Cultura

Tenor angolano Nelson Ebo dá voz a novo projecto solidário

“Uma alma de luz” é a denominação do novo projecto artístico do tenor angolano Nelson Ebo, actualmente a residir em Nova Iorque, EUA, e o compositor belga Dimitri Arnauts, que vai estar disponível para o público, via online, de forma gratuita, a partir de amanhã.

A parceria artística representa para o solista angolano mais um passo rumo a afirmação da carreira internacional e a possibilidade de mostrar ao mundo o potencial dos talentos nacionais. “Sou profundamente grato a Dimitri Arnauts por compor esta maravilhosa obra de arte. Desenvolvi uma profunda conexão com a música, uma vez que ela falou da minha experiência de vida”, disse, ontem, ao Jornal de Angola. 

Como primeiro intérprete da música, o cantor angolano vê o convite como um reconhecimento ao talento próprio e à dignidade dos artistas angolanos feita pelo compositor belga, cuja parceria vai se estender, ainda, por muitos anos. A música, a ser interpretada pelo tenor angolano e uma Orquestra Sinfónico virtual, tem a duração de sete minutos e é apresentada no formato “vídeo de arte”, de forma a evocar o sofrimento e a esperança dos pobres, famintos e desabrigados.

Baseada em um ditado do filósofo e místico hindu Swami Vivekananda, a música tem como base as facetas das “Sete obras da misericórdia da fé cristã”. A organização informou ainda que embora a música esteja disponível de forma gratuita, no formato “streaming”, nas páginas oficiais dos artistas, a ONG Mosaiko, inspirada e liderada pelos dominicanos e activa no país, onde promove e defende os Direitos Humanos, o objectivo é motivar o “espírito” solidário entre os ouvintes e apoiar os mais necessitados em Angola, em particular, e África, no geral.

Para o compositor belga Dimitri Arnauts, conhecido, a nível internacional, pela beleza reafirmada da melodia, harmonia tonal e contraponto, das suas composições, a parceria com o cantor angolano tem sido benéfica.  “Sinto-me muito honrado e abençoado pela frutífera colaboração e acredito que ele gravou a melhor execução possível da minha música: uma cheia de emoção, dignidade e esperança, mas sem tentar escapar da cruel realidade de sofrimento e desespero.

Ao invés disso, eleva ambos sentimentos num lamento infundido de uma nobreza e urgência quase profética. Sinto que ambos fizemos o melhor para servir, sinceramente, à causa dos pobres e dos aflitos em Angola e no mundo”, disse.

Histórico

Nelson Ebo nasceu em Angola em 1984, durante a guerra civil. Desde a infância, lutou contra a guerra e a doença que ceifou a vida dos pais e vários irmãos. Aos 14 anos, foi apresentado à música coral no coro da igreja. O fascínio pela ópera começou por acaso, quando ouviu um CD da ópera de Luciano Pavarotti e Placido Domingo.

Auto-didacta, aprendeu a cantar sozinho. Os primeiros espectáculos foram dados na Casa 70, em Luanda. Em 2001, cantou num concurso sobre direitos humanos, organizado pela ONU e o Ministério da Justiça angolano. Impressionado com o talento do cantor, a Agência Espanhola de Cooperação Internacional o apoiou a prosseguir o estudo de música na Espanha.

Em 2008, mudou-se para os EUA como bolsista na Hartt School of Music, onde estudou com Wayne Rivera. Em 2011, fez um teste e foi aceito como “artista residente” na Academy of Vocal Arts na Filadélfia, onde estudou com o renomado professor de voz, Bill Schuman.  Ao longo da carreira, Nelson Ebo ganhou prémios da Fundação Gerda Lissner e Opera North, assim como já actuou em concertos nos Estados Unidos, Europa e Angola.

Em 2011, Marcello Giordani, renomado tenor internacional, o convidou para se apresentar com ele em espectáculos, em Nova Jersey e na Sicília. De Setembro de 2011 a Maio de 2013, o angolano cantou em diversos eventos musicais da Academy of Vocal Arts, na Filadélfia, EUA.  Por sua vez, Dimitri Arnauts é um compositor belga que escreveu inúmeras obras de vários tamanhos e configurações, sendo principalmente cantatas, salmos, oratórios, concertos, sinfonias e poemas sinfónicos.

Como auto-didacta, sempre esteve à vontade quanto a criação artística e estabeleceu, desde o início, as bases para uma arte musical própria, assente no poder poético da harmonia tonal.  A primeira contribuição para um concerto como compositor ocorreu em Junho de 2012, quando um excerto da definição de tom do Salmo 100 foi executado pelo Coro e Orquestra da Chapelle des Minimes em Bruxelas, sob a direção de Julius Stenzel.

Em 2018 dirigiu a estreia de “Requiem Sancti Michaelis”, na Igreja de Santa Catarina, em Duisburg, Bélgica. No mesmo ano concluiu os cursos de regência coral e orquestral, em Oxford, Reino Unido. Até ao momento publicou quatro álbuns de música original online, compreendendo obras solo de órgão, improvisações vocais, reflexões de piano e dois filmes de concerto completos.

Membro fundador do novo coletivo internacional de compositores Muse11 e também do Arquipélago de Compositores Flamengos (COMAV), Dimitri Arnauts pretende criar, até 2021, a primeira ópera de câmara, em tamanho real, na antiga Laeiszhalle-Elbphilharmonie em Hamburgo, Alemanha.