, 35) são moradoras no bairro do Cauelele, a mais ou menos 300 metros do calçadão. As duas primeiras nunca tinham praticado qualquer modalidade desportiva, ao passo que a última, anos atrás, pertencera aos escalões de formação da Académica do Lobito. Contudo, nos últimos anos, Ana passou a dedicar-se aos cuidados de casa e, tal como as duas amigas, caiu para o sedentarismo.

O tédio e alguma saudade do tempo em que era atleta levaram Ana a convidar as vizinhas para uma caminhada, depois de ver o resultado positivo que a actividade produziu nalguns vizinhos, visivelmente mais esbeltos, a esbanjarem boa disposição e jovialidade.

“Lena, Esperança...acordem! Já são cinco horas. Vamos treinar”, alertou certo dia Ana, apercebendo-se que as amigas demoravam a sair de casa.
Entre as três, existe o princípio segundo o qual “quem acordar primeiro, chama as outras”. E lá foram, vestidas de calção, fato de treino e calçadas de sapatilhas e ténis rasos. Passados dois meses, as três já parecem mais esbeltas.

“Já não pretendo parar!”, disse Esperança ao Jornal de Angola, visivelmente satisfeita.

As três senhoras pertencem a um grupo de 25 alunos (de ambos os sexos e com idades variadas), que são acompanhadas pelo professor Fernando Maurício, coadjuvado por outros três especialistas em Educação Física.

Assim que chegam ao local de treino (por sinal, um espaço concebido para o parqueamento de viaturas, próximo das Casas Brancas, onde houve a cerca sanitária derivada do mediático “caso 26”) encontram outras pessoas que vão mais cedo. Contudo, o grosso de praticantes aparece entre as 5h30 e 6h00. No geral, entre os presentes, alguns optam por apenas fazer uma caminhada de 30 minutos ou uma hora, outros fazem o mesmo antes de entrarem para exercício abdominais, de pernas, braços, e glúteos. Helena, Esperança e Ana, depois de correrem ou caminhar, juntam-se ao grupo. A sessão termina por volta das 7h00, com palmas que traduzem a satisfação pelo cumprimento de mais um dia de actividade física.

“As aulas de Educação Física visam alcançar vários objectivos, como estimular o sistema imunológico, prevenir doenças cardiovasculares, reforço da musculatura, perda de peso, modelar o colesterol, ajuda a prevenir a obesidade, melhorar a saúde mental, prevenir a depressão, aprofundar as habilidades elásticas, entre outros benefícios”, explica o monitor.

Aumento da procura

Os primeiros resultados da prática de Educação Física começam a aparecer, o que leva a que mais pessoas tentem juntar-se ao grupo. Contudo, devido à Situação de Calamidade, o professor Maurício prefere não passar dos 25 alunos.

“Estamos a dar aulas desde 7 de Março, quando um grupo de senhoras nos interpelou, nas primeiras horas da manhã, nas imediações do calçadão do Futungo II. As mesmas pretendiam melhorar a condição física. Como não tinham uma orientação, solicitaram-nos.

Começamos com seis praticantes, mas ultimamente chegamos ao numero 50 e tivemos de dividir o grupo em dois, devido à pandemia”, explicou Maurício, para quem o treino em espaço livre é vantajoso no que toca ao ar puro que se respira, sem poeira e, pelo facto de o espaço ter sido concebido para parque de estacionamento, “já ter as linhas marcadas, que permitem o distanciamento de dois metros recomendados pelas autoridades sanitárias do país”.

“Os treinos devem ser orientados por um especialista”

Formado em Educação Física, o professor Vivaldo Eduardo mostrou-se a favor da prática de exercícios físicos ao ar livre, desde que sejam orientados por um especialista e algumas regras sejam respeitadas.

“Os benefícios dos treinos ao ar livre, que se vêem em muitos bairros de Luanda, passam pela boa oxigenação, desde que não haja factores poluentes ao redor. Passam também pela melhoria de todas as funções orgânicas e o reforço do sistema imunológico. Caso seja em grupo, gera interacção entre as pessoas”, explica.

O treinador de andebol da equipa sénior feminina do Petro de Luanda realça a importância de, nestes treinos, haver sempre a orientação de um especialista, ao contrário do que acontece, em muitos casos, em vários pontos da capital do país, com carros a fumegar e a aproximação entre as pessoas.

“Os treinos devem ser orientados por um especialista, pois ele saberá prescrever os exercícios adequados a cada praticante, em função da idade, peso, estado actual de saúde e patologias anteriores ou actuais”, realçou.